terça-feira, 23 de outubro de 2007

Sabe o ar a vinho tinto
chambreado
no esconderijo sagrado
dos dedos voluntariamente duplos


Olhos de paisagem passeiam
pelos telões
inventadamente0
oásis do ser


Encontros cromáticos
nascem
no espaço carmesim
no mais fundo estado
de lucidez


Corpos
erguem-se beijam-se possuem-se
nos nocturnos abraços
do álcool


Fremem no atelier
palpitações desejos transbordantes
quentes
de tão pele na pele
nas mãos do mestre-amante


Sabe o ar a vinho tinto
chambreado
no esconderijo sagrado
dos amantes sem hora

há qualquer coisa, Editorial Minerva (2000)

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A F. P.

Sei a tua dor
Desde o dia em que te li
Sempre que te leio

Conheço
Tão bem o incomensurável
Do teu sentir tudo
Até à perversão
Soube-te a nada a tua existência
Tão essência

Buscaste-te
Nas entrelinhas do teu pensar
Doentemente
Para te encontrares inteiro
Mas ficaste ainda e só
Tu
Entregue à embriaguez de seres
Outros
Que não mais eram do que tu contigo

Ler para ser

Há uma passagem de um autor de que gosto particularmente. Fala da magia da leitura e do prazer que é entretecer-nos nas palavras dos livros que procuramos ou que, por um feliz acaso, nos chegam às mãos.
Para Michel Tournier a leitura é um milagre de que se sente “testemunha e actor várias vezes ao dia”, porque participa e se enreda completamente nos textos, nas aventuras, como se delas fosse participante. O “maço de folhas de papel enegrecidas de sinais” transformam-se e no seu espírito de leitor e recriador da palavra desenrolam-se uma série de aparições com as quais se emociona.
Este milagre é sempre passível de ser sentido por todos aqueles que não resistem a um bom livro, a uma boa história, a um momento de fruição pura. Porque ler não é maçada. É descoberta do outro e de todos os outros que não estando aqui e agora in presentia o estão nas suas palavras.
Os livros ensinam, divertem, encantam, provocam. Os livros fazem-nos sentir emoções contraditórias, repensar a nossa conduta e a nossa condição, questionar o descoberto e o ainda a descobrir.
Ler é e será sempre para o leitor verdadeiro, o leitor implicado, um acto de amor. Daniel Pennac sabe-o bem. Segundo ele “O verbo ler não suporta o imperativo”. É uma aversão que compartilha com outros: o verbo “amar”, o verbo “sonhar”…”. Sem dúvida! Da obrigação nasce sobretudo a aversão, a indiferença, o repúdio, o desamor. Não há imposição que seja bem aceite.
Porque lemos? Que livros lemos? Quantos livros lemos? Quantos lemos em simultâneo? Não teremos com certeza de explicar porquê. Diremos apenas “porque sim”, porque gostamos, porque é uma necessidade como tantas outras. Talvez tão urgente e premente como a sede e a fome.
Lemos sempre e cada vez mais, este, aquele e outro autor, lusófono, estrangeiro, traduzido ou não, para sermos o que somos: leitores apaixonados.

Páginas da infância

Os primeiros dias, os primeiros meses, os primeiros anos do Ser, que um dia seremos, depois de muitas aprendizagens, não podem aparecer subitamente. Há memórias que, ainda que registadas no inconsciente de cada um, não podem ser evocadas de imediato. Então, os pais contam como cada um foi, partilham os primeiros passos desse ser na caminhada que é a vida. É assim que esse outro lado de cada um aparece. Se há registos fotográficos, é ainda mais simples.
São fotografias de recém-nascidos até à criança, já com memórias. O dia do baptismo, em que nos vestiram um lindíssimo vestido de cerimónia; os aniversários ao colo do pai ou da mãe, para apagar a vela ou as velas do bolo de aniversário; as reuniões de família, sobretudo no Natal; o primeiro dia na escola; os primeiros amigos que nos deixaram receber em nossa casa; as brincadeiras no parque, no jardim, na rua, na praia. O pai e a mãe, às vezes, sobrepõem as suas vozes, narram os episódios de cada uma delas.
Aquelas imagens cristalizadas, de um tempo que ficou lá atrás, contam a história pretérita de cada um. Esses testemunhos são importantes. Quem os ouve, segue as palavras com atenção, fica suspenso nas palavras desses fiéis narradores, para se reconhecer.
Ali estão os momentos cristalizados, estáticos, mas de uma infinita inocência e pureza. Como são belas! Quantas vezes são (re)visitadas! Para recuperar essa identidade; a primeira, a que viria a definir-se. Quantas esperanças depositadas que, tantas vezes, não se concretizaram.
Eles, nossos progenitores, emocionados e agradecidos por esse recuo no tempo, que só assim recuperam, descrevem, em pormenor, as roupas, a escolha dessas e não de outras, os comportamentos, as brincadeiras desse dia. E a luz espalha-se nos seus rostos. Também eles eram outros!
Contudo, a emoção de outrora não é a de hoje, que as emoções não se repetem. Tal como esses dias, esses meses, esses anos.

14 de Maio de 2007