terça-feira, 2 de junho de 2009

Palavras nocturnas

Foto de Fernando Cardoso

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http://sebentadonando.blogspot.com/

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Há momentos em que me supero. São poucos, bem sei. Muito poucos....
São aqueles em que uso a palavra escrita. Sempre que a inspiração me sagra de grandeza, no mais inesperado dos momentos!

Elas, as palavras, dizem-me por inteiro! Bom, quase por inteiro. Porque há-as que não mostro a ninguém. Uma vez, por descuido meu, o meu irmão teve acesso a elas, leu-as e chorou. Viria a contar-me muito mais tarde. Chorámos juntos.

Fernando Pessoa escreveu o Livro do Desassossego e eu continuo a escrever, desde 1995, as minhas Digressões pouco Líricas. São viagens fundas e dolorosas ao meu interior.

Creio que, como todos os escritores, as palavras são o nosso maior alimento e paixão. Com elas conto o que sou, sinto, sei, imagino, sonho, quero, desejo e penso. Que importa tudo o resto? Nada.

Nunca me peçam para calar tudo isso. Seria matar o que há de mais nobre e autêntico em mim…

Regresso






Este fim-de-semana evoquei paisagens de outrora. São paisagens de um outro tempo, de um outro lugar, muito distante deste onde me encontro. Era tudo tão mágico, tão de sonho! Tão de mais!
Foi muito simples reabilitar esse passado. Creio que foi a paisagem do filme Wicker Park que me fez ressuscitá-lo. Como sinto falta da paisagem branca, branca. Ver os flocos de neve descer do céu ininterruptamente, vê-los cair uns sobre os outros até cobrirem tudo com um manto imaculado.
Mais belo e inesquecível ainda é andar nas ruas brancas e sentir no rosto o frio cortante. Sabia tão bem fazê-lo! Mesmo quando os trilhos por onde todos passavam se transformavam numa lama aguada e acastanhada.
As roupas quentes que somos obrigados a vestir aconchegam-nos nesses passeios a pé. As luvas, os cachecóis, os gorros, os casacos compridos, as botas são de um conforto extraordinário. Tal como entrar numa chocolaterie e pedir um chocolate bem quentinho. Que aroma!
Depois retomava o passeio sozinha ou acompanhada, tanto fazia. Quando sozinha, apreciava a neve nos telhados das casas, nas copas das árvores, nas margens dos lagos. Observava as pessoas na sua rotina diária. Quando acompanhada, gostava sobretudo de respirar fundo, encher o peito de ar frio e de me ver, depois, a expirá-lo como se de vapor se tratasse.

(ùltimo dia de Outubbro de 1995)

domingo, 31 de maio de 2009

Raízes


Algo lhe ficou do norte. Mais a ele do que a mim, diga-se de passagem! Aliás, ficaram-nos memórias diferentes: ao meu irmão, o gosto pelo cultivo de frutos, ervas aromáticas e hortaliça. A mim, o gosto por observar paisagens campestres.
Sempre que chega extenuado do trabalho, ali vai ele para a sua "horta", onde renova as suas forças, num encontro mágico com a terra. Por vezes, também me aproximo. Mas pouco faço!
Mas lembro-me bem de, todos nós, em momentos de muito trabalho na quinta de meu pai, trabalharmos. Ainda que houvesse muitos trabalhadores a fazê-lo! Sempre ajudámos.
Éramos todos felizes nesse tempo! Porque meu pai estava connosco! Depois tudo mudou... sobretudo o meu Sentir.

Desassossego

Foto de Fernando Cardoso
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Na paisagem
das abstracções sempre possíveis
voluntárias
ondulam magoadas
notas de um poema
na página anjo do SER

Nascem de um estado de lucidez
de um olhar perdido
desassossegado
angustiado mas atento às sensações

Incapaz de conter a tempestade
tem de imperiosamente
converter
as palavras da sua dor resignada
em mergulhos vacilantes e angustiados
ao seu mundo interior
Tudo desmorona à sua volta...
Agora, sabe-lhe o Momento a nada
desde que se reconheceu e soube
Outra

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Foto de Fernando Cardoso
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«A esperança no amanhã faz o entardecer mais bonito.»
(autor desconhecido)
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Experiência ficcionista


Foto de Fernando Cardoso
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Saímos no teu carro. Deixámos a Grande Cidade, em direcção ao sul. Não fazia a mínima ideia onde nos ias levar. Por mais que te questionasse, não me revelavas as tuas intenções. Mantinhas-te alegre, divertida e misteriosa, como noutras alturas. Ao passarmos por uma placa, cheguei a pensar que íamos para uma vila piscatória, de várias colinas, muito conhecida, e que atraía muitos turistas no Verão. Demasiados para os pequenos areais!
Passámos em várias povoações que ambos conhecíamos, mas tu continuavas a andar. De certos sítios, passado algum tempo, via-se o oceano prolongar-se no infinito da nossa visão. Em breve, estávamos no campo a percorrer uma estrada estreita em direcção, agora sim, podia dizê-lo porque o via, ao Cabo Espichel.
Ao chegarmos, contornaste o que restava do convento e foste estacionar bem perto do penhasco.
Saímos. Eólo soprava as suas nortadas frias, revoltando-te o cabelo longo e solto. Nem tive tempo de me aproximar de ti. Correste na paisagem em direcção à falésia. Havia um aviso a alertar todos os visitantes para a possibilidade de as rochas se desprenderem, mas tu ignoraste-o. Desafiavas as regras de segurança, aproximando-te do precipício, o mais que podias.
Às vezes, gostavas de correr certos perigos, contaste-me um dia. Parecia-te que em certos momentos podias ultrapassar todos os limites, que nada de grave te acontecia. Uma vez, vieste do Norte e fizeste a A1 entre os 150 e os 180 Km, embora, em fracções de segundo, tivesses chegado aos 200. Ultrapassaste todos os condutores que se afastavam para a faixa da direita, logo que se apercebiam da tua aproximação. Ouvi-te e pedi-te que não brincasses com a vida . Tranquilizaste-me explicando-me que nem sempre devemos cumprir as regras. Há que ir além dos limites impostos por lei. A lei podia ser infringida. A vida era para ser vivida, pois era uma breve passagem.
Compreendia porque falavas assim. Tudo mudara depois da morte acidental do teu pai. Tu foras a que mais mudaras e isso assustava-me...
Enquanto olhavas extasiada o mar, aproximei-me de ti, envolvi-te pela cintura e demos uns passos atrás. Não era necessário desafiar os elementos da natureza. Jamais os igualaríamos!
O mar é lindo visto daqui! Só se vê água e mais água. Fico sem fôlego quando aqui venho!
Hum... Hum... estou a ver.
Não concordas comigo, Eduardo?
Concordo, desde que não te aproximes de mais do penhasco.
Consigo aproximar-me sempre mais um pouco. Adoro ver o mar lá no fundo, as ondas do mar a quebrarem-se nas rochas e a desfazerem-se em espuma.
Pode ser lindo, mas arriscado. Pode sempre haver um acidente...
Nada temas...
A tua voz soou sumida e eu senti um leve arrepio nas costas. Não. Não atentarias contra a tua vida! Não podias!

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Sabor a liberdade

Foto de Fernando Cardoso
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Abriram todas as portas de ouro e marfim
que anos e anos
mantinham cativa
uma alma triste e desolada de outrora
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Ela então
soltou-se do desassossego de anos
fundiu-se nos laivos da noite
e banhou-se na luz pura e redonda da Lua
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Depressa se sentiu corajosa e plena!
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Hoje
bebe a liberdade
na brisa do vento, no colo de qualquer onda, na luz de outro amanhecer
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Quando quer
dispersa-se e voa,
sem raízes a aprisioná-la de novo,
ao encontro do belo infinito