segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O Beijo

Le Baiser de l' Hotel de Ville, Paris 1950
Robert Doisneau
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A expressão dos afectos é tão natural como respirar ar puro, como beber água, procurar-se em si e dar-se, entregar-se ao outro. Paixão é exaltação, dizem! Amor é tranquilidade. No entanto, quer se trate de paixão ou amor estamos a falar de sentimentos, da relação entre dois seres que se sentiram inequivocamente atraídos um pelo outro.
A expressão do que o que se sente começa pelo enamoramento. Trocam-se olhares cúmplices, sorrisos meio rasgados, palavras sussuradas ao ouvido, um ligeiro toque das mãos. São momentos de encantamento e de sonho que aumentam o bater do coração e que leva "às nuvens". Ele e ela querem estar cada vez mais perto um do outro. Sentem já a necessidade de estarem apenas a dois.
E o momento chega. Antes mesmo de dizerem o que quer que seja, beijam-se. São os lábios que se unem num beijo breve. Mas não podem ficar-se por aí. Beijam-se ene vezes. Beijos intensos. Beijos apaixonados. Beijos longos. Beijos e mais beijos. Abraçam-se, acariciam o rosto um do outro, beijam-se de novo. Na verdade, na troca de carícias entre um homem e uma mulher não há nada mais doce do que beijarem-se nos lábios e na boca.
As mulheres são muito sensíveis ao beijo. Sentem prazer em ser beijadas nos olhos, na boca, no pescoço, na palma das mãos, no colo, na barriga. Em suma, no corpo todo. Os beijos podem ser inesgotáveis. E elas correspondem com paixão, amor, intensidade e alguma marotice. Gostam de ser beijadas com intensidade e muitos mimos.
Hoje nem o homem nem a mulher se inibem na expressão do que sentem. Um beijo em público já não choca, porém também não convém exagerar. Tem também de se ter em atenção o lugar e o possível público. Até porque os portugueses são, ao contrário do que dizem, bastante críticos.
Quem é que nunca sonhou dar um beijo cinematográfico em público? Quem não gostaria de estar a beijar-se e ser fotografado por Robert Doisneau, imortalizando esse momento? Aliás, teria sido impossível, em Portugal, nos anos 50,um par romântico ser imortalizado numa foto. Havia a censura.
Claro que em Paris, também houve alguma polémica. Não obstante, não foi ao beijo dos amantes, mas a quem o protagonizou. Muito haveria a dizer sobre isso.
O que realmente é belo, intemporal, artístico é a foto, o autor e o par romântico que se beija na rua, bem perto da Câmara de Paris.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Ideias caprichosas

Os dias vão-se alterando a pouco e pouco, no entanto ainda não estou satisfeita. E desde quando me sinto satisfeita? Sou a insatisfação em pessoa! Depois da concretização de um projecto, mesmo que falhe quanto às minhas expectativas, preciso logo de outro. Porém a mente é caprichosa! E eu sou tão imprevisível e inquieta.
Neste momento encontro-me numa fase em que as ideias surgem e logo se perdem porque não consigo uma articulação lógica entre elas. Por vezes degladiam-se para prevalecer umas sobre as outras. Vencem as assertivas num demorado "brainstorming". Esta é uma das fases depois de momentos de vazio total.
Depois surge a história: o tempo, o espaço, as personagens, o enredo, o narrador, o estilo de escrita. Não sei se será por esta ordem. Isso já depende de cada narrativa e de cada criativo da escrita. O início costuma-me ser fácil. Há alturas em que não consigo parar de escrever. Escrevi um livro juvenil, ainda por publicar, em pouco mais de quinze dias. A certa altura, pareceu-me que era a narrativa que tomava conta de mim e não o contrário. Quando terminei, senti-me completa e feliz.
Numa acção de formação aprendi a criar blogues. Tenho este onde vou escrevendo de tudo um pouco, deixo-me levar pelo momento em que escrevo. E tenho outro onde tento narrar uma história. Mas esse vai sendo escrito seguindo os caprichos da minha mente, por vezes, vazia. Escrevi um post na passada sexta-feira.
O blogue intitula-se http://fantasianomundodaspalavras.blogspot.com/ e espero que essa narrativa escrita ao sabor da mente se transforme numa história só, que nasceu ao longo de dias e noites com alguns interregnos mais ou menos longos.
Tenho de regressar a Fantasia. Tenho essa certeza. Essa necessidade. Só tenho de me disciplinar e escrever com regularidade.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Confissão




Foto de F Nando

Arte Lisboa

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Há dias em que não sei de mim. Veste-me interina e vorazmente o desassossego e a inquietude e uma mistura de inação e desalento. Habitam-me pesadelos acordados e, por vezes, sem conseguir travar o nó na garganta, escorrem-me lágrimas quentes pelo rosto. Soluço! Porém nem sempre tenho forças.



Ainda que não tenha chorado, hoje foi um desses dias. Um dia de tanto silêncio! Um dia de tantos gritos interiores cinzentos. Hoje doeu-me tanto ser refúgio de mim mesma, febrilmente entregue à tempestade que já me tinha dito adeus. Isto imaginava eu. Enganei-me! Como sempre. Como tantas vezes me sucede...



segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Amanhã

Foto de F Nando
Arte Lisboa
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Depois da Hora será já Outro o Outro
Na madrugada, talvez fria, e de certeza solitária,
Hão-de fazer-se ouvir as ondulações das palavras
Como melodias suposta e imaginariamente originais,
Inventar-se-ão as cores do poema tela
Numa declaração de Amor
Bebericando o vinho abafado dourado
***
Depois dessa Hora será a outra Hora
De um dia outro
Quase estático, silencioso
Mas tão esperado na sua linha ténue
Entre o ontem solar e bêbedo de paixão
De entrega e de declarações certas
Ainda que tão imperfeitas
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Madrugada de insónia e de drogas
Manhã de sonhos num sono afinal intranquilo
Tarde de ir respirar o ar do mar e do campo
E desafiar qualquer falésia sem lá estar
Porque esta é interna, interina, interior
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Fim de tarde com gotas de chuva anunciada
A escorrer transparentemente na vidraça
No amanhã a não esquecer

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Insanidade


Não sei que dia era. Não sei se estavam orgias de luz e poalha ou apenas nuvens plúmbleas. Também não sei nada do dia da semana, mês, ano.
Naquele dia o tempo, que teima em condicionar a vida humana, não tinha qualquer importância. Simplesmente não existia. Não o deixaria existir. Porque sim. Apenas.
Deixei-me entrar na minha própria mente, tantas vezes febril, apática, adormecida e passeei-me por ela com uma curiosadade faminta de mim. Só que tudo o que era orgânico, físico, psíquico não existia mais. Eu era outra. Melhor, eu era outras. Outras duplas de rostos iguais, mas sentires difversos. Talvez não fossem duplas. Talvez fossem clones. Não, não podia ser! Os clones são o aperfeiçoamento do que é considerado original mas imperfeito e ali não havia perfeição. Que absurdo!!!
O absurdo deste absurdo era estar absurdamente encantada com os meus clones imperfeitos. Mexiam-se como autómatos, deitavam-se de borco no chão e aí ficavam estáticos à espera de não se sabe o quê. Eram todos carecas! Por que seria? Ah, sim, lembrava-me... Num dia lunar, cortei o cabelo às tesouradas e depois tive de rapar o meu cabelo. Eu e eles tínhamos alguns momentos de vida comum ainda que não parecesse e poucos soubessem, desconfiassem ou acreditassem. Vivíamos no limiar da insanidade, à beira do precipício e à espera que tudo tivesse um fim. Até as deambulações.
Gostávamos de passear sem destino e por dentro de tudo. Não bastava ver uma escultura, tínhamos de sê-lo também. Estávamos sempre representados nas telas, porquanto ninguém soubesse. Éramos a partitura de algum músico. Sentíamos cada palavra escrita por tantos escritores.
Senti-me enjoada de mim. A minha mente regurgitava-me! Como? Porquê? Acordei num leito estranho, numa sala estranhamente branca, fétida de medicamentos e de morte cerebral.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Lâmpada... mas não de Aladino

Foto de F Nando
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Nos últimos tempos ou chove ou faz muito, muito, muito frio. É Inverno, claro!
Faz hoje precisamente uma semana que fui passear com os meus amigos até à Arrábida. Parávamos para ver o mar de um ponto estratégico e descíamos às praias, que como é compreensível estavam vazias.
Ainda que soprasse uma brisa cortante e o sol só fizesse a sua aparição por breves instantes, divertimo-nos bastante. E fizemos uma ou outra descoberta inusitada e muito reveladora do comportamento português.
Não sendo época de veraneio, o que salta de imediato à vista é o lixo que se acumula em alguns recantos das praias: sacos plásticos, latas de sumo, garrafas vazias, caixas de cigarros, enfim, lixo.
A descoberta mais curiosa e perigosa foi encontrar uma lâmpada que, num momento de desatenção de alguém que por ali passeie, pode causar danos que não desejará.
Esta não é obviamente a «Lâmpada de Aladino», não é preciso afagá-la para que se realizem desejos. Naquele dia transformou-se num artefacto simples que deu origem a uma fotografia artística.
Depois do passeio, fomos todos ao restaurante O Rei dos Chocos, em Setúbal. O que foi o almoço? Choco frito evidentemente. Estava tudo delicioso. Antes do regresso a casa ainda deambulamos pelas ruas da cidade. Foi um dia fantástico!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A propósito de umas cinzas...

Há mortes esperadas e mortes inesperadas. Há mortes tranquilas e mortes hediondas e brutais. A morte acompanha-nos desde o dia em que somos embrião. A vida é um percurso até ela. Por isso, é melhor que a desfrutemos bem.
Muitas pessoas exprimem à família, ainda em vida, por escrito ou oralmente, que após a sua morte querem ser cremadas. Pode ser mais caro, porém mais purificador e libertador. Além desse pedido, outros se lhe acrescentam. Umas querem que as suas cinzas sejam lançadas ao mar ou a um rio famoso; outras perto da árvore predileta do seu jardim; outras permanecerem num vaso crematório num local da casa; outras preferem ainda locais específicos em cidades bem conhecidas.
Há dias assistimos na televisão à deposição das cinzas de cremação de Carlos Castro em Times Square, Nova Iorque (EUA), Ora, esse acto segundo fontes noticiosas foi ilegal e está a causar indignação entre a população nova iorquina. Afinal, as autoridades da cidade não deram autorização para que as cinzas fossem despejadas num respiradouro do metro.
Parece-me uma escolha estranha depois de não ter sido possível tê-lo feito nas ruas de Times Square ou no rio Hudson. As irmãs e o amigo do cronista quiseram cumprir o desejo de Carlos Castro. Sim, claro! Mas que diria o cronista se pudesse manifestar-se acerca desta escolha feita à pressa? Que depois de morto tanto faz? Que só queria as suas cinzas na cidade de Nova Iorque!