sábado, 16 de abril de 2011

TERNURA


"Ternura" é o tema escolhido para participar, este mês, no desafio da Fábrica de Letras.

Há momentos de ternura inesquecíveis e indescritíveis.
A palavra ternura sugere-me também esse sentimento. Sentimos ternura pelo mínimo gesto, por uma palavra amiga que nos foi dirigida, pela nossa cadelinha que nos vem lamber as mãos quando estamos tristes.
Desta vez resolvi prestar homenagem a um professor e escritor de que gosto. Também ele escreveu sobre ternura.
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Ternura

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira, in "Infinito Pessoal"

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O BEIJO


Robert Doisneau

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Beijo-te ardentemente
num gesto impulsivo de opala
sem hora e sempre
com sabor transparente ao nosso
after

Beijo-te bem intensamente
no corpo todo e que sei meu
e aninho o meu no teu abraço
doce

Beijo-te apaixonadamente
nos lábios de rosa veludo
sentindo um arrepio terno de sentimento
único, irrepetível, sensível

Beijo-te, beijo-te, beijo-te
sempre e sem hora
agora

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Dantes




Foto de FNando
(Alcochete)

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Agora sei o que são semanas longas, longuíssimas e solitárias.
Agora sei que nem sempre preencho as horas vazias com o que gosto.
Agora sei que o dia tem mais de vinte e quatro horas sem palavras poéticas.
Agora sei que me aborreço de mim mesma por estar tão quieta e dormente.
Agora sei que há este mundo feito de ansiedade e receios.
Agora sei que há fins-de-semana cinzentos com raios de sol invisíveis.
Agora sei que tudo que se foi deixou um vazio incomensurável.
Agora sei que a dor vem de dentro e se instala sem me pedir.
Agora sei que há lugares para quem tem hemorragias internas de dor aguda e insana.
Agora sei que me morro a cada dia, mês, ano que passa.
Agora sei que me procuro mais por não saber estar onde outros estão.
Dantes nada sabia ao certo embora o pressentisse.
Dantes tudo me parecia certo e bem.
Dantes tinha asas e voava ao encontro dos meus sonhos.
Dantes queria viver intensamente, aprender tudo, ser sempre outra.
Dantes é tão longe e tão doce e acre!
Dantes acreditava ser feliz e não o era.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Um dia...

Cascata em Manaus - Amazónia

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Do outro lado do largo oceano existe ainda uma espécie de paraíso. A floresta de frondosas e centenárias árvores, que se erguem com uma força tal que mais parecem querer ser irmãs do céu, resistem às mãos insensíveis dos lenhadores.
A água abunda. Caminha em cascatas graciosas e convidativas a um bom banho. Sabem a liberdade. Sonham com poetas sequiosos de tanta beleza.
Há uma paleta policroma que se transforma numa gigantesca tela de técnica mista. Há papel papiro, água doce e morna, verde verdejante, azul céu, rocha escada burilada pelas torrentes.
E existe a minha vontade do lado de cá desse largo, larguíssimo oceano e longe. longíssima estado brasileiro que me espera. Já me chama. Um dia qualquer irei.


quarta-feira, 30 de março de 2011

MENTES INQUIETAS

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.





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Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

Mário de Sá Carneiro




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EU QUERO AMAR PERDIDAMENTE

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder ... pra me encontrar...


Florbela Espanca


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O Palácio da Ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busca anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formusura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão -- e nada mais!


Antero de Quental

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Não se sabe bem de onde vem essa inquietação. Mas ela existe e perturba qualquer ser aparentemente mais forte tornando-o frágil e à mercê ou da dor ou de um estado de delírio incontrolável. Apetece tudo e não se quer nada. Sabemos quem somos e logo depois já não nos reconhecemos nas palavras que dissemos ou escrevemos. Há uma angústia permanente. Um desassossego que não passa e dói fundo no ser. Às vezes, a obsessão acompanha todos os actos e pensamentos. Ninguém compreende. Quem sente sofre. A dor e o desespero são realmente o pior de tudo. O cansaço também.

domingo, 27 de março de 2011

City of Angels- Spreading Wings




No que acreditamos? Será que temos de acreditar no que quer que seja? Será que já nascemos a acreditar em algo? Ensinaram-nos a acreditar?

Os nossos amigos e familiares dizem-nos para acreditarmos em nós: nos nossos sonhos, nas nossas decisões, nos nossos projectos. Pedem-nos que sejamos sempre positivos. Não obstante nem sempre é fácil.

Não sei no que acredito e se acredito ou se quero verdadeiramente acreditar no que quer que seja.

Às vezes acredito em seres invisíveis, que um dia tiveram de partir mas que estão ao nosso lado. São os nossos anjos da guarda. Protegem-nos em todos os momentos e estão connosco nos momentos mais felizes ou mais dolorosos.

Acredito em anjos, seres fantásticos, invisíveis que fazem parte de Fantasia, onde me retiro cada vez mais dias.

segunda-feira, 21 de março de 2011

DIA MUNDIAL DA POESIA

O dia nasceu azul azul e muito solar. Raios dourados alongavam-se e beijavam a Terra e todos os Seres. As árvores estavam bem dispostas e viçosas e as aves enchiam os campos de trinados melodiosos e alegres. O cuco cantava sem parar, seguindo sempre a mesma melodia de todos os anos. Era um cantador afinadíssimo!

Manhã de poesia. Da nossa e de todas as línguas do Universo. Manhã de poemas. De todos os poemas já escritos e por escrever. Poemas de um só verso, de uma quadra, de um conjunto de quintilhas, de um soneto., de uma cantiga, ... ou simplesmente de um poema livre livre livre. Poema escrito no vento e (re)escrito, um dia ou logo depois, na página em branco.
E o poeta? O poeta começa o poema num momento de intensa, desejada, inspiradora solidão. Por vezes, tem de esperar pelas palavras ou pela inspiração. Outras vezes, não. Estas saem-lhe num jacto, num momento de autêntica euforia criativa. Nada o pode parar. Até ele sente dificuldades em parar. Só o ponto final! Só a última palavra do poema se não tiver pontuação! Tudo sai em torrente. Nessas alturas, esquece-se de dormir, de comer, de que o esperam no emprego. Tem de escrever. De escrever com mini pausas roubadas à poesia.
Frente e verso... Frente: o corpo, o olhar, os gestos, os movimentos, a vida quotidiana, as palavras, os silêncios. Verso: o ser, os sonhos, as viagens internas, as palavras escrevinhadas, a sensibilidade, a entrega límpida e doce à escrita.
O poeta pode fingir o que sente, tal como diz Fernando Pessoa, mas ainda que finja sente muito, sente mais do que qualquer ser humano, que desconhece que na mente do poeta existe todo um mundo pronto a aparecer perante todos. Só espera a Hora. Aquela Hora tantas vezes nocturna , aquela Hora prima de uma beleza inigualável!

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a) Fotos F Nando
b) Livros Frente e verso, que acompanhavam a revista «Visão»
c) Agenda
2010 (Fernando Pessoa)