quinta-feira, 10 de maio de 2012

XII - Naquele dia...


Faby deixou-se facilmente convencer pela amiga. Claro que iria com ela. Todavia não poderia ser nas datas que Emilie queria, por causa do seu trabalho. Só poderiam ir na segunda quinzena de Julho. Emilie ficou um pouco triste por não poder festejar  o seu aniversário na Itália.
-- Fazemos a festa cá com os nossos amigos. Depois vamos viajar e aproveitar ao máximo.
Emilie concordou porque não havia outra solução. Estava ansiosa que o tempo passasse. Gostava imenso de viajar e já tinha visitado vários países, quer a trabalho, quer de férias.
Um dia depois, soube pelo diretor geral da empresa que tinha sido ele a enviar-lhe a passagem como prémio de bom desempenho. Ela agradeceu e agora,sem saber bem porquê, começou a desconfiar dele.
Podia ter posto as rosas na sua bicicleta; podia ter acesso fácil no escritório à sua chave de casa; sabia o percurso que ela fazia quando caminhava ou corria e assim ter escrito a inicial do seu nome num cadeado. Além disso, tinham ficado muito próximos numa altura em que faziam viagem de negócios juntos. Depois tinham-se afastado.
Por agora, ia ficar atenta ao que o Jean fazia, isto é, como se comportava com ela. Era só estar atenta e juntar as peças do puzzle.

terça-feira, 8 de maio de 2012

XI - Naquele dia...


Os negócios iam bem na empresa. Aliás muito bem. Tinha cada vez mais parceiros de negócios e diferentes oportunidades com outros continentes desde que iniciara a parceria com o ex-marido. 
Emilie vivia cada vez mais num corrupio em reuniões e mais reuniões. Todos na empresa davam o seu melhor por estarem motivados.
Durante algum tempo, não houve mistérios e, por isso, Emilie esqueceu-se por completo desses episódios desagradáveis. Agora, vivia em paz e feliz. Mas, certo dia, encontrou na sua caixa do correio uma carta diferente. Quando a abriu, já em casa, viu que se tratava de uma passagem de avião em seu nome. Ficou estupefacta. Mais uma vez não havia remetente. Mais uma loucura...
E se aproveitasse? Não podia. Não podia ausentar-se de maneira nenhuma. Como assim, não podia? Claro que podia! Fosse lá quem fosse que a queria mandar para várias cidades de Itália, ela iria. Só não iria sozinha. Iria com Faby. Se ela não pudesse pagar a passagem, ela oferecê-la-ia à amiga. Quando iriam? Nada melhor do que por altura do seu aniversário. Que prenda fabulosa! Ela adorava viajar! Além disso, Veneza esperava-as. Dali a mais ou menos dois meses.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

X - Naquele dia...


Emilie nem queria acreditar no que via no seu escritório: o seu ex-marido, que depois do divórcio nunca mais ali tinha ido. Continuava atlético, elegante e muito bem vestido. Ainda assim, ele não a abalaria, nem entraria em discussões. Não havia filhos deste casamento. Emilie bem que o tentara convencê-lo do contrário, porém não conseguira.
-- Bom dia, Emilie. -- disse Eduardo.
-- O que fazes aqui? Não tens nada de vir aqui.
-- Não sejas assim. Se aqui vim era porque precisava de te falar com urgência.
-- Já falamos quando devíamos, Eduardo.
-- Trago-te uma proposta irrecusável.É uma proposta de negócios. A tua empresa vai faturar muito.
-- Imagino... -- respondeu Emilie com desdém.
-- Como és a diretora chefe tenho mesmo de falar contigo. Esqueçamos o rancor por uns instantes. Em nome deste negócio. Em nome da tua empresa onde gostas tanto de trabalhar.
Emilie calou-se por breves instantes. De seguida, pegou no telefone chamou a secretária, que vinha munida de um "lap-top".
Quando o ligou, surgiram no ecrã duas palavras garrafais: AMO-TE ÉMILIE. Perante a estupefação de Louise, Émilie pegou no "lap-top" e leu. E virou-se para Eduardo mostrando-lho:
-- Foi isto que vieste cá fazer? Para fazer troça de mim e dos sentimentos que senti por ti? És anedótico. 
Eduardo só conseguiu rir. Não ria de Emilie, mas do inusitado da situação.
-- Isso ri-te. Ri-te muito e engasga-te com o teu riso!
-- Émilie -- começou Eduardo -- não fui eu. Não fui. Acredita. Vim aqui a trabalho. Eu repito para ouvires bem: VIM A TRABALHO. A tua empresa é das melhores no âmbito da publicidade e a minha empresa precisa de uma equipa de design e marketing para fazermos o lançamento do novo automóvel Roland Garros, da Citroen. O nosso amor já morreu há muito. Deixa-te de egocentrismos.
-- Tens graça, olha que tens. Toma -- disse passando-lhe o "lap-top" -- apaga isso, por favor.
Eduardo apagou as duas palavras e o ecrã voltou ao normal.
A partir dali a reunião correu bem. Eduardo obteve o que queria. Émilie ganhou, sem esforço, um novo negócio. 
Chegou ao fim do dia cansada e feliz. Até se esqueceu dos momentos desagradáveis. Tinha-se exaltado com Eduardo, mas depois soubera recuar e aceitar que ele tinha razão.



quinta-feira, 3 de maio de 2012

ViNtE aNoS



Tinha uns olhos singulares: azuis mar céu sonho. Tinha uma boca com lábios finos: rosados e de sorriso fácil e carinhoso. Tinha umas mãos másculas: fortes como a terra, generosas e tantas vezes meigas. Tinha uma tez clara: ebúrnea e imaculada.
Emigrou. Lograda a primeira tentativa, tentou novamente vencer os Pirinéus e conseguiu. Iniciou nova vida fora da pátria. Antes da segunda tentativa casou. Aí nasceram os filhos: amava-os de paixão.
Gostava de jardins: gostava de flores: amava as rosas. Gostava de estar perto de amigos e familiares: nos piqueniques, nas festas de aniversário, nos jantares.
Em vinte anos nada foi esquecido. Nada. Dia dois de maio é o mês do meu pai. O dia em que a polícia descobriu o corpo amarrado numa raiz de árvore, dentro da água de um rio. Nunca mais fui/fomos os mesmos.

Je t' aime pápá. Toujours!

segunda-feira, 30 de abril de 2012

IX - Naquele dia...


No dia seguinte foi à polícia apresentar queixa "contra desconhecidos", visto não haver um suspeito. O agente que a atendeu colocou-lhe questões a que Emilie respondeu com assertividade. Houve, no entanto, um momento em que o agente sorriu e ela achou que troçava dela, mas não se deu por vencida. Descreveu todos os factos insólitos e depois assinou a queixa. Saiu dizendo: "Bom dia" e pensando que dali não haveria resultados.
Já na rua ligou à sua amiga Faby, a sua amiga de infância, para se encontrarem numa das muitas confeitarias com esplanada. O sol brilhava, portanto o melhor era aproveitar para desfrutar o momento. Quando lá chegou, Faby já estava à sua espera. Sentou-se. Pediram café e um croissant com doce de ovos.
Emilie desabafou então com a sua maior amiga. Contou-lhe tudo. Contou-lhe do medo que sentia por ter recebido uma cópia da chave da sua casa e o que logo mandara trocar a fechadura.
Faby animou-a, pediu-lhe calma e insistiu que ela já fizera o que podia ser feito: ir à polícia apresentar queixa. Se quisesse podia passar uns dias em sua casa, até se sentir mais segura. Emilie agradeceu a Faby, mas disse-lhe que não podia abandonar a casa senão o regresso seria mais difícil. A amiga encolheu os ombros em jeito de aceitação.
À tarde, Emilie foi trabalhar. Sentia um aperto no peito, uma angústia enorme. pressentia que outras coisas estranhas estavam por acontecer. E tanto assim era que, no final do dia, recebeu uma inesperada visita.

sábado, 28 de abril de 2012

VIII - Naquele dia...


Estava um lindo dia: luminoso, colorido, perfumado. Embora fosse um dia de trabalho, não podia deixar de apreciar a sua beleza. Sentia-se bem disposta.
Emilie chegou ao escritório um pouco ofegante e com rosas no rosto. A secretária serviu-lhe água e, mais tarde, depois de ter sido posta ao corrente dos assuntos de trabalho, levantou-se para ir tomar um café expresso. Adorava café! O seu aroma, o seu sabor, a sua cor.
Sentia-se bem por ter regressado ao trabalho. Como o trabalho se tinha acumulado, decidiu almoçar qualquer coisa no escritório. Não queria, nem podia perder tempo. Havia uma campanha de marketing que tinha de ser terminada. 
Desceu para ir comprar uma sande e uma bebida. Acabou por trazer também um crepe com chocolate.  A viagem foi curta e rápida como gostava. Deu de caras com um dos colegas quando saia do elevador. Disseram-se olá e cada um seguiu o seu caminho.
Emilie desabotoou o casaco do tailleur, tirou os sapatos e sentou-se o mais confortável que pôde na sua cadeira de apoio. Comeu rápido excepto o crepe. Ainda bebeu um café e retomou  o trabalho. Quando chegou à sala, já se encontrava lá a sua secretária à espera de indicações e com a correspondência para lhe entregar. Saiu batendo a porta de mansinho.
O correio não se acumulara, até porque agora quase ninguém escrevia. Viu alguns flyers, publicidade que deitou no lixo e, nos últimos envelopes, encontrou um mais pequeno com  o seu nome. Abriu-o e descobriu a chave da porta de entrada da sua casa. 
Desta vez sentiu-se ameaçada. Sentiu medo. Muito medo. Aquela chave era a chave da sua casa. Tinha de mandar trocar a fechadura com urgência. Já eram mistérios a mais. Este último tinha outras proporções. No fim do dia, Emilie foi falar com a sua secretária, mas esta não sabia como é que aquele envelope ali tinha chegado. Não sabia como tinha sido entregue. Emilie pediu-lhe segredo e foi-se embora.
No dia seguinte, mandou trocar a fechadura da porta.



quarta-feira, 25 de abril de 2012

VII - Naquele dia...


Que chave será esta? Só seu que pertence à história de Emilie, no entanto, não sei como. Alguma ideia? Querem ajudar-me a desvendar este mistério? É que Emilie já não sabe onde procurar, o que fazer, como agir...
Desde aquele dia que tudo mudou. Viu a sua privacidade invadida. E até agora tudo continua...

domingo, 22 de abril de 2012

VI - Naquele dia...


Emilie pediu alguns dias ao diretor, na verdade, duas semanas para descansar. Esse fora o argumento que utilizara. Fazia-o, sim, para procurar quem a andava  a incomodar sem mais nem menos e sem lhe ter sido dada autorização. Sim, que ela, Emilie, não gostava de falsas surpresas, de perseguições inusitadas! Não era uma mulher qualquer! Era uma executiva.
As duas semanas correram velozmente. Tirando um fim de semana que foi passar ao campo, com alguns amigos, ficou na cidade. Foi aos cafés e bares onde costumava ir, às confeitarias que adorava, foi às compras, ao cinema com a maior amiga de infância, andou de bicicleta e fez as suas caminhadas. Nada aconteceu e nada descobriu. Estava frustrada!
Num dia em que resolveu ir passear, deu por si a observar um casal de noivos que tiravam fotos à beira rio. Estavam fantasticamente felizes e sorriam para a objetiva, mudando de posição a cada indicação do fotógrafo. Lembrou-se do dia em que também fizera o mesmo com o seu Paulo. Como foi um dia feliz! Como foram felizes, porém essa felicidade duraria um instante apenas! Paulo foi trabalhar para Angola  e apanhou malária. Regressou direto para o Hospital Curry Cabral e mal o viu. Sucumbiu à doença e ela afundou-se na dor. No entanto, com o passar do tempo, reergueu-se dedicando-se à profissão. E gostava do que fazia.
Regressou ao trabalho depois das infrutíferas buscas, pronta a esquecer o caso. Se algo de estranho aparecesse ou lhe enviassem não a tirariam do sério, nem se sentiria ameaçada. Em absoluto.

sábado, 21 de abril de 2012

V - Naquele dia...


A semana passou veloz. Durante dois dias não houve bilhetes inesperados, prendas indesejadas, fotos tiradas sem autorização. O autor ou autora que invadira a sua privacidade parecia ter desaparecido. Ainda assim estaria atenta e de sobreaviso. Não havia certezas.
No dia seguinte, sábado, decidiu  fazer uma caminhada. Caminhou pelas ruas da cidade e depois decidiu-se a correr. Era tão bom sentir o sol e a brisa da manhã. A respiração tornou-se mais ofegante e desacelarou o passo. Tirou a garrafa de água e bebeu uns golos. Sentiu-se melhor e retomou a caminhada. Só parou na "ponte dos enamorados".
A ponte não tivera esse nome no início da sua utilização. Só anos mais tarde, alguém, um casal de apaixonados, colocara um cadeado com as iniciais de ambos e um coração. Deixava ali a prova material  do seu amor. Outros casais apaixonados acharam esta ideia fantástica. E o número de cadeados de diferentes formatos e tamanhos com as iniciais dos casais enamorados multiplicou-se. 
Emilie ficou ali algum tempo. Olhou o rio longamente,os raios do sol a espelharem-se nas águas,os cadeados. Entre eles encontrou um com as iniciais do seu nome. Mas como? Que fazia ali o seu nome?  Saiu dali furiosa e determinada a iniciar uma investigação. 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

IV - Naquele dia...


No dia seguinte, quando o despertador tocou, Emilie desligou-o e deixou-se ficar na cama. Hum! estava-se  tão bem! Espreguiçou-se e levantou-se a custo. Foi direta à casa de banho tomar o duche revigorante  que a ajudava a despertar. Tomou o pequeno almoço à pressa e saiu para ir para o escritório.
Apesar da chuva miudinha, foi de bicicleta. Era Agosto e a chuva nunca vinha para durar um dia inteiro. Chegou depressa, pois havia pouco trânsito. Subiu o elevador panorâmico e, à medida que subia, observou os transeuntes na rua. Como eram poucos, pareceu-lhe ver um rosto familiar. Mas como o elevador subia ligeiro, depressa todos se tornaram pequeninos como formigas.
Depois de ter trocado algumas palavras com os colegas, dirigiu-se para o seu escritório. Em cima da secretária, encontrou um envelope tamanho A4. Não havia remetente. Abriu-o e dele saíram fotos suas: na esplanada com os colegas, a andar de bicicleta, a andar na rua, a sorrir... Que fotogénica que sou!, gracejou. E deitou tudo no caixote do lixo.
Alguém a andava a seguir ou a brincar com ela; disso não havia dúvida. Que fazer? Não tinha como fazer uma denúncia na polícia, visto que não tinha dados suficientes. O melhor era não entrar em pânico e mergulhar no trabalho. Logo pensaria no que fazer.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

III - Naquele dia...


Às cinco horas da tarde, ainda havia sol, Emilie e alguns colegas juntaram-se para beber um copo no restaurante bar que havia em frente ao edifício onde trabalhavam. Todos fizeram os seus pedidos e, naquele dia, apeteceu-lhe beber vinho rosé. Emilie nunca fora grande apreciadora de vinho, mas naquela tarde tão linda, deixou-se levar pela tentação. Conversaram animadamente sobre saídas à noite, cinema, teatro, música. Os sorrisos expandiam-se como ondas. 
Às vinte, Emilie despediu-se do grupo, que parecia estar ali para ficar. Agora tinha pressa de chegar a casa e de ir ao ginásio. As aulas de yoga faziam-na sentir outra. Parecia que o seu corpo adquiria uma elasticidade e leveza que lhe eram desconhecidas. Mas o que a fazia ir para uma outra dimensão era o final da aula: o momento de relaxamento. Conseguia relaxar e visualizar tudo o que o mestre dizia. Vezes havia que parecia flutuar numa imensa bolha branca, azul, laranja. O espreguiçar final era divino. Era ali que se recompunha do stress do dia a dia. Foi a casa num ápice e trocou de roupa.
À saída do ginásio, depois de se ter despedido de todos, pois ali eram uma espécie de família, esbarraram contra ela no passeio. Quase que a iam atirando ao chão. Vociferou uns palavrões feios, arrependendo-se logo depois. Emilie, não percas a compostura; disse-se interiormente. Dirigiu-se à bicicleta e, quando se  preparava para começar a pedalar, reparou que duas rosas tinham sido gentilmente amarradas com um fio no volante. Mais um mistério, pensou. Logo depois meteu a mão no bolso e tirou o envelope que havia encontrado de manhã e do qual se esquecera completamente. Tirou um bilhete e leu as poucas palavras que nele se encontravam escritas. «Enchanté d' avoir fait votre conaissance». E só. Nada de assinatura. 
Olhou à sua volta para se certificar  de que não havia ninguém a segui-la. Não. A rua estava calma. Subiu  para a bicicleta e pedalou velozmente até casa.


sábado, 14 de abril de 2012

II - Naquele dia...


sexta-feira, 13 de abril de 2012

I - Naquele dia...


Acordar, naquele dia, fora simplesmente invulgar e inesperadamente inesperado. Ao contrário de outras manhãs, o despertador não tocou, porém teve tempo de se despachar para o trabalho. Enquanto estava no chuveiro, sob a água tépida, ouviu música na sala. Era uma música com o som de água de um riacho. Mas como podia tocar, se estava só? Dali não podia ligar a aparelhagem de som e não tinha dotes telepáticos! Limpou-se, vestiu-se, penteou-se, maquilhou-se e foi até à sala.
Quando aí chegou, a música tinha parado e nada assinalava qualquer mudança. Convenceu-se que tinha imaginado tudo, como num sonho. Tomou o pequeno almoço e saiu.
Como estava um lindo dia de sol e temperaturas amenas, optou por ir de bicicleta para o trabalho. Era muito comum na sua cidade. Executivos, jovens, belas mulheres usavam e abusavam deste meio de transporte. Era tão agradável. Podia observar-se melhor as pessoas, as ruas, os jardins, o rio. Era também agradável sentir a brisa no rosto. A sensação de liberdade e controlo era tão grande.
Émilie não demorou muito tempo a chegar ao emprego, até porque o seu lindo apartamento, num edifício do séc. XIX, ficava perto. Arrumou a sua bicicleta junto a outras que já lá estavam e entrou no edifício onde trabalhava. Na porta de entrada, um homem apressado esbarrou nela. Não se conheciam mas disseram-se bom dia. No interior, o edifício parecia vazio. O segurança também a cumprimentou. Ouvia o tacão dos seus sapatos no chão. Dirigiu-se ao elevador panorâmico. Como era agradável subi-lo e observar os transeuntes.
Num ato inconsciente, meteu a mão no bolso do casaco e encontrou um pequeno envelope. Quem o teria ali posto? Que diria? Só que o elevador chegou ao piso onde tinha de sair e dirigiu-se ao escritório.


terça-feira, 3 de abril de 2012


Foto de F Nando - Paris

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Aquela sempre fora a casa de família. Era uma casa apalaçada, com vitrais pintados à mão e com muitas divisões. A escadaria longa, por vezes ligeiramente em caracol, era o que mais a fascinava desde criança. Nesses tempos parecia-lhe difícil subi-la e descê-la. Aliás, estava proibida de fazê-lo.
Já mais crescida, nas noites em que havia baile e a casa se enchia de luzes, não lhe era permitido assistir. Era imperioso ir para a cama. Ia obedientemente.
Certa noite, aventurou-se a espreitar. Saiu da cama e desceu parte da escadaria e sentou-se num degrau de onde podia ver as senhoras ricamente vestidas e os homens de fato e gravata. Conversavam, riam, bebiam, dançavam.
Deixou-se ficar quieta, silenciosa a observar os brilhos da noite. Era tudo lindo, mágico, maravilhoso. Parecia uma das histórias que lia à noite. Feliz por poder assistir de longe, pensando no dia em que faria parte daqueles eventos, decidiu voltar ao quarto.
Foi então que algo aconteceu. Duas elegantes senhoras discutiam em voz bem audível, com gritos à mistura, acusações e impropérios. Incapazes de conseguirem separá-las, acabariam por rebolar no chão, puxando os cabelos e esbofeteando-se. Até que conseguiram finalmente separá-las completamente descompostas.
Depois dos ânimos mais calmos, um homem distinto, com um cachimbo na mão, falou primeiro com uma e depois com outra, mas não impediu as lágrimas de ambas. Passado algum tempo, saíram sem muitas explicações, com uma delas. A outra, abandonada, infeliz, chorava e foi levada para a biblioteca para a consolarem.
Que escândalo! Durante meses e meses foi o tema das conversas entre adultos. Anos mais tarde, ela soube toda a história...

sábado, 31 de março de 2012

Quand le chat n' est pas là...

Charles de Gaulle - Paris

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As ilustrações, os grafittis, os cartoons são bons contadores visuais de histórias, que retratam uma situação ou um momento, tantas vezes, político e/ou humorístico. Este foi um dos que foi fotografado num dos aeroportos de Paris. Andávamos às voltas quando demos por ele e o fotógrafo captou-o com a sua objectiva.

«Quand le chat n' est pas là...», dado tratar-se nas terras da Gália, talvez sugira que quando o chefe de estado não está no país, tudo pode acontecer. Sarkozy tem uma obsessão de estimação: reunir-se mês sim, mês não com a sua homóloga Angela Merkel. Mas o mesmo não se passa no país do Astérix. Organizam-se manifestações, fazem-se greves capazes de parar o país, perseguem-se os manifestantes...
O que quer dizer então o aforismo? "Quand le chat n' est pas lá... les souris dansent!» Bem, não dançarão dada a conjuntura, mas farão o seu melhor... para provocar o caos!

Já por terras lusas, não são os gatos que nos abandonam.... São os patrões e sabe-se lá quando é que o fazem, porque nunca há um comunicado ao povo de que vão ausentar-se para tratarem dos nossos interesses, o que não é de todo verdade! Todos sabemos! Os destinos são muitos e variados e mesmo que se desloquem ao Parlamento Europeu para pedir ajuda, condescendentemente, pouco ou nada conseguem! Apelidam-nos tão e só de «bom élève»! E para quê!? Nada muda para melhor, antes pelo contrário... Que interessa ser-se bom aluno, se a qualquer momento o "chumbo" está à vista.

No entanto, não podemos interpretar o aforismo francês com o seu equivalente em português: «Patrão fora, dia santo na loja.» Não me parece que por cá alguém faça tanta algazarra como por lá. Fica tudo muito quietinho, no seu local de trabalho, não vá perdê-lo de um momento para o outro. E não é nada bom fazer parte da percentagem de pessoas desempregadas.

Bem vistas as coisas, prefiro a astúcia dos ratos franceses...


sexta-feira, 30 de março de 2012

Jardins









Fotos: Fernando Cardoso, Paris 2011

sábado, 24 de março de 2012

Artista da imagem


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Fotos a preto e branco! Fotos de fotógrafo qualificado. Fotos de fotógrafo amador. Ambos apaixonados pela arte de retratar. Procura da luz pura, que não ofusca mas que ilumina. Procura da postura correta que é corrigida com pequenas indicações ou alguns movimentos até à composição humana estar perfeita. Escolha de paisagens naturais marinhas... Encontro com a vida agitada e apressada da cidade...
O fotógrafo é o artista da imagem. A sua arte traduz a sua filosofia de vida e o seu amor pelo belo. Munido da sua máquina fotográfica, que leva sempre onde quer que vá, capta o real. Esse real que nos cerca: os nossos familiares e amigos, um evento social, uma exposição, um cenário de paz ou de guerra. E fá-lo sem receio, pois a palavra censura não faz parte do seu rolo fotográfico (quando ainda existiam...), da sua objetiva atenta e perspicaz, da sua eterna busca da autenticidade.
Onde quer que os seus passos o conduzam, não deixa nunca de se deixar seduzir pelo ser humano e os seus comportamentos, os seus artefactos... Depois de um número significativo de instantâneos tirados avidamente, sabe bem revelá-los aos seus olhos de artista. É um momento de alquimia...
Antes as fotos eram reveladas em papel fotográfico e nenhum erro podia ser corrigido. Hoje, graças às novas tecnologias, basta tirar o cartão da máquina, inseri-lo no computador e transferir as fotografias para uma nova pasta. Pode-se optar por não revelar as fotos, eliminar imediatamente aquelas de que não se gosta e gravar as melhores e até partilhá-las. É tudo tão mais simples!...
Ainda somos do tempo, como se esta expressão fosse importante neste momento e neste texto escrito nas horas nocturnas, em que temos registos pessoais, sobretudo retratos nossos e de família, a preto e branco. Sempre gostei dos álbuns de fotografia, dos albúns de família... Não pelas pessoas, porquanto não as conhecia todas, mas pelo álbum em si. As capas de veludo ou de pele trabalhada eram a primeira porta para uma viagem ao passado, por vezes, distante. Eram uma porta mágica que, uma vez aberta, me conduzia a um verdadeiro tesouro de poses estudadas, sorrisos discretos nas senhoras, extremamente solares nas crianças. Cada fotografia contava uma história ou histórias. Quase sempre a preto e branco.
Gostava sobretudo de voltar as páginas porque entre elas havia uma folha fina a separá-las e nelas podia sentir o perfume dos lilases e das violetas que se encontravam em pequenos saquinhos, nas gavetas dos armários e cómodas. Era todo um mundo de rostos e histórias...


PS: A foto de elétrico é da autoria de F Nando

quinta-feira, 15 de março de 2012

FLORBELA



Descobri os escritos de Florbela Espanca ainda na minha adolescência. Insatisfeita com os poemas que constavam do manual, fui adquirindo a obra aos poucos. Anos mais tarde, algumas amigas ofereceram-me uma Fotobiografia da poetisa.
Escusado será dizer que devorei os livros e que li e reli a sua Fotobiografia. Naquela altura, as sua palavras exerciam um estranho fascínio no meu ser. Identificava-me com a sua tristeza, o seu desalento, a sua desasperança, a sua procura vã do amor verdadeiro, a incompreensão a que se sentia votada.
Quanto mais lia Florbela, descobria que o seu desalento era o meu. E o vazio cresceu. Cada vez mais... Até às várias tentativas de suicídio: de Florbela e minhas. Ela partiu. Eu, por mais que tentasse, fiquei.... para escrever banalidades...

segunda-feira, 12 de março de 2012

E tudo

Foto de F Nando

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Brindemos às palavras que ainda estão por vir...
Brindemos às palavras esmagadas sob a força dos cavalos a galopar na praia...
Brindemos aos livros já escritos, mas nunca lidos...
Brindemos às árvores que plantamos numa qualquer primavera...
Brindemos aos filhos que não tivemos ou não pudemos ter...
Brindemos ao império dos sentidos...
Brindemos ao ar, à terra, ao fogo e à água...
Brindemos à natureza...
Brindemos ébrios de vida, de amor, de sonho, de vontade de se ser outros...
Brindemos...
... e bebamos poesia, literatura, natureza, vida e amor e tudo.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Subitamente


Há muito que não me acontecia. Há muito tempo que este sentimento não me invadia e paralisava tão avassaladoramente. Num momento estava bem, noutro senti uma espécie de mau estar que me tirou o sorriso dos lábios e me roubou a sensação de conforto e segurança. Seguiu-se um vazio enorme e uma profunda sensação de perda. Tudo o que antes me parecera certo, torna-se uma sombra ameaçadora.
Não havia como partilhar esta dor que me habitara durante longos e sofridos anos. Pensava que tinha desaparecido. Enganara-me, como noutras ocasiões. Parecia que um paul me engolia. Via-me novamente entregue a pensamentos sombrios. Subitamente... e sem razão aparente. Sentia-me inevitavelmente só.