sexta-feira, 31 de julho de 2009

Enamoramento

Foto de Fernando Cardoso


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Os belos e longos dedos de Orfeu
tiram notas da lira que pacificam os seres
e os elementos
*
Soltam-se sons de jasmim
na música mágica que sagra de grandeza mítica
o Universo
*
Ondas de opala e orquídeas
crescem nessa crescente paz tranquila
simples
*
Eurídice
emudecida e enamorada
está deitada a seus pés
cingida por um cendal de pérola
*
As notas da lira de Orfeu
siciam o seu amor e acariciam os decifráveis contornosdo ser amado
que lhe devolve
em sorrisos
a harmonia das esferas

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Bipolar, eu?


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Tenho duas identidades, dois sentires que, de tão opostos, vezes há que nem me reconheço. Não fui eu a sua criadora. Foram as circunstâncias. Tantas e diferentes que não posso sequer partilhá-las aqui e agora.
A minha identidade verdadeira, a que me diz e é autêntica é, sem dúvida, a primeira. Porque sou verdadeiramente eu: nome, hora, data, local de nascimento.
Nasci Nathalie de Jesus Armindo e assim me conheci durante anos e anos. Anos felizes, despreocupados, cheios de inocência. Mundo de rosas orvalhadas e sonhos de criança feliz.
A segunda identidade, da qual só tomei conhecimento aos 11 anos, altura em que foi necessário utilizar o bilhete de identidade, tomou-me de assalto. Senti-me incrédula, injustiçada e, ao mesmo tempo, uma estranha.
Natália Jesus Seixas Augusto não era eu! Como podia digerir tamanha usurpação de identidade? Não a digeri. Nunca. Mas também nunca exigi que a verdade fosse reposta. Para quê?
Assim, não me é necessário criar outros eus, porque, quis o acaso, que tivesse pelo menos dois! Um é solar! Muito solar. O outro é lunar, inconstante e muito variável.


segunda-feira, 20 de julho de 2009

Cinco Momentos para Passar em Câmara Lenta

Mirandela

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Gosto de momentos. Dos momentos que contam a nossa existência. Alguns são tão límpidos, intensos e honestos e, todavia, nem todos fazem parte do agora, mas de outrora. São aqueles que evocamos com mais frequência, sobretudo se há momentos menos momentos. Estes são os que não são nem tranquilos, nem coloridos. Mas passam por nós com a mesma intensidade.

Gosto de momentos. Gosto deste momento em que estou a escrever, porque me deixo levar pelas emoções, tão à flor da pele, e revivo alguns momentos. Neste caso cinco.

1.º momento - O meu pai a conduzir-me pela mão num dia frio de Inverno, depois de ter nevado, em França.

2.º momento - A minha vinda para Lisboa, para a Faculdade, graças aos meus pais. O meu pai foi o primeiro a querer que viesse. Já a minha mãe... foi vencida pelo meu pai e por mim.

3.º momento - O primeiro ano que dei aulas em Vialonga, que foi o culminar de um sonho de infância.

4.º momento - A atribuição do 1.o Prémio Revelação de Poesia, num Concurso Literário promovido pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira.

5.º momento - A publicação do meu livro André no Reino das Palavras Falantes, numa edição de autor.
Todos estes momentos me marcaram e fazem hoje parte do meu ser. Há outros, muitos, evidentemente, que guardo e são comigo. Porque eu sou todos esses momentos e outros já vividos e ainda outros que estou a viver. Sou momentos, poesia e paisagem ainda a Ser!
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Agradeço à Teresa por me ter desafiado a reviver "Cinco Momentos para Passar em Câmara Lenta"!

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Sem título


Foto de Fernando Cardoso

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Reinicio-me
nas minhas
telas de poesia
na anunciação
de espaços abertos
de claridade



Redescubro
a vida
que transborda
além tela
nos instantes
cativos de mar



Sagro-me de plenitude
em cada cor
impensadamente
sopros do ser
quando me penso
sem título
e só universo


Poema da colectânea há qualquer coisa, Editorial Minerva, 2000

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Alma errante

Foto de Fernando Cardoso
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Algo inesperado me assalta quando leio os primeiros versos de um poema de Fernando Pessoa: “Viajar! Perder países! / Ser outro constantemente, /Por a alma não ter raízes [...]”. Na verdade, também não tenho raízes e nem me importo! Para quê tê-las? Não somos de nenhum lugar, mas de muitos.
Nasci num outro país: França! Depois, não compreendi bem como na altura, vi-me a habitar em casas diferentes, em locais também diferentes, em Portugal, Trás-os-Montes! Era uma criança e estava longe dos meus pais!
Muitos anos depois, a faculdade trouxe-me até Lisboa, onde vivi seis anos. Seguiram-se alguns anos em Alverca do Ribatejo. Sete, creio. Num desses anos, por escolha própria e profissional, regressei a França, por um ano. Vivi e conheci a Borgonha, residindo e trabalhando em Auxerre, mas passeando um pouco por outras vilas e cidades francesas.
Cansada de tudo, da capital, de mim mesma, regressei às fragas. Vivi três anos em Trás-os-Montes e visitei São Martinho da Anta, onde Adolfo Correia da Rocha/Miguel Torga nasceu e viveu, por um certo período de tempo. A seguir, seguiu-se uma breve estadia no Barreiro, ainda que trabalhasse noutra localidade. Desde 2006 que resido noutro lugar e pressinto que não vou ficar por aqui. Tenho uma alma errante. Nunca estou bem onde estou. Falta-me sempre algo. Falto-me eu a mim mesma, porque a minha relação comigo não é fácil.
Como dizia António variações numa das suas letras “Eu só estou bem onde não estou/ Porque só quero ir onde não vou”. Eu também! Acontece-me com frequência…
Porém, também sou de todos os lugares que encontro espraiados nos livros que leio. Sou assim tão eu e tão outra! E também constantemente!


terça-feira, 14 de julho de 2009

O artista


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Observas as fotos com olhar atento e crítico. São tantas e tantas as que já tiraste que dariam várias exposições temáticas. Fariam a maravilha do público!
Tirar fotografias é a tua paixão. Analisas a perspectiva, a luz, o enquadramento. Tiras a fotografia e, logo depois, revês a foto de imediato. O teu olhar tem de aprovar o que a máquina fotográfica captou.
Sempre que uma foto não está nítida, tem demasiada luz, está desenquadrada, apaga-la. O que a máquina fotográfica evoluiu! Vê-se logo como ficou a foto para se apagar a seguir.
Como artista que és, que capta o real e o belo, nota-se que tudo te cativa e encanta ao mesmo tempo.
Este artista é o artista que busca a perfeição no mínimo que faz. Um dia há-de partilhar com o mundo as suas obras de arte.

Torneio Medieval em Sintra

Foto de Fernando Cardoso
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«Um homem é sempre um contador de histórias; vive rodeado pelas suas histórias e pelas histórias dos outros, e vê tudo o que lhe acontece através delas. »
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Jean Paul Sartre, 1905-1980, filósofo e escritor francês, A náusea