terça-feira, 3 de abril de 2012


Foto de F Nando - Paris

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Aquela sempre fora a casa de família. Era uma casa apalaçada, com vitrais pintados à mão e com muitas divisões. A escadaria longa, por vezes ligeiramente em caracol, era o que mais a fascinava desde criança. Nesses tempos parecia-lhe difícil subi-la e descê-la. Aliás, estava proibida de fazê-lo.
Já mais crescida, nas noites em que havia baile e a casa se enchia de luzes, não lhe era permitido assistir. Era imperioso ir para a cama. Ia obedientemente.
Certa noite, aventurou-se a espreitar. Saiu da cama e desceu parte da escadaria e sentou-se num degrau de onde podia ver as senhoras ricamente vestidas e os homens de fato e gravata. Conversavam, riam, bebiam, dançavam.
Deixou-se ficar quieta, silenciosa a observar os brilhos da noite. Era tudo lindo, mágico, maravilhoso. Parecia uma das histórias que lia à noite. Feliz por poder assistir de longe, pensando no dia em que faria parte daqueles eventos, decidiu voltar ao quarto.
Foi então que algo aconteceu. Duas elegantes senhoras discutiam em voz bem audível, com gritos à mistura, acusações e impropérios. Incapazes de conseguirem separá-las, acabariam por rebolar no chão, puxando os cabelos e esbofeteando-se. Até que conseguiram finalmente separá-las completamente descompostas.
Depois dos ânimos mais calmos, um homem distinto, com um cachimbo na mão, falou primeiro com uma e depois com outra, mas não impediu as lágrimas de ambas. Passado algum tempo, saíram sem muitas explicações, com uma delas. A outra, abandonada, infeliz, chorava e foi levada para a biblioteca para a consolarem.
Que escândalo! Durante meses e meses foi o tema das conversas entre adultos. Anos mais tarde, ela soube toda a história...

sábado, 31 de março de 2012

Quand le chat n' est pas là...

Charles de Gaulle - Paris

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As ilustrações, os grafittis, os cartoons são bons contadores visuais de histórias, que retratam uma situação ou um momento, tantas vezes, político e/ou humorístico. Este foi um dos que foi fotografado num dos aeroportos de Paris. Andávamos às voltas quando demos por ele e o fotógrafo captou-o com a sua objectiva.

«Quand le chat n' est pas là...», dado tratar-se nas terras da Gália, talvez sugira que quando o chefe de estado não está no país, tudo pode acontecer. Sarkozy tem uma obsessão de estimação: reunir-se mês sim, mês não com a sua homóloga Angela Merkel. Mas o mesmo não se passa no país do Astérix. Organizam-se manifestações, fazem-se greves capazes de parar o país, perseguem-se os manifestantes...
O que quer dizer então o aforismo? "Quand le chat n' est pas lá... les souris dansent!» Bem, não dançarão dada a conjuntura, mas farão o seu melhor... para provocar o caos!

Já por terras lusas, não são os gatos que nos abandonam.... São os patrões e sabe-se lá quando é que o fazem, porque nunca há um comunicado ao povo de que vão ausentar-se para tratarem dos nossos interesses, o que não é de todo verdade! Todos sabemos! Os destinos são muitos e variados e mesmo que se desloquem ao Parlamento Europeu para pedir ajuda, condescendentemente, pouco ou nada conseguem! Apelidam-nos tão e só de «bom élève»! E para quê!? Nada muda para melhor, antes pelo contrário... Que interessa ser-se bom aluno, se a qualquer momento o "chumbo" está à vista.

No entanto, não podemos interpretar o aforismo francês com o seu equivalente em português: «Patrão fora, dia santo na loja.» Não me parece que por cá alguém faça tanta algazarra como por lá. Fica tudo muito quietinho, no seu local de trabalho, não vá perdê-lo de um momento para o outro. E não é nada bom fazer parte da percentagem de pessoas desempregadas.

Bem vistas as coisas, prefiro a astúcia dos ratos franceses...


sexta-feira, 30 de março de 2012

Jardins









Fotos: Fernando Cardoso, Paris 2011

sábado, 24 de março de 2012

Artista da imagem


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Fotos a preto e branco! Fotos de fotógrafo qualificado. Fotos de fotógrafo amador. Ambos apaixonados pela arte de retratar. Procura da luz pura, que não ofusca mas que ilumina. Procura da postura correta que é corrigida com pequenas indicações ou alguns movimentos até à composição humana estar perfeita. Escolha de paisagens naturais marinhas... Encontro com a vida agitada e apressada da cidade...
O fotógrafo é o artista da imagem. A sua arte traduz a sua filosofia de vida e o seu amor pelo belo. Munido da sua máquina fotográfica, que leva sempre onde quer que vá, capta o real. Esse real que nos cerca: os nossos familiares e amigos, um evento social, uma exposição, um cenário de paz ou de guerra. E fá-lo sem receio, pois a palavra censura não faz parte do seu rolo fotográfico (quando ainda existiam...), da sua objetiva atenta e perspicaz, da sua eterna busca da autenticidade.
Onde quer que os seus passos o conduzam, não deixa nunca de se deixar seduzir pelo ser humano e os seus comportamentos, os seus artefactos... Depois de um número significativo de instantâneos tirados avidamente, sabe bem revelá-los aos seus olhos de artista. É um momento de alquimia...
Antes as fotos eram reveladas em papel fotográfico e nenhum erro podia ser corrigido. Hoje, graças às novas tecnologias, basta tirar o cartão da máquina, inseri-lo no computador e transferir as fotografias para uma nova pasta. Pode-se optar por não revelar as fotos, eliminar imediatamente aquelas de que não se gosta e gravar as melhores e até partilhá-las. É tudo tão mais simples!...
Ainda somos do tempo, como se esta expressão fosse importante neste momento e neste texto escrito nas horas nocturnas, em que temos registos pessoais, sobretudo retratos nossos e de família, a preto e branco. Sempre gostei dos álbuns de fotografia, dos albúns de família... Não pelas pessoas, porquanto não as conhecia todas, mas pelo álbum em si. As capas de veludo ou de pele trabalhada eram a primeira porta para uma viagem ao passado, por vezes, distante. Eram uma porta mágica que, uma vez aberta, me conduzia a um verdadeiro tesouro de poses estudadas, sorrisos discretos nas senhoras, extremamente solares nas crianças. Cada fotografia contava uma história ou histórias. Quase sempre a preto e branco.
Gostava sobretudo de voltar as páginas porque entre elas havia uma folha fina a separá-las e nelas podia sentir o perfume dos lilases e das violetas que se encontravam em pequenos saquinhos, nas gavetas dos armários e cómodas. Era todo um mundo de rostos e histórias...


PS: A foto de elétrico é da autoria de F Nando

quinta-feira, 15 de março de 2012

FLORBELA



Descobri os escritos de Florbela Espanca ainda na minha adolescência. Insatisfeita com os poemas que constavam do manual, fui adquirindo a obra aos poucos. Anos mais tarde, algumas amigas ofereceram-me uma Fotobiografia da poetisa.
Escusado será dizer que devorei os livros e que li e reli a sua Fotobiografia. Naquela altura, as sua palavras exerciam um estranho fascínio no meu ser. Identificava-me com a sua tristeza, o seu desalento, a sua desasperança, a sua procura vã do amor verdadeiro, a incompreensão a que se sentia votada.
Quanto mais lia Florbela, descobria que o seu desalento era o meu. E o vazio cresceu. Cada vez mais... Até às várias tentativas de suicídio: de Florbela e minhas. Ela partiu. Eu, por mais que tentasse, fiquei.... para escrever banalidades...

segunda-feira, 12 de março de 2012

E tudo

Foto de F Nando

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Brindemos às palavras que ainda estão por vir...
Brindemos às palavras esmagadas sob a força dos cavalos a galopar na praia...
Brindemos aos livros já escritos, mas nunca lidos...
Brindemos às árvores que plantamos numa qualquer primavera...
Brindemos aos filhos que não tivemos ou não pudemos ter...
Brindemos ao império dos sentidos...
Brindemos ao ar, à terra, ao fogo e à água...
Brindemos à natureza...
Brindemos ébrios de vida, de amor, de sonho, de vontade de se ser outros...
Brindemos...
... e bebamos poesia, literatura, natureza, vida e amor e tudo.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Subitamente


Há muito que não me acontecia. Há muito tempo que este sentimento não me invadia e paralisava tão avassaladoramente. Num momento estava bem, noutro senti uma espécie de mau estar que me tirou o sorriso dos lábios e me roubou a sensação de conforto e segurança. Seguiu-se um vazio enorme e uma profunda sensação de perda. Tudo o que antes me parecera certo, torna-se uma sombra ameaçadora.
Não havia como partilhar esta dor que me habitara durante longos e sofridos anos. Pensava que tinha desaparecido. Enganara-me, como noutras ocasiões. Parecia que um paul me engolia. Via-me novamente entregue a pensamentos sombrios. Subitamente... e sem razão aparente. Sentia-me inevitavelmente só.