sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Charles BAUDELAIRE, Les fleurs du Mal


Tristesses de la lune

Ce soir, la lune rêve avec plus de paresse ;
Ainsi qu'une beauté, sur de nombreux coussins,
Qui d'une main distraite et légère caresse
Avant de s'endormir le contour de ses seins,

Sur le dos satiné des molles avalanches,
Mourante, elle se livre aux longues pâmoisons,
Et promène ses yeux sur les visions blanches
Qui montent dans l'azur comme des floraisons.

Quand parfois sur ce globe, en sa langueur oisive,
Elle laisse filer une larme furtive,
Un poète pieux, ennemi du sommeil,

Dans le creux de sa main prend cette larme pâle,
Aux reflets irisés comme un fragment d'opale,
Et la met dans son coeur loin des yeux du soleil.




quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Duas identidades



Tenho duas identidades, dois sentires que, de tão opostos, por vezes, nem me reconheço. Não fui eu a sua criadora. Foram as circunstâncias.
A minha identidade verdadeira, a que me diz e é autêntica é, sem dúvida, a primeira. Porque sou verdadeiramente eu: nome, data, local de nascimento.
A segunda identidade, da qual só tomei conhecimento aos 11 anos, altura em que foi necessário utilizar o bilhete de identidade, tomou-me de assalto. Senti-me incrédula, injustiçada e, ao mesmo tempo, uma estranha.
Natália Jesus Seixas Augusto não era eu. Como podia digerir tamanha usurpação de identidade? Não a digeri. Nunca. Mas também nunca exigi que a verdade fosse reposta. Para quê?
Assim, não me é necessário criar outros eus, porque, quis o acaso, que tivesse pelo menos dois! Ainda que muitos outros me apareçam!

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Infância

Sabes
ainda rego as rosas odoríferas
inventadas a cada gesto preciso
no jardim
que era secreto e só nosso

Ainda as olho, toco e trato com paciência
como me ensinaste
e acarinho-as
com o mesmo olhar
cândido e ingénuo

Nesses momentos
roubados criteriosamente a qualquer relógio
volto a ser a criança
feliz
que brinca sob o teu mar e céu

Ainda oiço o timbre da tua voz
nas suas pétalas-veludo
porque os zéfiros ma sussurram
nesta hora
que se transformou num agora
sempre sem ti


sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Aos meus amigos


Hoje,

Quero apenas desejar-te um bom dia.

Quero que recebas agora um sorriso meu, ainda que invisível a teus olhos.

Quero deixar de dizer o que te possa magoar.

Quero calar-me para te ouvir melhor.

Quero pedir-te que esqueças os meus muitos defeitos.

Quero também pedir-te desculpa pelas lágrimas que não soube ocultar.

Além disso, quero que saibas que me vejo no teu amanhã,

Porque te guardo no meu coração e nos meus pensamentos.



Nathalie


sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A meu pai

O piano de Chopin
interpreta
melodias que são o anúncio
da harmonia
cósmica


Nessas horas lentas
de notas sensíveis
soçobram
vozes silenciosas
de seres
maiores do que nós
que andam invisíveis
ao nosso lado


Pedem-nos
que tenhamos os olhos
de sol e lua
e que caminhemos a seu lado
com o Indizível
no nosso olhar




quarta-feira, 17 de setembro de 2008

In no distant sea



To be back isn't bad after all. There is always something new to discover and something pleasant to remember. No matter what.
I feel i'm returning home. And that is, indeed, difficult to understand or describe because i don't live in Alcochete. I simply work there!
The fact is, i' m happy to work in such a lovely, quiet and melodious village as Alcochete. It is, probably, one of the most remarkable, poetic and impressive places not far from Lisbon.
It's so easy to imagine possible tales of mystery and travels... adventures far and away, in no distant sea. I have in me its sounds: the song of waves and wind, the voices of sea-gulls, the enchanted murmur from the shore.
This is a village where i would wander if i might from dewy morning to dewy night, and have no one with me wandering.

Auxerre


Nas manhãs brancas de Inverno
descias
as escadarias que davam acesso ao pátio
interior
do liceu Jacques Amyot.

Inalavas a longos tragos
o ar gélido.
Fixavas o olhar esplêndido
nas copas frondosas das árvores
que te traziam reminiscências de ouro.

Depois, caminhavas
em direcção à salinha de música
onde entre adágios, allegros e nocturnos
compunhas as melodias do sentir.

Outras vezes, visitavas Marie Noel
e, num mudo diálogo,
ouvias-lhe os seus poemas,
que ecoavam ainda
quando entravas
tranquila
na catedral Saint-Etienne.

Mas o que mais te fascinava
era saberes-te tão grande e inteira
numa cidade estranha
onde o acaso te deixara ir.