Ela tinha um sonho. Na verdade, muitos sonhos e sabia que não poderia realizar muitos deles. Ainda assim continuava a sonhar. Sonhava os seus próprios sonhos e realizava muitos deles também em sonhos. Gostava de voar num balão. Sonhava com o dia em que isso aconteceria.
Nesse dia não estaria vento. Veria o balão ser estendido no chão de um qualquer parque, veria também montar todos os apetrechos no interior que segurariam o cesto e a bomba que inflaria de ar quente o balão. Depois de o balão estar pronto a subir nos céus de Outono, entraria e a viagem teria início.
Um dia revelou esse sonho amigos, enquanto todos falavam em realizar aventuras mais radicais: voar de asa delta; fazer paraquedismo; andar num carro de fórmula 1. Tantos sonhos. Todos radicais. Fora das suas vidas rotineiras e comuns.
Todos riram no fim das suas pequenas loucuras. Mas houve um desses sonhos que se realizou. O sonho que ela tanto desejara: voar num balão. O grupo organizou-se de forma a que ela não suspeitasse de nada. Procuraram na net as empresas ou associações que faziam esses voos, fizeram a marcação e, uns dias antes do seu aniversário, começaram a fazer insinuações. De que ela ia adorar a prenda, que não iria adivinhar o que era, mas que já alguns meses falara nisso. E ela não conseguiu adivinhar, claro! Sabia que a viagem não era propriamente acessível. Por isso nem se lembrou.
Então, no dia do aniversário, entre outras prendas, foi-lhe entregue um envelope. Quando o abriu nem queria acreditar! Que felicidade.
Tudo aconteceu como imaginara. Chegar ao local e ver o ritual de inflar o balão. Senti-lo encher aos poucos até poder entrar, quando cheio, no cesto com dois amigos e o piloto. E a pouco e pouco o balão foi flutuando cada vez mais alto e mais alto ao sabor do vento e de acordo com o piloto.
O silêncio não era total. Apesar de se afastarem da terra, ouviam-se os sons da terra, sobretudo as vozes dos animais domésticos (galos, ovelhas, cabras). A terra vista do ar, de longe, era magnífica. Poder ver em tamanho pequeno os vilarejos, as quintas, o comboio deixaram-na feliz e estranhamente calma e tranquila, como se sempre tivesse sido uma " balonista".
Pousaram bem longe do local de onte tinham saído. É que os balões flutuam ao sabor do vento! Não foi muito dramático pousar o balão. Todos eles sentiram um forte abanão quando o cesto tocou o chão. Para terminar bem o voo, o piloto e o seu ajudante abriram uma garrafa de espumante bem fresquinho! Afinal aquele era o baptismo de voo num balão para os três.
Fotos de Nuno Martins


