quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O Perfume da Chuva



Tema de Outubro da Fábrica de Letras: «O cheiro da Chuva". Esta é a minha participação ainda que com algumas alterações.






Foto de F Nando


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As personagens desta história nada têm de comum e apesar de viverem na mesma casa nem sempre se encontram. Na verdade, só quando a porta mágica se abre, na noite de estrelas cadentes, é que se cruzam por breves instantes. Mas nada dizem umas às outras. O silêncio é a senha para que tudo aconteça.

Naquela noite de anil, num tempo sem relógios, portanto num tempo sem tempo, a Menina do Vento e do Céu aproximou-se da porta. Bem perto, o seu cãozinho observava solenemente a sua dona. Sabia que ia partir , porém não podia ir com ela. Ela prometia voltar e como voltava sempre não havia o que temer.

A Menina Primavera também a mirava atentamente, na expectativa de que algo acontecesse. Havia muito tempo que não se viam estrelas cadentes... Assim que a Bela Noite chegou, a Menina do Vento e do Céu saiu para a rua com o seu manto azul cravejado de brilhantes.

Para onde ia? Elevou-se tanto, tão devagarinho, que se confundiu com o céu plúmbeo. Fez uma ligeira brisa na terra e começou a chover. Era uma chuva finhinha e ligeiramente rosada com sabor a mar e terra molhada.

Uma menina que se encontrava por ali a desfrutar os primeiros dias da Primavera, chorou de emoção e deixou que a chuva a molhasse por completo. Nunca antes a chuva fora uma harmoniosa combinação de aromas e cores... Que essências tão exuberantes... Nem os seus banhos eram tão perfumados!

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Paisagens

Quem me dera acordar gaivota
livre de preocupações metafísicas
e pensamentos alados de angústia

Ter o céu só e sem limite
e as escarpas do mar como abrigo
para carpir as minhas mágoas
e esquecer os estados febris
Depois de muitos sóis
por onde viajei na brisa do vento
encanto-me sempre com o entardecer
de nuvens em farfalhos
e adormeço
talvez um dia eternamente

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Nota: Fotos de F Nando

domingo, 26 de setembro de 2010

Números simpáticos

Foto de FNando

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No Dicionário de Símbolos podemos encontrar a descodificação de palavras e números; isto é, o seu significado enquanto símbolos. Não vou fazer uma dissertação sobre símbolos neste post. Vou muito simplesmente escrever sobre o que alguns números significam para mim, sem carácter científico, portanto. Embora conheça o seu significado aplicado à literatura.
Gosto do número três. Acho-o um número forte, espiritual e poético. A seguir, vem o número sete. O que vejo nele? Sonho, esoterismo, fantasia. Tem feito parte da minha vida. Segue-se-lhe o número treze. Sim, o número treze e se coincidir com uma sexta-feira melhor. Acho-o também poderoso, mágico, guerreiro. Não acredito em mitos que o apelidam de "o número do azar".
Há mais algum número de que goste? Não! Já identifiquei os meus números de eleição. Então que faz aquele número duplo, em azulejo, a abrir esta reflexão sobre números? Não gosto particularmente do número quatro. Mas sempre achei o número quarenta e quatro simpático. Dois quatros. Um significado que vem de uma brincadeira de adolescentes.
Já lá vai o tempo em que eu e as minhas amigas jogávamos um jogo com os números de matrícula de automóveis que se repetiam e, para mim (imagino que para todas), o número quarenta e quatro era o preferido. O número onze correspondia a "Vais receber uma carta", o vinte e dois "Vais ter boas notas", o trinta e três já não me lembro (não devia ser nada de bom, pois também havia significados negativos), mas nunca esqueci o significado que atribuímos ao simpático número. Nós, jovens sonhadoras, românticas, procurávamos esse simpático número em cada automóvel que passasse por nós. Ficávamos felizes, pois era o melhor de todos e que enchia o nosso coração de expectativa... "Alguém te ama!" Não nos interessava saber quem. Ele, o príncipe desejado, acabaria por chegar e por nos fazer muito felizes.
Hoje continuo a dar-lhe imaginariamente esse significado quando o vejo na matrícula de um automóvel. É um número simpático. Hoje é um número FELIZ!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Amor de irmãos

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Este é o meu irmão e uma das cockers spaniel, a Sisse. Adora animais e se pudesse teria outros, passa algum do seu tempo, especialmente ao fim de semana, a tratar dos jardins e da horta.
É o meu ombro amigo, o meu porto seguro e tem-me ajudado muito há já alguns anos. O seu lado pragmático atenua o meu lado demasiado emotivo. Ainda assim não consigo deixar de sofrer por antecipação.
O meu irmão tem a força, a coragem, o carácter do nosso pai. Imagino que se fosse vivo teria muito orgulho nele, tal como eu tenho. É empreendedor, workaholic, tem sempre um novo projecto em mente que executa assim que pode. Subiu a pulso na empresa onde trabalha demonstrando sempre disponibilidade, responsabilidade, assertividade na tomada de decisões. Por issso vamos ficar tão longe. O Oceano Atlântico vai separar-nos. A empresa onde trabalha envia-o para Manaus, na Amazónia, para abrir uma fábrica de componentes de automóvel.
Já me sinto desamparada antes mesmo da sua partida, na próxima segunda-feira. Lá se vai o meu "mano", como costumo chamar-lhe, por ser mais novo que eu, numa altura em que não me tenho sentido bem. Ando triste e perdida.
Para me animarem, os meus/nossos amigos dizem: "Podes ir visitá-lo ao Brasil!", como se o Brasil fosse logo ali. Porém se ficar lá dois a três anos, acabarei, com certeza, por ir. Este meu mano é tudo para mim. Depois da morte do nosso pai e do aparecimento da minha doença crónica, que me vai empurrar para a reforma antecipada, ele é a nossa referência masculina, minha e da minha mãe.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Saudades da BlogGincana antes de dizer adeus

Esta é a minha participação na BloGincana de Setembro de 2010.
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É curioso ver que a Natureza se renova sempre, mesmo quando o Outono vem e as folhas das árvores caem ou quando no Inverno ficam despidas. Fecha-se um ciclo para dar lugar ao próximo que virá. O tempo de uma nova vida, o acordar lento e doce de uma outra Natureza. É na Primavera que tudo acontece.
O Mundo desde que é Mundo é protagonista de nascimentos e mortes. Plantas, animais, civilizações inteiras, homens, mulheres, crianças.
A "morte não pode ter razão sobre a vida" (Vergílio Ferreira) dizem os existencialistas. Mas tem. Porque é o caminho final para o qual todos nos dirigimos. Um dia deixamos de existir. Que acontece depois? Ninguém sabe. Eu, pelo menos, não sei.
Nem pretendo saber.
Este Verão, enquanto descansava alguns dias em Marvão, visitei as ruínas romanas de Ammaia. Fiquei fascinada pela beleza e quantidade de vestígios que ali pude observar. Não sendo uma entendida no assunto, imaginei diferentes espaços: saunas, salas, páteos, oficinas; festas, encontros secretos, aulas de filosofia ao ar livre...
Que me deu para me pôr a sonhar? As escavações tinham sido interrompidas por falta de verba, como me disseram na recepção. Havia ainda tanto a descobrir! Notava-se isso mesmo no terreno. Havia uma parte das escavações coberta, bem protegida.
Ontem Ammaia era uma polis, tem todas as características para o ter sido devido à sua dimensão. Hoje são só ruínas que encanta quem as visita.
Os Romanos morreram, deixando o testemunho
da sua passagem em diferentes pontos de terras lusas.
São ruínas, apenas ruínas para alguns porque onde não há vida não há mais nada. Não tem valor!
Aqui respira-se História. Só os mais incultos pensam de outra forma.
Haverá outro tipo de ruínas? Ou as ruínas são mais do que pedras? Talvez! Haverá outro tipo de morte?
Sim. A das palavras. A da partilha da resposta aos desafios da BloGincana.
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Nota: Fotos de FNando

sábado, 18 de setembro de 2010

Queria ser...


Foto de F Nando

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Queria ser sempre para mim
a que sou para ti
nos meus melhores momentos
quando penso e sinto apenas


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Encho as tuas folhas
de palavras e cores que desabrocham
desarmadas e puras
nas minhas longas vigílias


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Deixo-me guiar enfeitiçada
pelas ondulações dessa minha outra voz
por esse eu maior


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Sabe-me a minha poesia
a transparências do ser
a encontros de palavras orvalhadas
onde cintilam ainda gotas azuis


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04-08-1999

domingo, 12 de setembro de 2010

Reinventem-me

Foto de F Nando
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Quero ser estátua
mas não uma estátua qualquer
Serei de material nobre
e burilada com o amor do escultor
Serei «Sem título"
para que todos me reinventem
Estarei num lugar mágico
e nunca mais me poderão menosprezar
Estarei voltada para o mar
para ver os barcos sair e entrar no porto
O sol e a chuva
dar-me-ão a honra da sua visita
O vento fustigar-me-á no inverno
e as gaivotas poisarão em mim para descansar
As estátuas são estátuas
não sofrem, nem sentem nada