segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Ainda e sempre Paris




Depois do regresso a Lisboa
perguntei-te
Estás satisfeita com a tua obra
***
Não me respondeste
Nem me olhaste olhando o Mar da Palha
mas sem o veres
sem sequer o tentares reconhecer
***
Tudo era ainda e sempre Paris
***
A cidade estava em ti
iluminava-te
e roubava-te em absoluto
da realidade previsível do hoje
***
Continuavas a passear-te
pelos boulevards
de onde vias os bateaux mouches
percorrendo o Sena
***
Tranquila bebias tragos de kir royal
numa terrasse dos Campos Elíseos
num qualquer fim de tarde
revendo os teus papéis
***
Outras vezes ias até à Fnac
na Grande Arche de la Défense
onde folheavas por horas intermináveis
romances, peças de teatro, poesia
que devolvias às estantes ou compravas
***
Nessa desejada estadia
o romance que ali iniciaste e terminaste
continua a ser esse teu silêncio
sem edição prevista

domingo, 18 de janeiro de 2009

Momentos estéticos

Pedro Reis Miguel, Sem título (acrílico sobre tela)
***
No grande silêncio
de momentos solitários
ouviram-se
músicas de um outrora
proferiram-se
palavras vestidas de cetim
pintaram-se
telas de paixão

sábado, 17 de janeiro de 2009

Páginas do ser



Não cerres os olhos
à paisagem humana
que te anuncia
as viagens de tempestade
na sua vida de insinceridades

Não te revejas nas mentiras
que criaram para ti
que mais não são do que não-verdades
de todos os outros

Nem sempre quem lê as tuas páginas
te sabe autêntica e honesta
porque a inocência e a ingenuidade
só são para os que conhecem o mistério
de se ser

Nem te perguntes porquê e não aches as respostas
além de ti

Revelações do Eu

O que conquistas todos os dias
na hora em que és
ainda
conhece a alquimia
que se desprende das tuas mãos
sempre que tocas
a página em branco
*
Os enigmas que revelas
na forja do sentir
são a paisagem de outras paisagens
de indizível lucidez
*
A tua ausência sempre anunciada
não te ameaça nunca
porque o milagre de seres
sussurra-te as imagens aladas
que anunciam a existência
secreta
desse teu olhar-anjo

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Blogue de Ouro

Recebi este selo da minha amiga Fanny (http://suavesmurmurios.blogspot.com/) que escreve com o a alquimia da sua alma luminosa.

Sensações



Estava uma manhã tranquila azul. Caminhava descalça numa qualquer praia solitária. Por uma vez, a praia era só minha. Inalava os tragos de maresia que me embriagavam os sentidos. Fechei os olhos, caminhando e sentindo ainda mais o que sempre me fora familiar. Deixava que o sol me tocasse, ouvia o marulhar das ondas, sentia a humidade da areia, visualizava as rochas que se erguiam, ainda longe, à minha frente e as árvores que ficavam atrás de mim.
Estava ali para ver, ouvir e sentir. Como nunca me haviam permitido, por receio do que pudesse fazer-me. Todavia, tudo me pacificava. A angústia, o desespero, a tristeza tinham-me finalmente dado tréguas. Não corria perigo. Na verdade, nunca correra perigo. Ainda que poucos acreditassem. Porque tentara não-ser noutras alturas.
Abri de novo os olhos, sob o chapéu de abas largas. A túnica semi-transparente abria-se revelando as minhas pernas ligeiramente bronzeadas. Continuei a caminhada. Para melhor sentir o sol e a brisa marítima tirei a túnica. Deixei-a onde caiu. Mais adiante tirei a parte superior do biquíni, acto já normal. Deixei-o também ao acaso, por ali. Lá mais à frente, decidida a entrar no mar, tirei a parte inferior. E entrei no mar.
Primeiro deixei que me acariciasse as pernas, as coxas e o ventre. Sempre que a água aí chegava sentia um ligeiro e delicioso arrepio. Só depois me decidi a mergulhar. O mar tocou a nudez do meu corpo envolvendo-me no seu longo abraço líquido e salgado.

Nunca até então fora tudo tão e só eu... ainda que o teu rosto ainda ausente me acompanhasse.

*****

Texto dedicado a Vítor Carvalho, um amigo muito especial


domingo, 11 de janeiro de 2009

Estações...



A folha em branco
aprisiona
as folhas
colhidas
antes do Inverno



Rouba-lhes
sonhadamente
os contornos do ser

e a paleta dos tons



Só que entre o olhar cativo
e o sopro divino

elas reacendem-se
quimericamente

anunciando
a sua Primavera