quinta-feira, 14 de maio de 2009

Paisagem de um mito





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Os belos e longos dedos de Orfeu
tiram notas da lira que pacificam os seres
e os elementos


Soltam-se sons de jasmim
na música mágica que sagra de grandeza mítica
o Universo


Ondas de opala e orquídeas
crescem nessa crescente paz tranquila


Eurídice
emudecida e enamorada
está deitada a seus pés
cingida por um cendal de pérola


As notas da lira de Orfeu
siciam o seu amor e acariciam os decifráveis contornos
do ser amado
que lhe devolve
em sorrisos
a harmonia das esferas


sexta-feira, 8 de maio de 2009

Era uma vez...

Interior da livraria "Aqui há Gato", em Santarém


Numa noite em que a lua redonda
se exibia toda
beijando a terra de luz
ouviram-se histórias fantásticas
acabadas de inventar

Duendes irrequietos
e gnomos cor de limão
passeavam pela floresta animada
à procura de um cofre
com uma pequenina preciosidade

Ninguém sabia onde encontrá-la

Percorreram planícies azuis
vales de todos os sabores
riachos de vozes de framboesa
revistaram todas as grutas emudecidas
e nada

Pensaram desistir

Então a voz mágica de um cavalo alado
sussurrou-lhes ao ouvido
um segredo intemporal

O cofre que procuravam
era o seu caminho pessoal
e a pedrinha preciosa
o amor

domingo, 3 de maio de 2009

O Beijo

Gustav Klimt, O Beijo (pormenor)
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Encontrou-a. Encontrou-o. Encontraram-se. Como? Não sabiam explicar e não queriam saber. Sentiam a mesma atracção, a mesma química, a mesma energia.
A noite era de luar e tudo à volta de ambos era e foi mágico, intenso, quente. Os gestos foram lentos, doces, carinhosos e as palavras sussurradas prometiam outras. Porque nelas havia ainda outras a dizer e outros sentimentos a partilhar.
Trocaram olhares mágicos e de poesia por tempos infinitos. As suas mãos tocaram-se ao de leve. À primeira carícia ela retirou a mão. Depois deixou que a sua permanecesse sob a dele. Mais tarde os seus dedos entrelaçaram-se. Deram as mãos para nunca mais se separarem, apesar de saber que dali a pouco teriam de o fazer.
Mas não se ficariam por ali. Houve um beijo no rosto. Mas os lábios dele foram descendo da pele macia do rosto até beijar ao de leve os lábios dela. O beijo repetiu-se e ela permitiu que os seus lábios se entregassem. O beijo foi a perfeita união de lábios. As bocas tornaram-se urgentes, ávidas e sequiosas de conhecer o sabor uma da outra. Depois voltaram aos beijos rápidos e suaves apenas e só nos lábios.
Naquela noite Cronos pareceu acelerar-se. Foi difícil separarem-se. Disseram-se adeus! Porém antes que cada um fosse para o seu retiro, beijaram-se incontáveis vezes.

sábado, 2 de maio de 2009

Autres lectures

Pablo Picasso, La Lecture
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La peinture donne une forme au vide et la poésie à nos pensées. Elles sont la suggestion de ce que nous sommes. Toujours ! Le peintre et le poète peuvent être les devineurs d’ énigmes, les sauveurs du hasard. Ils transforment pour faire se qui doit être. Ils ont des petites voix jaillissantes comme les fontaines. Même les ténèbres deviennent lumière. Et la solitude une force créatrice.
Il y a de la poésie dans les couleurs et des couleurs dans leurs écrit. Quelles belles histoires ils racontent. Il y a des métaphores et paradoxes créer par le pinceau et la plume. L’ impossible deviens réalité, oeuvre d’art, témoin de l’ être sensible.
Le moment créatrice est un sentier solitaire mais plein de sens et de beauté qui fini au moment d’ être partagé avec les amants de l’ art.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Metamorfose



Sou as ondas do mar
Que docemente embalam o teu sono
Para te fazer sonhar

Em mim ondulam palavras e melodias…
Às vezes histórias encantadas
E poemas policromos
Que discretamente deixo no areal

Sou a voz do mar…
A voz primordial do ser
Que longinquamente te acompanha
No teu olhar sonhador, resplandecente

Sou o poema líquido azul
Que o sol acaricia em cada amanhecer

sábado, 25 de abril de 2009

Dia do livro

Ilustração de Pierre Pratt
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«Quem escreve constrói um castelo. Quem lê, passa a habitá-lo.»
Milan kundera
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Vivo rodeada de livros. Para ser sincera, sempre vivi rodeada de livros, desde a minha infância.
Grandes, pequenos, de diferentes materiais, de contos, de banda desenhada, com ilustrações magníficas.
Aprender a ler foi a maior e melhor descoberta da minha infância, porque assim podia ter acesso ao que os livros diziam. E imaginava os castelos, as batalhas, as princesas e os príncipes, o lobo mau, os animais... Que mundo fascinate e tão rico. Era-me tão fácil habitar esses mundos, porque os visualizava com uma nitidez impressionante.
Deram-me tantos livros! E li-os todos. Agora que evoco esses presentes tão desejados, lembro-me que me fascinavam não só as histórias, bem como as ilustrações.
Hoje continuo fascinada pelos livros. Pelos que vou adquirindo, pelos que me oferecem e agora, também, pelos que escrevo.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Leituras do Ser


Há questões que não devem ser verbalizadas. Para quê colocá-las? As respostas encontram-se dentro de cada um. Quando se é sensível, intuitivo e se passou muitos anos a observar atentamente o comportamento dos Outros e o nosso, sabemos o que se vai passar a seguir. As reacções de cada Ser Humano perante as mesmas ou diferentes situações repetem-se.
Há leituras previsíveis, porque são deixados sinais, assumidos determinados comportamentos e omitidos outros. Ler cada Ser é difícil e incompleto, porque esse Ser nunca é inteiramente autêntico, verdadeiro, sincero com o Outro. Um usa uma máscara, o Outro finge, a princípio, que não a vê.
Entretanto, sucedem-se as omissões, os silêncios e as desculpas. A máscara cai. Assim, o que era magia, sonho e encantamento morre.