
Estava uma manhã tranquila azul. Caminhava descalça numa qualquer praia solitária. Por uma vez, a praia era só minha. Inalava os tragos de maresia que me embriagavam os sentidos. Fechei os olhos, caminhando e sentindo ainda mais o que sempre me fora familiar. Deixava que o sol me tocasse, ouvia o marulhar das ondas, sentia a humidade da areia, visualizava as rochas que se erguiam, ainda longe, à minha frente e as árvores que ficavam atrás de mim.
Estava ali para ver, ouvir e sentir. Como nunca me haviam permitido, por receio do que pudesse fazer-me. Todavia, tudo me pacificava. A angústia, o desespero, a tristeza tinham-me finalmente dado tréguas. Não corria perigo. Na verdade, nunca correra perigo. Ainda que poucos acreditassem. Porque tentara não-ser noutras alturas.
Abri de novo os olhos, sob o chapéu de abas largas. A túnica semi-transparente abria-se revelando as minhas pernas ligeiramente bronzeadas. Continuei a caminhada. Para melhor sentir o sol e a brisa marítima tirei a túnica. Deixei-a onde caiu. Mais adiante tirei a parte superior do biquíni, acto já normal. Deixei-o também ao acaso, por ali. Lá mais à frente, decidida a entrar no mar, tirei a parte inferior. E entrei no mar.
Primeiro deixei que me acariciasse as pernas, as coxas e o ventre. Sempre que a água aí chegava sentia um ligeiro e delicioso arrepio. Só depois me decidi a mergulhar. O mar tocou a nudez do meu corpo envolvendo-me no seu longo abraço líquido e salgado. Nunca até então fora tudo tão e só eu... ainda que o teu rosto ainda ausente me acompanhasse.
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Texto dedicado a Vítor Carvalho, um amigo muito especial