segunda-feira, 5 de março de 2012

Comer...

Ratatouille (França)
















Sabores da Clau (Brasil)

















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Nos primeiros anos de vida, podemos não identificar as texturas, mas reconhecemos odores: o leite materno, a papa, a sopa, a fruta em boião ou carinhosamente triturada com o garfo. São estes primeiros aromas que estimulam e despertam os sentidos.
Creio que estas descobertas mais ou menos odoríferas vão formando o gosto pela comida. Além de se despertarem os sentidos, estes são educados para as escolhas futuras, pois tudo é escolhido pela frescura e qualidade dos alimentos. Há tanto amor e preocupação nessas escolhas! Pois se alguns se deliciam com quase todas essas iguarias , outros há que têm muita dificuldade em apreciar o quer que seja.
Comer pode mesmo ser um prazer. Uma verdadeira paleta de cores e sabores e texturas. Um banquete para todos os sentidos. O doce, o ácido, o salgado, o picante hão-de satisfazer o paladar. O cru, o crocante, o estaladiço, o borbulhante serão bons para a audição. O cozido, o assado, o frito, triturado falam diretamente com o tato. O perfume dos morangos acabados de colher, do caril, do açúcar caramelizado serão sempre uma perdição para o olfato. O verde, o vermelho, o amarelo, o violeta, o dourado dos alimentos farão as delícias de qualquer olhar. E todos eles juntos serão, sem dúvida, uma policromia que apetecerá sempre.
Na fim semana passada, o meu irmão, sempre bom observador de comportamentos, disse-me que nunca me vira comer deliciada, porquanto sempre fora um sacrifício para mim alimentar-me. Reiterou-me que gostava de me ver comer com prazer. Concordei com ele. Hoje não só cozinho com prazer, como também me delicio a comer. Hoje a viagem pelos paladares e sabores é uma descoberta deliciosa.


sábado, 3 de março de 2012

Caminhada


Foto de FNando
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Era um solarengo mas frio dia de inverno. Não lhes apetecera ficar em casa, por isso decidiram dar uma caminhada pela praia. Ambos gostavam de ver o mar, de caminhar bem à beirinha, de sentir o sol no rosto, de respirar a maresia.
Sempre de mãos dadas, atravessaram o extenso areal até se aproximarem do mar. Aproximaram-se o mais que puderam como num desafio ao elemento água. Não obstante, nenhum deles se molhou. Correram ou afastaram-se rapidamente sempre que o mar parecia vir ter com eles. Não havia ali uma medida de forças. Apenas um jogo.
Caminharam pela praia ao longo do mar. Sentiam o vento brincar nos cabelos e nos cachecóis. Os aromas do mar entravam-lhes pelo nariz. Quando aspiravam fundo, maior era a quantidade de ar húmido e frio que aspiravam, todavia adoravam fazê-lo. Era bom. Fazia bem.
Ela era a primeira a deixar-se vencer... Depois de andar alguns quilómetros, as suas pernas acusavam um certo cansaço, enquanto a sua respiração se tornara mais ofegante. Ele incitava-a a continuarem. Mas ela, exausta, dizia-lhe com voz melíflua, que preferia voltar. E regressavam, refazendo o caminho que já tinham feito. Paravam para dar atenção a uma concha, a uns restos de rede, para observar uma arriba segura. E tiravam fotos.
Depois, regressavam a casa tão mais felizes!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Aparece

FERREIRA, Vergílio. Aparição

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Preguiçosa! Quem, eu? (risos) Sim, tu!!! Os livros acumulam-se numa torre, abandonaste dois dos teus blogues e mal escreves. Dizes que secaste! E sequei! Acabaram-se-me as palavras. Vê bem o que dizes! E quando pensas retomar a escrita? (pausa) Não respondes. Pois! Não sabes, claro. Vê se voltas a aparecer! Gosto tanto de te ler!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Declaração

Lenço dos Namorados - Viana do Castelo

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«Bai carta felis boando
Nas azas dum paçarinho
Cuando bires o meu amore
Dále por mim um veijinho»

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Que linda quadra de Amor! Que bela declaração ainda que singela. Como era encantador dizer o Amor num lenço bordado! Mais ainda, dá-lo ao amado como prova desse Amor. Era assim no passado. E era mágico. Porque se amava à distância, sem a proximidade física e, por vezes, sem o consentimento da família.
Quem bordava estes lencinhos eram pessoas com pouca instrução, visível nos erros ortográficos. Característico do norte de Portugal, bem ilustrado neste lencinho, é a troca dos "bês" pelos "vês" : "bai" em vez de vai "veijinho" em vez de beijinho. Ora, estes lencinhos bordados à mão são, por isso mesmo, um tesouro linguístico, cultural e social. São legados memoráveis do passado. O Amor sempre se disse, não importa como, nem quando e nem porquê!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Viajar, enamorar-se, amar


Foto de F Nando

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Viajar

Viagem... Partir e chegar ou não chegar nunca! Viagem ao fundo de mim através das palavras. Viagem a outros mundos através das palavras de outros autores. Viagem física no espaço. Pelo nosso Portugal ou por outros países. Tantas viagem extraordinárias, surpreendentes, encantatórias e maravilhosamente maravilhosas.
Encontros culturais. Encontros e mais encontros. Encontros a dois e novas descobertas desta vez a dois. E as viagens continuam e são surpresas a cada momento.

Enamorar-se

Antes do encontro, primeiro foram trocadas inúmeras mensagens. Algumas longas e verdadeiras conversas. Outras mais visuais. Eram e continuam a ser, ainda hoje, fotografias que dizem o incrível, o belo, a arte.
Depois seguiram-se palavras de enamoramento. Palavras melífluas, doces, divinas. Dizia-se já o sentimento que havia de ser muito mais do que amizade. Era o dizer o amor, ainda que de forma contida.
Enamoramo-nos por livros. lugares, obras de arte, porém enamorarmo-nos por alguém é muito maior e intenso.

Amar

Era junho e apesar do dia estar solarengo, fazia um vento desagradável. O rio Tejo ameaçava galgar a vedação e os barcos balançavam desamparados, como que pedindo proteção e amparo.
Vieste ter comigo à beira rio e eu fui ter contigo à beira rio. O vento fustigava-me o cabelo.
Caminhei na tua direção como se já te conhecesse desde sempre. Tinha o coração acelerado, mas senti-me tranquila. Como aquele encontro era esperado!
Sabíamos que o que nos unia era único. Para mim era-o, pois nunca sentira o que sentia por ti. Compreendi, com o passar dos dias, que também era maravilhoso para ti. Havia tantas coincidências... Como não nos encontráramos antes? É que ambos fazíamos outras viagens!



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Digressões... pouco líricas

Foto de F Nando

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Sempre gostei de escrever. Desde miúda, como já devo ter dito num outro post. Todavia nunca fui de escrever diários, como a maior parte das adolescentes. E se o escrevi, não lhe posso chamar diário, porquanto eram poemas, episódios, contos.
Passaram muitos anos até que começasse a escrever um diário. Tudo aconteceu sem ser premeditado. Só sei que alturas havia em que tinha de escrever quase diariamente. Tanto podiam ser textos curtos como mais longos. Prevalecia a prosa poética e, pontualmente, um poema.
Quando quis dar-lhe um título, algo sempre difícil para mim, ocorreu-me a palavra «Digressões» . Lembrei-me dela por sempre me lembrar do início da obra Viagens na Minha Terra, pois o narrador diz-nos que vai iniciar as suas digressões à roda do seu quarto, evocando depois o trajeto da viagem de Lisboa a Santarém, e a história de Joaninha.
À medida que ia escrevendo o meu diário, já adulta, em prosa poética, constatei que as minhas digressões à volta de mim mesma, tinham algo de lírico, ainda que pouco lírico... Sempre fui demasiado silenciosa e introspetiva e triste. As minhas confissões de dor, angústia, medo, desespero estavam naquelas páginas, escritas a computador, para mais ninguém ver ou ler. Porém, num dos meus atos extremos, o meu irmão viria a lê-los e a descobrir o que tanto me torturava.
Foi em 2010 que dei por terminado este diário que iniciei em 1995. São muitos anos, dirão! Muitos mesmo. Não quero voltar àquelas páginas, que nem são muitas afinal, embora sinta o mesmo: vazio, angústia, dor, desalento.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Libertação


Foto de F Nando

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Há em mim um desejo oculto de libertação. Desde menina. Desde as vezes em que fugia de casa para me ir recolher na casa de amigos. Outras vezes escondia-me nos livros que lia e não respondia a ninguém. A minha mãe ficava de rastos e ralhava-me com severidade. Na altura não compreendia, mas imagino agora a angústia que ela sentia.
Com o correr dos anos esse desejo manteve-se. Já não fujo de casa como antigamente, porém ainda me escondo. Desta vez em casa. Por vezes é-me doloroso estar com os outros, porque não consigo estar onde eles querem. Não acompanho os seus atos, as suas palavras, os seus pensamentos.
Há alturas em que procuro esquecer-me de mim e aí saio. Vou até uma praia e observo as gaivotas que caminham na areia e que depois levantam voo. Subitamente. Vão ao encontro de qualquer abrigo. Outro lugar.

domingo, 29 de janeiro de 2012

bAr GeLaDo

Foto de F Nando

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Onde será que esta foto foi tirada? Terá sido no Árctico? Onde? Onde? E o que será? Será mesmo um bar?
Será que tantas perguntas fazem sentido? Não, mas apeteceu-me começar assim estas divagações...
Esta foto foi tirada no território português, numa vila maravilhosa, linda, linda. Gosto das muralhas, das ruas estreitas intramuros da vila, das casas, das igrejas, da ginjinha com elas (as ginjinhas, claro!). Adoro Óbidos!
Foi na vila de Óbidos que encontrei um bar gelado, o inesperado "Bar do gelo". O seu exterior, um iglo branco que não em neve, não fazia adivinhar o que seria o seu interior. À entrada, uma mini ante-sala, encontravam-se os fatos próprios para suportar as temperaturas negativas.
A entrada nesse bar, remete-nos para um local distante no espaço. Todo ele é gelado. O balcão, as mesas, os bancos, os quadros...
O serveur jovem é de uma simpatia incrível. Responde com um sorriso a todas as questões que os clientes colocam e até tira fotos.
Não há muitas bebidas à escolha, mas as que existem vão ao encontro dos visitantes. Sumo de laranja para os que não bebem bebidas alcoólicas, vodka e ginjinha para os apreciadores de álcool. Fiquei-me por duas ginjinhas. Que deliciosas e agradavelmente frescas!!!
Mais engraçado foi voltar à temperatura ambiente no exterior. Ao sair de um local tão frio, mais parecia que se estava num dos solarengos e quentes dias de primavera. E o passeio continuou, com algumas compras naquele local encantado.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A, B, C


A moment Becomes Creation

One day we watch the sun and laugh. The other the rain comes and the grey sky makes us sad.
Melancholia takes its place. I listen to Wagner and I feel autumn in my soul. The silence surrounds me... it takes me all over.
I'm freezing inside. I have no words and my thoughts are so ill that I can´t explain or know for sure where I am. I'm lost. Lost in the alphabet of feelings...

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Em Manaus

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Em certos dias de canícula tropical, à falta de uma praia, sabe bem aceitar o convite amigo para um churrasco à beira da piscina. Os anfitriões sorridentes, simpáticos, felizes recebem os amigos. Põem à vontade os que vão chegando aos pares ou em grupo. Servem-lhes caipirinhas, chôpes, vinhos, sumos de fruta natural. Tudo bem fresquinho. Tudo coloridamente delicioso e refrescante.
Depois todos se trocam nos balneários e mergulham na grande piscina azul. A alegria espalha-se. Há bolas atiradas pelo ar, jogos disputadíssimos sem qualquer ponta de competição. Divertimento e frescura são as palavras de ordem. Outra palavra de ordem é comer. Bem e de mais para alguns, europeus, pouco habituados a estas horas infindáveis de degustação...
Nacos de carne de vaca tenra são colocados nos grelhadores. Hum! que cheiro delicioso! Assam-se também salsichas,  rodelas de abacaxi. Há sobre a mesa um panelão com feijoada brasileira, mandioca para acompanhar. É a carne que não pára nunca de sair da brasa, sempre suculenta e que se derrete na boca como manteiga. Mais caipirinhas a acompanhar, pois a maioria parece inclinada para esta bebida. Só os que não bebem bebidas alcoolicas preferem os sumos de fruto, ainda que poucos. Sucedem-se as sobremesas. São tantas e tão difíceis de escolher!
O dia avança. Dança-se ao som do samba e de outras modinhas brasileiras. Por descuido intencional há pares que caem na água, outros são empurrados e todos dão gargalhadas de felicidade. E logo retomam a festa em que o almoço se transformou.
Manaus e a alegria das suas gentes chegam-me através dos relatos que o meu irmão me faz pelo telefone ou via skipe. É através deles que imagino esses almoços, o Festival do Boi, o Carnaval. É assim também que mato as saudades e se me aguça a vontade de conhecer a capital da Amazónia indo ao seu encontro.



terça-feira, 13 de setembro de 2011

Sê grande

 Paris
Foto de FNando
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Sê grande
 ainda que sintas que o não  és
pois só sentir
plenamente
e buscar o indizível
te é permitido

sábado, 3 de setembro de 2011

Papéis dispersos

 Foto de FNando



Numa mesa
             na esplanada do café Le Quai
                 papéis dispersos
             despertaram
             o olhar verde escuro do serveur
             Uma voz respondeu à pergunta silenciosa.
             Sou a poesia que a imaginação dos seres
             também como tu 
             sentem

             Um sorriso ondulou no seu rosto infantil
                  e ainda sem nada dizer
             sentindo apenas
             afastou-se iluminado


 

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Cosmopolitismo










No post anterior, apresentei fotos de alguns veículos que observei nos meus passeios por Paris e que muito me agradaram pela sua diversidade e beleza. Desta vez partilho o que há de comum entre as pessoas e as cidades ditas cosmopolitas. Vi militares armados nos locais turísticos, nas estações de metro e comboio; vi pessoas de origens e etnias diferentes; observei um casal recém-casado a tirar fotos à beira da Sena; talvez tenha visto uma possível modelo de tão alto que a jovem era. Cruzei-me com muçulmanas que continuam a usar o seu traje tradicional, apesar de o véu ter sido proibido por lei por Sarkozy. Outras que pediam nos locais mais movimentados. E outras pessoas sentadas nas escadas do rio Sena olhando-o pensativamente.
Creio que agimos todos da mesma forma: admiramo-nos com as milícias fortemente armadas; achamos estranho os trajes de muçulmanos num país onde foram proibidos; invejamos a elegância e altura de uma mulher exuberante; sentimos ternura por um casalinho a tirar fotos; rimo-nos com as diferentes cores e dos cortes de cabelo.
As fotos do Nando são uma pequena amostra das pessoas que residem, visitam, passeiam, vigiam a bela cidade das Luzes: Paris.

sábado, 20 de agosto de 2011

Souvenirs












































































































































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Entre o moderno e o clássico - estes
instantâneos belíssimos foram captados em Paris, na semana passada, e foram-me amavelmente cedidos pelo fotógrafo do blogue
Sebenta do Nando (http://sebentadonando.blogspot.com)


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Je t' aime à la folie

Paris
Foto de Pedro Reis Miguel

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Há palavras, expressões, poemas, parte de textos dos quais nos apropriamos, embora saibamos que não são da nossa autoria. Aprendêmo-los, repetimo-los, recuperamo-los nas situações mais inesperadas.
Aconteceu-me. Sim, aconteceu-me recuperar uma expressão que, durante largos meses, não sabia de onde vinha. Todavia tinha todo o sentido para mim dizê-la repetidamente, porque era isso que queria dizer e sentia, e digo e sinto: «Je t' aime à la folie». Nunca antes me ocorrera dizê-la, porém "O coração tem razões que a razão desconhece".
Hoje, por curiosidade fiz uma pesquisa na internet. Que descobri? Que se tratava do título de uma canção dos anos setenta de Serge Lama. Ora, nada em França e aí residente até aos oito anos e visitante reincidente, apesar da tenra idade, fixei a expressão. Mas uma vez adulta, esqueci o seu autor.
Será plágio dizê-la quando é o que sentimos e não encontramos outra melhor que a substitua!? É que sou uma fã incondicional da Língua e Cultura Francesas.
Faltam poucos dias para mais uma visita. Não me canso nunca!!!

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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Digressão


Lyon - França

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Último dia de Outubro de 2005


Este fim-de-semana evoquei paisagens de outrora. São paisagens de um outro tempo, de um outro lugar, muito distante deste onde me encontro. Era tudo tão mágico, tão de sonho! Tão de mais!
Foi muito simples reabilitar esse passado. Creio que foi a paisagem do filme Wicker Park que me fez ressuscitá-lo. Como sinto falta da paisagem branca, branca. Ver os flocos de neve descer do céu ininterruptamente, vê-los cair uns sobre os outros até cobrirem tudo com um manto imaculado.
Mais belo e inesquecível ainda é andar nas ruas brancas e sentir no rosto o frio cortante. Sabia tão bem fazê-lo! Mesmo quando os trilhos por onde todos passavam se transformavam numa lama aguada e acastanhada.
As roupas quentes que somos obrigados a vestir aconchegam-nos nesses passeios a pé. As luvas, os cachecóis, os gorros, os casacos compridos, as botas são de um conforto extraordinário. Tal como entrar numa chocolaterie e pedir um chocolate bem quentinho. Que aroma!
Depois retomava o passeio sozinha ou acompanhada, tanto fazia. Quando sozinha, apreciava a neve nos telhados das casas, nas copas das árvores, nas margens dos lagos. Observava as pessoas na sua rotina diária. Quando acompanhada, gostava sobretudo de respirar fundo, encher o peito de ar frio e de me ver, depois, a expirá-lo como se de vapor se tratasse.

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Participação do mês de Agosto para a «Fábrica das Letras»

sábado, 23 de julho de 2011

Sonhos de Criatividade aos Pedacinhos com um toque de Originalidade


Foto de F Nando

Realização. Sonhos que se concretizam. Esperança. Felicidade. Estas são as palavras, as ideias, os sentimentos que me ocorrem quando olho para esta fotografia.
Comecei a escrever as minhas primeiras quadras na primária. Foi também aí que escrevi os meus primeiros textos narrativos. No segundo e terceiro ciclos continuei a escrever. Sempre gostei das aulas de Língua Portuguesa. Apesar da minha timidez, gostava de ler os textos em voz alta. Era expressiva e a dicção perfeita. Os textos que escrevia, as chamadas composições, eram lidos por mim, a pedido dos professores, ou lidos por eles. Elogiavam a criatividade e as palavras eruditas que utilizava nos meus textos. Na verdade, sempre li muito e sonhar de mais!
No secundário, como a escrita destes textos quase não existia, escrevia para mim mesma. Escrevi poemas, cartas, descrições de espaços e de emoções. Enchi cadernos e blocos com esses textos. Facto que continuou na faculdade. Contudo, só os amigos tinham acesso a essa parte de mim.
Com o passar dos anos, já mulher, mais madura, ganhei o primeiro prémio de poesia. Depois decidi-me a participar numa coletânea de poesia (há qualquer coisa, Editorial Minerva). A apresentação do livro foi no Palácio Galveias, em Lisboa. A apresentação foi feita por Ângelo Rodrigues. Os outros autores também estavam presentes. Antes da sessão ter início, deram-me uma centena de exemplares. Senti um cocktail de emoções: ansiedade, nervosismo, felicidade, orgulho, realização.
Anos se passaram e decidi-me a editar uma aventura infanto-juvenil. A apresentação no Fórum Cultural de Alcochete não podia ter corrido melhor. Estiveram presentes amigos, familiares, colegas de trabalho. A apresentação ficou a cargo do vereador da cultura da Câmara de Alcochete, do amigo dinamarquês Niels Fisher, também discursei assim como a minha amiga e ilustradora, Fernanda Azevedo. Neste dia senti-me como uma verdadeira escritora. A falar com os convidados, a vender os livros, a dar autógrafos. Senti orgulho. Estava a realizar um sonho!
Há dois anos participei noutra coletânea. Desta vez os meus textos cruzaram o Oceano Atlântico e foram publicados no Brasil, pela Editora Novitas. Outra fase. Outros textos em prosa e poesia. Recebi os meus exemplares via Correios de Portugal.
Este mês revi o segundo volume da minha coleção infanto-juvenil. Desta vez vou ser mais insistente junto das editoras. Sei que esta aventura é mais empolgante e cheia de de mistério do que a primeira.
Os meus sonhos de criança vão-se realizando aos poucos. Ainda quero ser escritora!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Mensagem


Meus queridos Amigos

Hoje é o Dia do Amigo e não poderia deixar passar esta data sem escrever umas palavrinhas. Não sou muito de datas comemorativas, vocês sabem, porém abro aqui uma excepção para vos dizer o que sabem que sinto por todos vós.
Onde quer que estejamos, longe ou perto, sei que estamos no pensamento e na memória dos momentos partilhados, bons ou maus.
Que seria esta passagem feita de altos e baixos, momentos plenos e vazios, sem a felicidade de vos ter no meu coração? Sois seres de luz que me ajudam a encontrar o caminho. Sois anjos que me protegem sobretudo de mim mesma. Sois o meu refúgio para onde corro sempre que consigo pedir ajuda.
Os nossos caminhos cruzaram-se. Os laços entre nós fortaleceram-se. Crescemos uns com os outros em diferentes momentos da vida uns dos outros. Estamos juntos. SEMPRE!

Amo-vos de todo o coração.


terça-feira, 12 de julho de 2011

Vamos?


Vamos? - perguntei-te sorridente e com ar malicioso.
Onde? - quiseste saber.
Vamos? Vamos? Queres ir?
Onde? Se não me disseres onde vamos, não te posso responder. - disseste olhando-me fixamente com esse teu olhar maroto e traquina. - Tenho a certeza que estás a preparar uma marotice. Conheço-te bem.
Hum... Claro que não.
Sei que sim. Mas diz-me onde é que vamos? Onde queres ir?
Pergunta-me antes onde te quero levar.
Dá-me um beijo. - pediste com meiguice, acariciando-me o rosto.
Beijámo-nos várias vezes na boca e abraçámo-nos com ternura porque estávamos em pé. Como gostávamos desses mimos!
Então, já me podes dizer?
Entreguei-te um envelope bem colado que tiveste de rasgar com cuidado, para encontrares bem dobrado dois bilhetes de avião para Paris.
Disse-te que havíamos de ir um dia não disse? Parabéns Amor.
Amo-te! - disseste beijando-me e abraçando-me de novo.

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Nota: Foto de Natália Augusto, 2007

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Segredos de Lisboa

Visitar Saramago

Há algumas semanas que visitei o local onde foram depositadas parte das cinzas de José Saramago e a oliveira trazida de Azinhaga, sua terra natal.
Estava um dia poeticamenticamente solar, sem estar demasiado calor. Corria uma ligeira brisa que fazia balançar ligeiramente os ramos da oliveira.
Várias pessoas que por ali passeavam, paravam e observavam a árvore e as inscrições no chão. Algumas reconheciam logo do que se tratava, porém outras ignoravam completamente quem ali jazia. A homenagem ao nobel português da literatura nada lhes dizia.
Fiquei triste. Triste com a ignorância de certos portugueses, já que os estrangeiros que por ali andavam, procuravam mesmo esse lugar. Sabiam e conheciam a obra e as celebrações fúnebres realizadas.
Mais triste fiquei. Por isso considerei que a sua ida para Lanzarote tinha sido o melhor que tinha feito. Além disso, fora lá que tinha sido muito feliz com Pilar, o grande Amor da sua vida.
Quando o lugar ficou vazio, observei melhor a oliveira. No chão dormiam flores murchase outras viçosas, num dos ramos da oliveira havia um bilhete escrito, li-o e achei as palavras apropriadas, li também as placas escritas no chão. Uma tinha a data de nascimento e morte de José Saramago; a outra, uma das frases que antecedem o romance Memorial do Convento.
Quando me sentei no banco que ali colocaram pensei nessas palavras inscritas no chão «Mas não subiu para o céu, se à terra pertencia». Teria José Saramago pedido a Pilar para colocar essa inscrição no solo português, por ser isso o que ele pensava do ser humano e da morte? José Saramago não me elucidou. Nem eu fiz mais perguntas. Fiquei docemente silenciosa e na expectativa. Sentia que algo mais iria acontecer!
Enquanto os segundos de espera se escoavam no tempo, Saramago veio e segredou-me: «Por que esperas ? Não me encontrarás mais aqui! Estou em toda a minha obra!». «Eu sei. - respondi em voz baixa. - Mas agora está aqui, em Lisboa, ao pé de uma das suas muitas leitoras.» José Saramago anuiu e despediu-se dizendo «É uma das minhas mais fiéis leitoras. Fico grato.» E partiu. Nem tive tempo de me despedir...
Mantive-me quieta, com o coração cheio e feliz com esta conversa que ficaria para sempre em segredo. Era preferível que Saramago fosse meu e de todos, aqui, na Terra.
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Participação do mês de Julho de 2011 para a Fábrica de Letras