quarta-feira, 11 de maio de 2011
Deixa-me...
Deixa-me aninhar-me no teu colo
e sentir o bater do teu coração
e o calor do teu corpo
e o beijo ainda imaginado
mas tão desejado
Deixa-me sentir o teu abraço
e o carinho, a ternura doce
e a segurança que nunca antes senti
mas que quis de mais
Deixa-me saber-te e ler-te
e inebriar-me nessas leituras
e sentir-te longamente
e nos momentos rápidos sermos Um
mas sempre intensamente
Deixa-me voar contigo
ao sabor do vento e do sol
e seguir os astros
e inventar outros momentos de luz
e de luar nas asas do real
Abraça-me, sim abraça-me e beija-me
Não me deixes nunca
que nunca é eternidade
Beija-me os pés, as mãos, a boca
e todo o meu corpo feito de incêndio
por esperar por ti
Não sei o que quero nem o que não quero. Se fico dentro de quatro paredes morro-me de solidão e infelicidade. Se saio sinto uma angústia gigantesca a consumir-me. O exterior sabe-me a ameaça e no entanto ... queria sair de onde me encontro.Queria poder viajar. Voltar sobretudo a Paris ou a Barcelona ou a Londres ou ir até mais longe. Ir até Manaus, capital da Amazónia, onde o meu irmão trabalha. Contudo, sinto-me doente, sem forças para nada e com medo.
Queria acreditar em algo, ter objectivos e voltar a ser quem já fui mas sem estes receios todos...
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Chelas - Mirandela

É na Primavera que a aldeia da minha mãe (Chelas - Mirandela) ganha cor e vida. Cor por estar rodeada por montes e vales onde abundam as flores e vegetação diversa. Vida por coincidir com a Páscoa e com a vinda de emigrantes e de gente que se fixou nas grandes cidades.
A pequena aldeia, com mais ou menos vinte habitantes residentes, encontra-se situada no alto de um monte e entre o rio Rabaçal do lado esquerdo e o rio Tuela do lado direito. Os dois rios fundem-se num só depois de alguns metros de terrenos agrícolas nascendo aí o rio Tua. 

Há já alguns anos que as casas estão a ser reconstruídas, mantendo os materiais da zona: o xisto e o granito. É agradável constatar que o património se vai preservando, ainda que às vezes não seja possível pois as casas originais já eram construídas noutros materiais.
Algumas destas belas casas são casas de férias ou de fim-de-semana. Os emigrantes regressaram e investiram o seu pecúlio numa casa, no entanto depressa voltaram a emigrar por causa da crise no nosso país. A maioria encontra-se em França. Tal como aconteceu aos meus pais que na década de sessenta também emigraram para lá.
No Verão a aldeia enche-se dos seus filhos pródigos. Apesar do calor, pois estamos a falar da Terra Quente, muitos sentam-se à sombra das varandas e alpendres. Põem a conversa em dia, recordam os momentos bons, bebem cerveja bem fresquinha que têm no frigorífico, fala-se da crise que atingiu toda a Europa. O tom é de descrença quanto à recuperação do euro, mas há sempre outras vozes dissonantes que acreditam que tudo vai mudar, pois não é só a Europa que está em crise, é o mundo inteiro.
No dia da festa da padroeira da aldeia, Santa Maria Madalena, a terra enche-se de gente. A festa tem lugar a 22 de Julho. Além dos autóctenes, dos emigrantes, dos que moram em Mirandela, vêm também alguns curiosos e turistas que se encontram no parque campismo, não muito longe dali.
A igreja é ricamente ornamentada com flores e rendas em todos os altares. A igreja chega a ser pequena para tanta gente. Faz-se também uma pequena procissão à volta do santuário. Depois cada um, com os seus convidados, vai para sua casa degustar as iguarias transmontanas que preparou para este dia.
Há muitos anos que deixei
de ir a esta festa. Prefiro uma breve estadia no Inverno, digo breve porque a Terra Quente é também gelada no Inverno, e eu sofro com o frio. Não consigo sair de casa. Prefiro demorar-me por lá na Páscoa. Gosto de ver o campo verde e florido, os pessegueiros com frutos ainda pequenos, sentir uma mistura de odores, ouvir o zumbir das abelhas e o canto do cuco e de outras aves. Sinto saudades de ouvir o som da água a correr nos fontanários, que foram deixados ao abandono.
de ir a esta festa. Prefiro uma breve estadia no Inverno, digo breve porque a Terra Quente é também gelada no Inverno, e eu sofro com o frio. Não consigo sair de casa. Prefiro demorar-me por lá na Páscoa. Gosto de ver o campo verde e florido, os pessegueiros com frutos ainda pequenos, sentir uma mistura de odores, ouvir o zumbir das abelhas e o canto do cuco e de outras aves. Sinto saudades de ouvir o som da água a correr nos fontanários, que foram deixados ao abandono. O da fotografia fica ao fundo das escadas da casa da minha mãe. Lembro-me como se fosse hoje, de ir lá encher os cântaros e transportá-los com dificuldade, em criança, para casa da minha avó, que fica a poucos metros de distância. Já mais crescida as bicas deixaram de correr. Íamos então buscar água ao rio Rabaçal. Levávamos uma rodilha e o cântaro de quinze litros. Descíamos uma encosta para a voltar a subir com o cântaro à cabeça. Quantas vezes eu e minha mãe fizemos esse trajecto. Lembro-me bem, muito bem. Assim como me lembro de lavar a roupa no rio.
Anos depois, muitos anos depois veio a água canalizada. Anos depois o saneamento. Depois as ruas em terra batida passaram a ser empedradas.
Tudo evolui com o tempo. No caso de Chelas, para melhor.
Para uma estadia confortável pode-se sempre ficar na Quinta Entre os Rios. Se tiverem curiosidade espreitem o site http://www.quintaentrerios.pt.vu/
sábado, 16 de abril de 2011
TERNURA
"Ternura" é o tema escolhido para participar, este mês, no desafio da Fábrica de Letras.
Há momentos de ternura inesquecíveis e indescritíveis.
A palavra ternura sugere-me também esse sentimento. Sentimos ternura pelo mínimo gesto, por uma palavra amiga que nos foi dirigida, pela nossa cadelinha que nos vem lamber as mãos quando estamos tristes.
Desta vez resolvi prestar homenagem a um professor e escritor de que gosto. Também ele escreveu sobre ternura.
A palavra ternura sugere-me também esse sentimento. Sentimos ternura pelo mínimo gesto, por uma palavra amiga que nos foi dirigida, pela nossa cadelinha que nos vem lamber as mãos quando estamos tristes.
Desta vez resolvi prestar homenagem a um professor e escritor de que gosto. Também ele escreveu sobre ternura.
***
Ternura
Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
David Mourão-Ferreira, in "Infinito Pessoal"
Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
David Mourão-Ferreira, in "Infinito Pessoal"
quarta-feira, 13 de abril de 2011
O BEIJO

Robert Doisneau
***
Beijo-te ardentemente
num gesto impulsivo de opala
sem hora e sempre
com sabor transparente ao nosso after
Beijo-te bem intensamente
no corpo todo e que sei meu
e aninho o meu no teu abraço
doce
Beijo-te apaixonadamente
nos lábios de rosa veludo
sentindo um arrepio terno de sentimento
único, irrepetível, sensível
Beijo-te, beijo-te, beijo-te
sempre e sem hora
agora
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Dantes
Agora sei o que são semanas longas, longuíssimas e solitárias.
Agora sei que nem sempre preencho as horas vazias com o que gosto.
Agora sei que o dia tem mais de vinte e quatro horas sem palavras poéticas.
Agora sei que me aborreço de mim mesma por estar tão quieta e dormente.
Agora sei que há este mundo feito de ansiedade e receios.
Agora sei que há fins-de-semana cinzentos com raios de sol invisíveis.
Agora sei que tudo que se foi deixou um vazio incomensurável.
Agora sei que a dor vem de dentro e se instala sem me pedir.
Agora sei que há lugares para quem tem hemorragias internas de dor aguda e insana.
Agora sei que me morro a cada dia, mês, ano que passa.
Agora sei que me procuro mais por não saber estar onde outros estão.
Dantes nada sabia ao certo embora o pressentisse.
Dantes tudo me parecia certo e bem.
Dantes tinha asas e voava ao encontro dos meus sonhos.
Dantes queria viver intensamente, aprender tudo, ser sempre outra.
Dantes é tão longe e tão doce e acre!
Dantes acreditava ser feliz e não o era.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Um dia...
*******
Do outro lado do largo oceano existe ainda uma espécie de paraíso. A floresta de frondosas e centenárias árvores, que se erguem com uma força tal que mais parecem querer ser irmãs do céu, resistem às mãos insensíveis dos lenhadores.
A água abunda. Caminha em cascatas graciosas e convidativas a um bom banho. Sabem a liberdade. Sonham com poetas sequiosos de tanta beleza.
Há uma paleta policroma que se transforma numa gigantesca tela de técnica mista. Há papel papiro, água doce e morna, verde verdejante, azul céu, rocha escada burilada pelas torrentes.
E existe a minha vontade do lado de cá desse largo, larguíssimo oceano e longe. longíssima estado brasileiro que me espera. Já me chama. Um dia qualquer irei.
A água abunda. Caminha em cascatas graciosas e convidativas a um bom banho. Sabem a liberdade. Sonham com poetas sequiosos de tanta beleza.
Há uma paleta policroma que se transforma numa gigantesca tela de técnica mista. Há papel papiro, água doce e morna, verde verdejante, azul céu, rocha escada burilada pelas torrentes.
E existe a minha vontade do lado de cá desse largo, larguíssimo oceano e longe. longíssima estado brasileiro que me espera. Já me chama. Um dia qualquer irei.
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