Se não fosses escritor, que serias?
Sê-lo-ia sempre,
que a natureza de um iluminado não deixa nunca de ser
a magia de dizer o incrível que o habita.

Outrora esta paisagem, que não era bem a mesma, apaziguava-me. Ficava horas, não sei bem quantas, enquanto esperava o autocarro, a olhar para o rio Tua e para as suas margens. Como o tempo fluía suavemente. Por vezes, acompanhada de um bloco, desenhava ou escrevia trechos narrativos ou poemas. Nessa altura, já me sabia só. Nessa altura, buscava a solidão. Nessa altura, era jovem e sonhava. 
Ainda não há muito tempo, fui passar um fim-de-semana a Paris. Encantou-me voltar lá depois de tanto tempo.
Naqueles dias, que correram num ápice, lembro-me sobretudo de um evento que decorreu durante essas noites na capital francesa.
Em cada espaço da cidade, fosse ele sagrado ou simplesmente nas ruas, aconteceram as "nuits blanches". A cidade da luz reafirmou-se como a cidade da luz.
À noite, várias expressões artísticas inundaram a cidade de luz, som e cor. Numa catedral, um dos artistas encheu vários balões que se elevaram a uma certa distância e, quando as luzes se apagaram, ficaram apenas iluminados os balões que desenhavam, no espaço, um ponto de interrogação luminoso. Numa das praças, havia uma estrutura metálica que cuspia fogo, cuja intensidade variava, de acordo com o sopro de uma jovem cuspidora. Havia encenações em línguas imaginárias, constituídas por sons e alfabetos imaginários. Outros artistas faziam pantomima. Outros ainda declamavam poesia.
Paris encheu-se de arte e magia, horas e horas consecutivas... pela noite dentro.
Nunca o pulsar nocturno de uma cidade me impressionou tanto. Talvez seja apenas um sentimeto meu, que me identifico com as diferentes expressões de arte e, ainda mais, com Paris e com a França!