segunda-feira, 5 de março de 2012

Comer...

Ratatouille (França)
















Sabores da Clau (Brasil)

















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Nos primeiros anos de vida, podemos não identificar as texturas, mas reconhecemos odores: o leite materno, a papa, a sopa, a fruta em boião ou carinhosamente triturada com o garfo. São estes primeiros aromas que estimulam e despertam os sentidos.
Creio que estas descobertas mais ou menos odoríferas vão formando o gosto pela comida. Além de se despertarem os sentidos, estes são educados para as escolhas futuras, pois tudo é escolhido pela frescura e qualidade dos alimentos. Há tanto amor e preocupação nessas escolhas! Pois se alguns se deliciam com quase todas essas iguarias , outros há que têm muita dificuldade em apreciar o quer que seja.
Comer pode mesmo ser um prazer. Uma verdadeira paleta de cores e sabores e texturas. Um banquete para todos os sentidos. O doce, o ácido, o salgado, o picante hão-de satisfazer o paladar. O cru, o crocante, o estaladiço, o borbulhante serão bons para a audição. O cozido, o assado, o frito, triturado falam diretamente com o tato. O perfume dos morangos acabados de colher, do caril, do açúcar caramelizado serão sempre uma perdição para o olfato. O verde, o vermelho, o amarelo, o violeta, o dourado dos alimentos farão as delícias de qualquer olhar. E todos eles juntos serão, sem dúvida, uma policromia que apetecerá sempre.
Na fim semana passada, o meu irmão, sempre bom observador de comportamentos, disse-me que nunca me vira comer deliciada, porquanto sempre fora um sacrifício para mim alimentar-me. Reiterou-me que gostava de me ver comer com prazer. Concordei com ele. Hoje não só cozinho com prazer, como também me delicio a comer. Hoje a viagem pelos paladares e sabores é uma descoberta deliciosa.


sábado, 3 de março de 2012

Caminhada


Foto de FNando
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Era um solarengo mas frio dia de inverno. Não lhes apetecera ficar em casa, por isso decidiram dar uma caminhada pela praia. Ambos gostavam de ver o mar, de caminhar bem à beirinha, de sentir o sol no rosto, de respirar a maresia.
Sempre de mãos dadas, atravessaram o extenso areal até se aproximarem do mar. Aproximaram-se o mais que puderam como num desafio ao elemento água. Não obstante, nenhum deles se molhou. Correram ou afastaram-se rapidamente sempre que o mar parecia vir ter com eles. Não havia ali uma medida de forças. Apenas um jogo.
Caminharam pela praia ao longo do mar. Sentiam o vento brincar nos cabelos e nos cachecóis. Os aromas do mar entravam-lhes pelo nariz. Quando aspiravam fundo, maior era a quantidade de ar húmido e frio que aspiravam, todavia adoravam fazê-lo. Era bom. Fazia bem.
Ela era a primeira a deixar-se vencer... Depois de andar alguns quilómetros, as suas pernas acusavam um certo cansaço, enquanto a sua respiração se tornara mais ofegante. Ele incitava-a a continuarem. Mas ela, exausta, dizia-lhe com voz melíflua, que preferia voltar. E regressavam, refazendo o caminho que já tinham feito. Paravam para dar atenção a uma concha, a uns restos de rede, para observar uma arriba segura. E tiravam fotos.
Depois, regressavam a casa tão mais felizes!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Aparece

FERREIRA, Vergílio. Aparição

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Preguiçosa! Quem, eu? (risos) Sim, tu!!! Os livros acumulam-se numa torre, abandonaste dois dos teus blogues e mal escreves. Dizes que secaste! E sequei! Acabaram-se-me as palavras. Vê bem o que dizes! E quando pensas retomar a escrita? (pausa) Não respondes. Pois! Não sabes, claro. Vê se voltas a aparecer! Gosto tanto de te ler!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Declaração

Lenço dos Namorados - Viana do Castelo

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«Bai carta felis boando
Nas azas dum paçarinho
Cuando bires o meu amore
Dále por mim um veijinho»

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Que linda quadra de Amor! Que bela declaração ainda que singela. Como era encantador dizer o Amor num lenço bordado! Mais ainda, dá-lo ao amado como prova desse Amor. Era assim no passado. E era mágico. Porque se amava à distância, sem a proximidade física e, por vezes, sem o consentimento da família.
Quem bordava estes lencinhos eram pessoas com pouca instrução, visível nos erros ortográficos. Característico do norte de Portugal, bem ilustrado neste lencinho, é a troca dos "bês" pelos "vês" : "bai" em vez de vai "veijinho" em vez de beijinho. Ora, estes lencinhos bordados à mão são, por isso mesmo, um tesouro linguístico, cultural e social. São legados memoráveis do passado. O Amor sempre se disse, não importa como, nem quando e nem porquê!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Viajar, enamorar-se, amar


Foto de F Nando

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Viajar

Viagem... Partir e chegar ou não chegar nunca! Viagem ao fundo de mim através das palavras. Viagem a outros mundos através das palavras de outros autores. Viagem física no espaço. Pelo nosso Portugal ou por outros países. Tantas viagem extraordinárias, surpreendentes, encantatórias e maravilhosamente maravilhosas.
Encontros culturais. Encontros e mais encontros. Encontros a dois e novas descobertas desta vez a dois. E as viagens continuam e são surpresas a cada momento.

Enamorar-se

Antes do encontro, primeiro foram trocadas inúmeras mensagens. Algumas longas e verdadeiras conversas. Outras mais visuais. Eram e continuam a ser, ainda hoje, fotografias que dizem o incrível, o belo, a arte.
Depois seguiram-se palavras de enamoramento. Palavras melífluas, doces, divinas. Dizia-se já o sentimento que havia de ser muito mais do que amizade. Era o dizer o amor, ainda que de forma contida.
Enamoramo-nos por livros. lugares, obras de arte, porém enamorarmo-nos por alguém é muito maior e intenso.

Amar

Era junho e apesar do dia estar solarengo, fazia um vento desagradável. O rio Tejo ameaçava galgar a vedação e os barcos balançavam desamparados, como que pedindo proteção e amparo.
Vieste ter comigo à beira rio e eu fui ter contigo à beira rio. O vento fustigava-me o cabelo.
Caminhei na tua direção como se já te conhecesse desde sempre. Tinha o coração acelerado, mas senti-me tranquila. Como aquele encontro era esperado!
Sabíamos que o que nos unia era único. Para mim era-o, pois nunca sentira o que sentia por ti. Compreendi, com o passar dos dias, que também era maravilhoso para ti. Havia tantas coincidências... Como não nos encontráramos antes? É que ambos fazíamos outras viagens!



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Digressões... pouco líricas

Foto de F Nando

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Sempre gostei de escrever. Desde miúda, como já devo ter dito num outro post. Todavia nunca fui de escrever diários, como a maior parte das adolescentes. E se o escrevi, não lhe posso chamar diário, porquanto eram poemas, episódios, contos.
Passaram muitos anos até que começasse a escrever um diário. Tudo aconteceu sem ser premeditado. Só sei que alturas havia em que tinha de escrever quase diariamente. Tanto podiam ser textos curtos como mais longos. Prevalecia a prosa poética e, pontualmente, um poema.
Quando quis dar-lhe um título, algo sempre difícil para mim, ocorreu-me a palavra «Digressões» . Lembrei-me dela por sempre me lembrar do início da obra Viagens na Minha Terra, pois o narrador diz-nos que vai iniciar as suas digressões à roda do seu quarto, evocando depois o trajeto da viagem de Lisboa a Santarém, e a história de Joaninha.
À medida que ia escrevendo o meu diário, já adulta, em prosa poética, constatei que as minhas digressões à volta de mim mesma, tinham algo de lírico, ainda que pouco lírico... Sempre fui demasiado silenciosa e introspetiva e triste. As minhas confissões de dor, angústia, medo, desespero estavam naquelas páginas, escritas a computador, para mais ninguém ver ou ler. Porém, num dos meus atos extremos, o meu irmão viria a lê-los e a descobrir o que tanto me torturava.
Foi em 2010 que dei por terminado este diário que iniciei em 1995. São muitos anos, dirão! Muitos mesmo. Não quero voltar àquelas páginas, que nem são muitas afinal, embora sinta o mesmo: vazio, angústia, dor, desalento.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Libertação


Foto de F Nando

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Há em mim um desejo oculto de libertação. Desde menina. Desde as vezes em que fugia de casa para me ir recolher na casa de amigos. Outras vezes escondia-me nos livros que lia e não respondia a ninguém. A minha mãe ficava de rastos e ralhava-me com severidade. Na altura não compreendia, mas imagino agora a angústia que ela sentia.
Com o correr dos anos esse desejo manteve-se. Já não fujo de casa como antigamente, porém ainda me escondo. Desta vez em casa. Por vezes é-me doloroso estar com os outros, porque não consigo estar onde eles querem. Não acompanho os seus atos, as suas palavras, os seus pensamentos.
Há alturas em que procuro esquecer-me de mim e aí saio. Vou até uma praia e observo as gaivotas que caminham na areia e que depois levantam voo. Subitamente. Vão ao encontro de qualquer abrigo. Outro lugar.