sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Composição literário-estética

Foto de F Nando
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Esta composição que apelido de literário-estética, e que a máquina fográfica do artista captou, foi espontâneamente conjugada. Importavam os elementos e como eles interagiam uns com os outros sendo tão distintos.
Eu conto-vos. Há uma história que os une: o amor à literatura, à arte em geral, à paixão pela essência do ser.
Não sei ao certo se Fernando Pessoa gostaria de anjos ou se acreditaria nesses mensageiros invisíveis e amáveis. Creio que iria gostar deste, já que tem no colo um livro aberto que pode bem ser a compilação deste autor maníaco-obsessivo e, talvez por isso, genial.
Sim, onde quer que estejam terão conversas literárias e filosóficas sobre a fragmentação do eu. Talvez todos se encontrem a dialogar em torno de um cálice de um excelente e centenário Vinho do Porto (embora Pessoa preferisse outras bebidas mais fortes e que lhe provocassem sensações fortes.
Todos! Quem? Fernando Pessoa ele próprio; o seu primeiro pseudo-amigo Alexander Search; Bernardo Soares o seu alter-ego; o mestre dos heterónimos, Alberto Caeiro; o clássico Ricardo Reis, o futurista até à vertigem ou o melancólico Álvaro de Campos que não passava sem o seu ópio. Que "drama em forma de gente"! Mas quem mais foi tão múltiplo, tão fragmentado e genial?
Talvez ninguém. Talvez os autores dos livros de encadernação gasta pelo tempo de que, com certeza, Fernando Pessoa gostaria e guardaria no seu baú de memórias, baú da "criança que foi" feliz na casa onde nasceu, ali bem perto do Teatro São Carlos, não é mais.
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A Criança que fui chora na estrada

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

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E as velas, perguntarão? Pessoa acendia-as nas longas noites de insónia quando escrevia num jacto vários poemas que guardava, por vezes, no baú.

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Ler mais: http://www.luso-poemas.net

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Amanhã

Foto de F Nando
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Amanhã será outro amanhã, um novo dia para mim, que aguarda que algo de novo surja e que sabe, de antemão, que algo súbito vai aparecer. Essa nova aparição trar-me-á conforto e tranquilidade. Mudarei com ela e serei ainda mais eu: mais sonhadora, mais cativa das palavras que escrevi e de muitas outras que vou escrever. Vou ter Cronos do meu lado e vozes interiores, fantásticas para não deixarem que o mais belo e sincero de mim se torne moribundo.
Já vejo as páginas impressas a passarem sob os meus dedos. Cheiro-as, sinto a história, sei que as personagens pulam dentro delas desejosas de conhecerem o meu mundo. O mundo onde elas nasceram. O meu eu onde elas frutificaram como frutos maduros e odoríferos e que um jovem de rasgados e grandes olhos verdes converteu em ilustrações.
Estou em estado de embriaguez criativa, como se estivesse prenhe de novo de ideias lavadas pelo luar. Porque é à noite que tudo me aparece, algum tempo depois de ter bebido os gestos, as vozes, os encontros que acontecem durante o dia.
Renasço de novo. Quantos renascimentos passaram pos mim indeléveis e outros deixando marcas profundas. Apesar de tudo e de quanto me aconteça renasço. Posso sentir-me rasgada, humilhada, incompreendida, ferida, em chagas, mas renasço. E se tiver que gritar, chorar, quebrar a loiça para aliviar a dor, faço-o.
Depois vem a luz. São as palavras solares que nasceram na noite que me trazem gotas de orvalho para matar a sede, o nevoeiro para as encontrar misteriosas, as ondas do mar para molhar meus pés brancos.
Quero as palavras! Sempre. Não importa que seja para me dizerem ou para narrar as minhas histórias de encantar.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Ilustrar

A autora destas ilustrações chama-se Fernanda Azevedo. Tem já uma vasta obra e alguns prémios em ilustração. Os mais novos adoram-na e os crescidos também. Gosta verdadeiramente do que faz.
Em tempos trabalhámos juntas e chegámos a publicar um livro infanto-juvenil. Sinto saudades desse tempo. Mas tudo muda.
Os projectos desta ilustradora são outros. E quais são os meus? Manter vivo este blogue porque os outros ainda não consigo.

domingo, 10 de outubro de 2010

Silêncio crepuscular

Foto de N Augusto

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O Perfume da Chuva



Tema de Outubro da Fábrica de Letras: «O cheiro da Chuva". Esta é a minha participação ainda que com algumas alterações.






Foto de F Nando


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As personagens desta história nada têm de comum e apesar de viverem na mesma casa nem sempre se encontram. Na verdade, só quando a porta mágica se abre, na noite de estrelas cadentes, é que se cruzam por breves instantes. Mas nada dizem umas às outras. O silêncio é a senha para que tudo aconteça.

Naquela noite de anil, num tempo sem relógios, portanto num tempo sem tempo, a Menina do Vento e do Céu aproximou-se da porta. Bem perto, o seu cãozinho observava solenemente a sua dona. Sabia que ia partir , porém não podia ir com ela. Ela prometia voltar e como voltava sempre não havia o que temer.

A Menina Primavera também a mirava atentamente, na expectativa de que algo acontecesse. Havia muito tempo que não se viam estrelas cadentes... Assim que a Bela Noite chegou, a Menina do Vento e do Céu saiu para a rua com o seu manto azul cravejado de brilhantes.

Para onde ia? Elevou-se tanto, tão devagarinho, que se confundiu com o céu plúmbeo. Fez uma ligeira brisa na terra e começou a chover. Era uma chuva finhinha e ligeiramente rosada com sabor a mar e terra molhada.

Uma menina que se encontrava por ali a desfrutar os primeiros dias da Primavera, chorou de emoção e deixou que a chuva a molhasse por completo. Nunca antes a chuva fora uma harmoniosa combinação de aromas e cores... Que essências tão exuberantes... Nem os seus banhos eram tão perfumados!

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Paisagens

Quem me dera acordar gaivota
livre de preocupações metafísicas
e pensamentos alados de angústia

Ter o céu só e sem limite
e as escarpas do mar como abrigo
para carpir as minhas mágoas
e esquecer os estados febris
Depois de muitos sóis
por onde viajei na brisa do vento
encanto-me sempre com o entardecer
de nuvens em farfalhos
e adormeço
talvez um dia eternamente

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Nota: Fotos de F Nando

domingo, 26 de setembro de 2010

Números simpáticos

Foto de FNando

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No Dicionário de Símbolos podemos encontrar a descodificação de palavras e números; isto é, o seu significado enquanto símbolos. Não vou fazer uma dissertação sobre símbolos neste post. Vou muito simplesmente escrever sobre o que alguns números significam para mim, sem carácter científico, portanto. Embora conheça o seu significado aplicado à literatura.
Gosto do número três. Acho-o um número forte, espiritual e poético. A seguir, vem o número sete. O que vejo nele? Sonho, esoterismo, fantasia. Tem feito parte da minha vida. Segue-se-lhe o número treze. Sim, o número treze e se coincidir com uma sexta-feira melhor. Acho-o também poderoso, mágico, guerreiro. Não acredito em mitos que o apelidam de "o número do azar".
Há mais algum número de que goste? Não! Já identifiquei os meus números de eleição. Então que faz aquele número duplo, em azulejo, a abrir esta reflexão sobre números? Não gosto particularmente do número quatro. Mas sempre achei o número quarenta e quatro simpático. Dois quatros. Um significado que vem de uma brincadeira de adolescentes.
Já lá vai o tempo em que eu e as minhas amigas jogávamos um jogo com os números de matrícula de automóveis que se repetiam e, para mim (imagino que para todas), o número quarenta e quatro era o preferido. O número onze correspondia a "Vais receber uma carta", o vinte e dois "Vais ter boas notas", o trinta e três já não me lembro (não devia ser nada de bom, pois também havia significados negativos), mas nunca esqueci o significado que atribuímos ao simpático número. Nós, jovens sonhadoras, românticas, procurávamos esse simpático número em cada automóvel que passasse por nós. Ficávamos felizes, pois era o melhor de todos e que enchia o nosso coração de expectativa... "Alguém te ama!" Não nos interessava saber quem. Ele, o príncipe desejado, acabaria por chegar e por nos fazer muito felizes.
Hoje continuo a dar-lhe imaginariamente esse significado quando o vejo na matrícula de um automóvel. É um número simpático. Hoje é um número FELIZ!