terça-feira, 7 de julho de 2009

L de leitores... leituras... liberdade

Foto de Fernando Cardoso
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Os livros acompanham-nos para onde quisermos, quando quisermos. Mesmo em tempo de férias. Eles aí estão sempre, amigos, fiéis companheiros, à nossa espera. E há tantos! Todos à espera de serem lidos. Todos à espera de participarem da e na nossa história.
Por muitos que tenhamos lido e relido, existem os que não podemos esquecer nestes tempos de pausa de uma rotina de trabalho para uma outra rotina. As férias instalam nas nossas vidas, por mais que digamos que não, uma outra espécie de rotina! Não vale a pena iludirmo-nos que ela nos abandona. Isso não acontece. Há a rotina da família; das viagens, longas ou curtas, tanto faz; da praia para o apartamento que se alugou ou o hotel; das saídas à noite; do nada ter que fazer.
Voltemos aos livros. Nesta rotina aparentemente diferente, os leitores têm plena liberdade de escolha. Uns levam consigo livros de auto-ajuda; outros romances de quinhentas páginas; outros ainda ensaios e livros de estudo; outros optam por levar os livros catalogados como literatura “light”, para imaginariamente entreterem o tempo com algo não muito sério; outros, as novidades editoriais. À hora do café, talvez numa esplanada, para poderem tomar o cafezinho acompanhado do seu cigarro, folheiam-se jornais e revistas. Mas isso é também ler!, dirão alguns. Sim, com certeza, que sim...
Sem fazer julgamentos das escolhas dos leitores, num período em que a leitura é lazer, independentemente de modos literários, correntes ou autores, o que importa mesmo é que os livros sejam lidos, relidos, folheados, fechados, amados, odiados, abandonados, para um dia serem redescobertos ou, simplesmente, esquecidos.

A Fernando Pessoa

Foto de Fernando Cardoso
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Parque dos Poetas
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http://sebentadonando.blogspot.com/
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No teu quarto
das abstracções sempre possíveis
voluntárias
ondulam ainda por aí
no teu espólio
poemas limpos ou rasurados
reescritos
na página anjo do teu ser

Nasceram do teu pensar de génio
do teu sentir fragmentado
desassossegado
que imperiosamente
se disse em vozes distintas

As palavras dessa tua dispersão
materializaram
todos os teus EUS
que são OUTROS contigo
que te acompanharam
desde o dia em que nasceste
e ainda e sempre
aqui, hoje, agora que te foste

Tudo parece sonho na distância
dos séculos
mas a tua dor de seres
continua sempre e inequivocamente
connosco
com os que sentem como tu

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Mundo da Fantasia




Foto de Fernando Cardoso


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Quando o sol parte rumo a outras paragens e a lua sobe no céu escuro, com o corpo inchado e pleno, os duendes saem dos seus múltiplos esconderijos, para cravejarem de diamantes o infinito cósmico.
Estou a vê-los ainda agora: pequenos criadores de luzes mágicas, longínquas, saltitando de estrela em estrela ou voando no firmamento longínquo. São pequenos seres a espalharem a felicicidade na vastidão do universo.
Não me canso de os observar, por querer ser como eles: seres etéreos, imaginários, sem sentir nada do que atropela o real. São seres fantásticos, fantasiosos, mas encantadores.
Se fecho os olhos, ainda que por breves instantes, sem tempo no relógio, aproximam-se de mim e segredam-me ao ouvido as palavras que a lua não me pode dizer, mas que o coração já descobriu.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Tertúlia

Foto de Fernando Cardoso
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Parque dos Poetas
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Numa tertúlia muito agradável com o escritor José Fanha, já lá vão muitos meses, retive certas frases que ainda hoje fazem eco dentro de mim. As primeiras, que muito me marcaram, dizem respeito aos escritores em geral.
Um dos seus grandes amigos de José Fanha, também escritor, cujo nome não me recordo neste momento, partilhou com ele o seguinte pensamento «Todos os escritores são crianças doentes». Fiquei a pensar. Intimamente concordei. Lembrei-me imediatamente de Fernando Pessoa.
Depois acrescentou. Alguns ficaram órfãos muito cedo e tardiamente ou nunca superaram a perda do familiar querido, ficando a sua infância marcada pela saudade de quem foram; outros entraram em conflito aceso com os seus progenitores; outros ainda entraram em conflito consigo mesmos. Ainda há aqueles que não superaram nunca essas perdas e esses confrontos e disseram precocemente adeus à vida. Nessa altura pensei em Antero de Quental, Florbela Espanca e em Mário de Sá Carneiro.
José Fanha não se ficou por aqui e deu alguns exemplos falando de autores e declamando os seus textos. “Hoje já não festejam o dia dos meus anos”, de Fernando Pessoa; “Poema à mãe” de Eugénio de Andrade; “O Palácio da Ventura” de Antero de Quental e muitos, muitos mais poemas de Ary dos Santos, Alexandre O’Neill, Mário Viegas, Sophia de Mello Breyner Andresen, Miguel Torga.
Há obras e textos felizes, porém nem sempre quem os escreve é feliz. O verdadeiro escritor tem a sensibilidade à flor da pele e o sofrimento inscrito no mais fundo do seu ser!

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Olhares




Foto de Fernando Cardoso


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Manhã clara e transparente
de sóis e de brisas leves e tranquilas
que trazem da distância do mar da palha
os sons estivais de sinfonias sem pauta
escritas nas nuvens que aparecem ao acaso
num esperado céu azul

Horas de passos sem pressa e curiosos
nas ruas da calçada que levam ao moinho do ontem
na marginal recém construída e já antes apetecida

Nos olhos vigilantes, a atenção de sempre
ao mínimo movimento da natureza marítima
aos artefactos humanos que ondulam ao sabor da maré
num movimento esperado e conhecido
tantas e tantas vezes repetido

Dali há a expectativa de uma partida
rumo a qualquer lugar
onde se possa perder a terra à vista
e apenas sentir nas ondas em alto mar
a magia de se ser
e de se sonhar de novo e só com o olhar

domingo, 28 de junho de 2009

Cinco sentidos





O dia ameaçara chuva desde o início do dia, embora não viesse a chover ou a fazer frio. Havia umas nuvens que corriam no céu, ao sabor do vento, em busca de outras paragens. De vez em quando o sol fazia a sua aparição banhando de luz a capital francesa.

O fim de tarde estava agradável e, apesar de cansados de visitar algumas galerias do Louvre, sentíamo-nos bem. Tínhamos andado muito, mas tínhamo-nos preparado para que assim fosse.

Em Paris há muitos locais mágicos. Um deles é o espaço em frente ao Centro Nacional de Arte e Cultura Georges-Pompidou: uma praça.

Nessa Piazza Beaubourg, com um ligeiro declive, sentámo-nos, como tantos outros turistas e franceses, para ouvir um grupo que tocava músicas que evocavam a Austrália aborígene. Ali permanecemos algum tempo, pois as notas da música espalhavam-se por todo o espaço. Os sons ancestrais pareciam rodear-nos, envolver-nos e tranquilizar-nos.



De algumas crêperies ali bem perto vinha o aroma dos crêpes acabadinhos de fazer, que se misturam com outros aromas de outros cafés.

Dali fomos ver de perto a Fonte Stravinski, que simboliza a música (com repuxos de água sonora e com diferentes estruturas metálicas coloridas ou não ali construídas no local).

Foi um fim-de-tarde muito agradável e de muitas aventuras culturais e gastronómicas.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Cosmogonias



Foto de Fernando Cardoso

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Há momentos que se definem, mas sem aparente definição! Saber a verdade é saber que a verdade não existe, em absoluto. Porque tudo é questão! Porque tudo é devir.
Há momentos repentinos, profundos, de interrogação e de busca de respostas, como se isso constituísse uma fórmula original. Ninguém duvida que a procura de respostas para as questões que o Homem se coloca conduzem-no, sempre, a outras questões, pois o mistério das coisas não pode permanecer sem resposta.
Ora, encontrar as respostas é uma busca continuada das causas, dos efeitos, de Deus ou deuses, do mistério do Universo, por milénios e milénios.
O Universo é a voz primordial. Só depois se lhe segue o Homem – o Homem que usa o pensamento, a linguagem, a arte para se expressar e explicar o Universo, bem como a sua aparição no mundo.
Tudo tem existência. Tudo tem de ter existência para que o Homem possa atribuir-lhe uma significação. O seu pensamento não lhe permite não pensar no que o cerca, não pensar em transformar o mundo, não pensar em pensar-se; dos sumérios ao homem do século XXI.
A prová-lo basta atentarmos na diversidade de mitos e lendas que procuram dar sentido ao sentido único do ter-se sido outrora, agora e, quem sabe, amanhã.
E fica tudo dito. Assim – até um dia.