quarta-feira, 1 de abril de 2009
PARIS
A doença dos afectos
Handy Warhol, Pop ArtNestes actos criativos criamos, inconscientemente, barreiras. Por vezes, autênticas muralhas. Existimos nós e existem os outros. O nós que não nos deixa, que vive desassossegado, estranhamente estranho e sempre imerso no seu mundo. Por vezes sem saber o que fazer, ou que sabe o que não sabe, o que quer ou não quer. Somos inquietos e inquietantes. Não obstante, só paramos depois da obra concluída. Há dias consecutivos em que não podemos viver sem essa vertigem de se ser e existir para além do que, para os outros, é normal.
Este nós nunca é só eu, porque em cada eu há um nós: trevas e luz. Sem saber quando, como, porquê. Não queremos, mas somos. Não adianta lutar contra a abulia, a astenia, o desejo de permanecer tão quieto e silencioso quanto possível. Precisamos de descansar. De deixar que o coração sinta ou que a mente se detenha no que já terminou.
Os outros são a nossa família e os nossos amigos mais próximos. Os familiares sofrem por assistirem ao nosso desatino, muitas vezes à nossa indiferença perante tudo e à nossa incapacidade de reagir. Por mais que tentem, não compreendem. É-lhes difícil saber a razão do nosso estado. Embora tentem. Os amigos sentem a mesma incapacidade.
O melhor e mais reconfortante de tudo é que, apesar de tudo, apesar dos diferentes desvarios e loucuras cometidas, nem uns, nem outros nos abandonaram. Estão presentes, tentam aliviar-nos a passagem dos dias e dão-nos o seu carinho. Mesmo que não o mereçamos.
sábado, 28 de março de 2009
Sisse

Esta é a minha cocker-spaniel, com pedegree e tudo. A mãe dela viajou até Marselha para a conceber, mas a primeira tentativa saiu gorada. É que isto da concepção tem muito que se lhe diga. Da segunda vez que a mãe foi cruzada com um cocker, foi o "gentleman" que se deslocou a Portugal.
A mãe desta lindíssima cadela, a Laika, foi adquirida a uns criadores de cockers portugueses que fazem parte do Clube Português de Canicultura e do Clube Português de Spaniels, com vários Spaniels premiados a nível nacional e internacional. Na verdade, uma das irmãs da Sisse já ganhou o prémio de Puppie do Ano (há pouco tempo, um ou dois anos).
A Sisse foi uma das últimas a nascer e era tão pequenina que julgámos, eu e o meu irmão, que não sobreviveria. Mas é uma sobrevivente. Mais do que isso, requer atenção permanente. Posso-vos dizer que é muito companheira, meiguinha, doce e que se apercebe logo dos meus diferentes estados de espírito. Persegue-nos para todo o lado.
Cada ninhada de cockers é registada no Clube de Canicultura obedecendo à sequência do alfabeto. A Sisse pertence à ninhada com letra "o" e no seu registo real chama-se "Obladi Oblada", uma letra dos Beatles. Curioso, não é? Aliás todos os filhotes dessa ninhada pertencem a essa letra e têm o título de uma canção! Já a mãe nasceu sob o signo da letra "e" e aí ficou a chamar-se "Elle est Laika"!
Fuga

Estou a vê-los ainda agora: pequenos criadores de luzes mágicas, longínquas, saltitando de estrela em estrela ou voando no firmamento longínquo.
Não me canso de os observar, por querer ser como eles: seres etéreos, imaginários, sem sentir nada do que me atropela o pensamento e me adensa o vazio.
Se fecho os olhos, ainda que por breves instantes, sem tempo no relógio, aproximam-se de mim e segredam-me ao ouvido as palavras que a lua não me pode dizer.
sexta-feira, 27 de março de 2009
Primavera

domingo, 22 de março de 2009
As Palavras
sábado, 21 de março de 2009
Dia Mundial da Poesia

Ser Poeta
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Florbela Espanca
*****
Os meus primeiros textos, escritos na infância, foram poemas. Infelizmente perdi-lhes o rasto. Uma tia, com quem vivi durante anos, quis ficar com eles e eu não fui capaz de lhe dizer que não. Orgulhava-se de mostrá-los às amigas.
Hoje, Dia Mundial da Poesia, em vez de ser eu autora de um texto poético, escolhi um soneto de Florbela Espanca. Ela diz tão bem o que é ser poeta que nada do que eu oudesse dizer se lhe igualaria.
Um poeta, uma pseudo poetisa como eu, sabe reconhecer que o que já foi dito de forma suprema e bela. Isso torna-nos irmãos, uma irmandade na partilha da palavra justa, filosófica e poética.
