segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Experiência ficcionista 1



Estava sentado na esplanada de um café quando te vi surgir ao longe. A princípio quase não te reconheci, todavia à medida que te aproximavas, as dúvidas foram-se desvanecendo. Mudaras o corte do cabelo, o estilo da roupa, mas não os gestos. Esses eram indestrutíveis e o meu ponto de referência nesse momento. O modo de andar, o balançar suave do corpo, o mexer das mãos, que todos julgavam ensaiado, continuavam os mesmos. Não sabia se deveria abordar-te ou se, pelo contrário, deveria deixar-te partir como acontecera alguns anos atrás. Fosse como fosse, eu não sairia dali para te falar. Terias de cruzar o meu caminho, pois só assim saberia que ambos estávamos inexplicavelmente, inexoravelmente ligados um ao outro.
E se atravessasses a rua e mudasses de passeio, sentiria ainda vontade de pronunciar o teu nome, de o gritar elevando a minha voz, transformando-nos no centro das atenções? E porque não? Na verdade, valia a pena sermos o centro das atenções, por tua causa. A ideia ainda há pouco pouco consistente, ainda que surreal, agradava-me. Imaginei-me então a gritar bem alto o teu nome, erguia-me e fazia-te um gesto com a mão. Os outros homens que desfrutavam também da frescura da esplanada, voltariam o rosto para o fim do meu chamamento. O teu nome gritado não iria além de ti, porque só a ti pertencia e a mais ninguém. Só tu o vestias e transformavas na sua individualidade, distinguindo-te de todas as mulheres com outros e o mesmo nome. Tu, única portadora do teu nome, reconhecendo-o no meu grito, olharias para mim que o fizera nascer e corresponderias ao meu aceno com um sorriso. E continuarias a avançar para encontrar o novo criador. Para me dizeres que nunca antes o ouviras dito assim.
Não mudaste de passeio e caminhavas na minha direcção aproximando-te cada vez mais. Quando passaste perto de mim, sem me ver, nada disse. Não fui capaz de te chamar. O teu nome morreu-me na garganta. Afinal não era tão impulsivo como pensava, nem tão decidido. Nem te vi afastar porque estava de costas voltado para o vazio que tu deixaras sem saber.

sábado, 8 de novembro de 2008

23 de Setembro de 2008


Estou como sempre estive, em outros locais, numa outra fase da minha vida. Escolhi, num dos meus passeios solitários, tal como outrora, o meu pequeno retiro.
Sentei-me numas escadas de granito que dão para uma praia fluvial. Daí vejo a outra margem. Desde Lisboa a Vila Franca de Xira.
Mais perto, ondulam no Tejo pequenas embarcações dos pescadores e barcos de recreio.
Hoje está um dia de luz nítida, vento desassossegado sem soprar demasiadamente forte. Vagas de um castanho constante vêm em direcção à praia de areia, pedras e seixos.
Sabe-me a sonho estar aqui, mais tranquila, num mutismo absoluto. E o silêncio que não é de todo silêncio, é a voz do rio, o canto de pássaros e o grasnar de gaivotas, o ruído dos automóveis que passam na estrada calcetada e as picaretas dos calceteiros que concertam o passeio.
Tudo o resto que os meus olhos abarcam é maior que tudo. É a paisagem marítima, no primeiro dia de Outono.

sábado, 1 de novembro de 2008

O sorriso de Mona Lisa

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Há tanto tempo
que este fundo silêncio
não é
o silêncio
mas a tua ausência

Sabemo-la
todos os anos, meses, dias
até as flores que eram tuas
a sabem
porque é infinita


quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Reminiscências do nosso jardim

Ainda sinto o perfume
das manhãs claras no jardim
quando me pegavas na mão
e me levavas
a ver as rosas

Eu deixava-me guiar obediente
para depois te deixar
inadvertidamente
e correr além-horizonte

Era então que o teu olhar-mar
se toldava de névoa
por me saber tão sonhadamente
rebelde

Mas eu corria sempre na tua direcção
depois de desafiar
a tua autoridade
porque o sol te inundava suavemente



quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A meu pai, Armindo Augusto

Deixaste que fosse pássaro
para que o céu e todo o espaço
me desse de beber
tragos de sentir e sopros de ser
no colo dos sonhos
contra qualquer ameaça

***

Deste-me a força e a agrura das fragas
para que essa semente
frutificasse em solo fértil
sem desesperança e muita convicção
na flor da sensibilidade
no delírio justo da criação

***

Tudo me deste para eu ser grande
Mas não fui forte como querias
porque anteciparam a tua partida
e no meu luto de anos e anos
fiz-me cativa do meu desespero
***
Não
Não quero que os teus amorosos olhos
azuis mar céu tranquilidade
se vistam de mágoa líquida
pois voltei a ser pássaro
e a sonhar os nossos sonhos

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Charles BAUDELAIRE, Les fleurs du Mal


Tristesses de la lune

Ce soir, la lune rêve avec plus de paresse ;
Ainsi qu'une beauté, sur de nombreux coussins,
Qui d'une main distraite et légère caresse
Avant de s'endormir le contour de ses seins,

Sur le dos satiné des molles avalanches,
Mourante, elle se livre aux longues pâmoisons,
Et promène ses yeux sur les visions blanches
Qui montent dans l'azur comme des floraisons.

Quand parfois sur ce globe, en sa langueur oisive,
Elle laisse filer une larme furtive,
Un poète pieux, ennemi du sommeil,

Dans le creux de sa main prend cette larme pâle,
Aux reflets irisés comme un fragment d'opale,
Et la met dans son coeur loin des yeux du soleil.