terça-feira, 15 de maio de 2012

XIII - Naquele dia...



Jean foi ter com Emilie ao escritório depois da reunião com as equipas de criativos. Reviram algumas das propostas de publicidade e marketing. Estava tudo correto. Agora era só deixar que o trabalho fosse desenvolvido antes do prazo final para nova revisão. 
Emilie não encontrou nada de estranho em Jean. Não tinha por que desconfiar dele. Era seu chefe e também seu amigo há alguns anos.
E os dias passaram; e as semanas passaram; e os meses passaram. E o dia de aniversário de Emilie chegou. Convidou o diretor do seu escritório, os seus colegas, os seus amigos e alguns familiares. Fez reservas num dos melhores restaurantes da cidade. 
Na manhã do dia do seu aniversário, foi recebida com uma festa surpresa. Estava feliz. Muito feliz. Em breve iria de férias com Faby. Já faltava pouco. Nada a perturbaria. Quando saiu, ainda foi passear.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

XII - Naquele dia...


Faby deixou-se facilmente convencer pela amiga. Claro que iria com ela. Todavia não poderia ser nas datas que Emilie queria, por causa do seu trabalho. Só poderiam ir na segunda quinzena de Julho. Emilie ficou um pouco triste por não poder festejar  o seu aniversário na Itália.
-- Fazemos a festa cá com os nossos amigos. Depois vamos viajar e aproveitar ao máximo.
Emilie concordou porque não havia outra solução. Estava ansiosa que o tempo passasse. Gostava imenso de viajar e já tinha visitado vários países, quer a trabalho, quer de férias.
Um dia depois, soube pelo diretor geral da empresa que tinha sido ele a enviar-lhe a passagem como prémio de bom desempenho. Ela agradeceu e agora,sem saber bem porquê, começou a desconfiar dele.
Podia ter posto as rosas na sua bicicleta; podia ter acesso fácil no escritório à sua chave de casa; sabia o percurso que ela fazia quando caminhava ou corria e assim ter escrito a inicial do seu nome num cadeado. Além disso, tinham ficado muito próximos numa altura em que faziam viagem de negócios juntos. Depois tinham-se afastado.
Por agora, ia ficar atenta ao que o Jean fazia, isto é, como se comportava com ela. Era só estar atenta e juntar as peças do puzzle.

terça-feira, 8 de maio de 2012

XI - Naquele dia...


Os negócios iam bem na empresa. Aliás muito bem. Tinha cada vez mais parceiros de negócios e diferentes oportunidades com outros continentes desde que iniciara a parceria com o ex-marido. 
Emilie vivia cada vez mais num corrupio em reuniões e mais reuniões. Todos na empresa davam o seu melhor por estarem motivados.
Durante algum tempo, não houve mistérios e, por isso, Emilie esqueceu-se por completo desses episódios desagradáveis. Agora, vivia em paz e feliz. Mas, certo dia, encontrou na sua caixa do correio uma carta diferente. Quando a abriu, já em casa, viu que se tratava de uma passagem de avião em seu nome. Ficou estupefacta. Mais uma vez não havia remetente. Mais uma loucura...
E se aproveitasse? Não podia. Não podia ausentar-se de maneira nenhuma. Como assim, não podia? Claro que podia! Fosse lá quem fosse que a queria mandar para várias cidades de Itália, ela iria. Só não iria sozinha. Iria com Faby. Se ela não pudesse pagar a passagem, ela oferecê-la-ia à amiga. Quando iriam? Nada melhor do que por altura do seu aniversário. Que prenda fabulosa! Ela adorava viajar! Além disso, Veneza esperava-as. Dali a mais ou menos dois meses.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

X - Naquele dia...


Emilie nem queria acreditar no que via no seu escritório: o seu ex-marido, que depois do divórcio nunca mais ali tinha ido. Continuava atlético, elegante e muito bem vestido. Ainda assim, ele não a abalaria, nem entraria em discussões. Não havia filhos deste casamento. Emilie bem que o tentara convencê-lo do contrário, porém não conseguira.
-- Bom dia, Emilie. -- disse Eduardo.
-- O que fazes aqui? Não tens nada de vir aqui.
-- Não sejas assim. Se aqui vim era porque precisava de te falar com urgência.
-- Já falamos quando devíamos, Eduardo.
-- Trago-te uma proposta irrecusável.É uma proposta de negócios. A tua empresa vai faturar muito.
-- Imagino... -- respondeu Emilie com desdém.
-- Como és a diretora chefe tenho mesmo de falar contigo. Esqueçamos o rancor por uns instantes. Em nome deste negócio. Em nome da tua empresa onde gostas tanto de trabalhar.
Emilie calou-se por breves instantes. De seguida, pegou no telefone chamou a secretária, que vinha munida de um "lap-top".
Quando o ligou, surgiram no ecrã duas palavras garrafais: AMO-TE ÉMILIE. Perante a estupefação de Louise, Émilie pegou no "lap-top" e leu. E virou-se para Eduardo mostrando-lho:
-- Foi isto que vieste cá fazer? Para fazer troça de mim e dos sentimentos que senti por ti? És anedótico. 
Eduardo só conseguiu rir. Não ria de Emilie, mas do inusitado da situação.
-- Isso ri-te. Ri-te muito e engasga-te com o teu riso!
-- Émilie -- começou Eduardo -- não fui eu. Não fui. Acredita. Vim aqui a trabalho. Eu repito para ouvires bem: VIM A TRABALHO. A tua empresa é das melhores no âmbito da publicidade e a minha empresa precisa de uma equipa de design e marketing para fazermos o lançamento do novo automóvel Roland Garros, da Citroen. O nosso amor já morreu há muito. Deixa-te de egocentrismos.
-- Tens graça, olha que tens. Toma -- disse passando-lhe o "lap-top" -- apaga isso, por favor.
Eduardo apagou as duas palavras e o ecrã voltou ao normal.
A partir dali a reunião correu bem. Eduardo obteve o que queria. Émilie ganhou, sem esforço, um novo negócio. 
Chegou ao fim do dia cansada e feliz. Até se esqueceu dos momentos desagradáveis. Tinha-se exaltado com Eduardo, mas depois soubera recuar e aceitar que ele tinha razão.



quinta-feira, 3 de maio de 2012

ViNtE aNoS



Tinha uns olhos singulares: azuis mar céu sonho. Tinha uma boca com lábios finos: rosados e de sorriso fácil e carinhoso. Tinha umas mãos másculas: fortes como a terra, generosas e tantas vezes meigas. Tinha uma tez clara: ebúrnea e imaculada.
Emigrou. Lograda a primeira tentativa, tentou novamente vencer os Pirinéus e conseguiu. Iniciou nova vida fora da pátria. Antes da segunda tentativa casou. Aí nasceram os filhos: amava-os de paixão.
Gostava de jardins: gostava de flores: amava as rosas. Gostava de estar perto de amigos e familiares: nos piqueniques, nas festas de aniversário, nos jantares.
Em vinte anos nada foi esquecido. Nada. Dia dois de maio é o mês do meu pai. O dia em que a polícia descobriu o corpo amarrado numa raiz de árvore, dentro da água de um rio. Nunca mais fui/fomos os mesmos.

Je t' aime pápá. Toujours!

segunda-feira, 30 de abril de 2012

IX - Naquele dia...


No dia seguinte foi à polícia apresentar queixa "contra desconhecidos", visto não haver um suspeito. O agente que a atendeu colocou-lhe questões a que Emilie respondeu com assertividade. Houve, no entanto, um momento em que o agente sorriu e ela achou que troçava dela, mas não se deu por vencida. Descreveu todos os factos insólitos e depois assinou a queixa. Saiu dizendo: "Bom dia" e pensando que dali não haveria resultados.
Já na rua ligou à sua amiga Faby, a sua amiga de infância, para se encontrarem numa das muitas confeitarias com esplanada. O sol brilhava, portanto o melhor era aproveitar para desfrutar o momento. Quando lá chegou, Faby já estava à sua espera. Sentou-se. Pediram café e um croissant com doce de ovos.
Emilie desabafou então com a sua maior amiga. Contou-lhe tudo. Contou-lhe do medo que sentia por ter recebido uma cópia da chave da sua casa e o que logo mandara trocar a fechadura.
Faby animou-a, pediu-lhe calma e insistiu que ela já fizera o que podia ser feito: ir à polícia apresentar queixa. Se quisesse podia passar uns dias em sua casa, até se sentir mais segura. Emilie agradeceu a Faby, mas disse-lhe que não podia abandonar a casa senão o regresso seria mais difícil. A amiga encolheu os ombros em jeito de aceitação.
À tarde, Emilie foi trabalhar. Sentia um aperto no peito, uma angústia enorme. pressentia que outras coisas estranhas estavam por acontecer. E tanto assim era que, no final do dia, recebeu uma inesperada visita.

sábado, 28 de abril de 2012

VIII - Naquele dia...


Estava um lindo dia: luminoso, colorido, perfumado. Embora fosse um dia de trabalho, não podia deixar de apreciar a sua beleza. Sentia-se bem disposta.
Emilie chegou ao escritório um pouco ofegante e com rosas no rosto. A secretária serviu-lhe água e, mais tarde, depois de ter sido posta ao corrente dos assuntos de trabalho, levantou-se para ir tomar um café expresso. Adorava café! O seu aroma, o seu sabor, a sua cor.
Sentia-se bem por ter regressado ao trabalho. Como o trabalho se tinha acumulado, decidiu almoçar qualquer coisa no escritório. Não queria, nem podia perder tempo. Havia uma campanha de marketing que tinha de ser terminada. 
Desceu para ir comprar uma sande e uma bebida. Acabou por trazer também um crepe com chocolate.  A viagem foi curta e rápida como gostava. Deu de caras com um dos colegas quando saia do elevador. Disseram-se olá e cada um seguiu o seu caminho.
Emilie desabotoou o casaco do tailleur, tirou os sapatos e sentou-se o mais confortável que pôde na sua cadeira de apoio. Comeu rápido excepto o crepe. Ainda bebeu um café e retomou  o trabalho. Quando chegou à sala, já se encontrava lá a sua secretária à espera de indicações e com a correspondência para lhe entregar. Saiu batendo a porta de mansinho.
O correio não se acumulara, até porque agora quase ninguém escrevia. Viu alguns flyers, publicidade que deitou no lixo e, nos últimos envelopes, encontrou um mais pequeno com  o seu nome. Abriu-o e descobriu a chave da porta de entrada da sua casa. 
Desta vez sentiu-se ameaçada. Sentiu medo. Muito medo. Aquela chave era a chave da sua casa. Tinha de mandar trocar a fechadura com urgência. Já eram mistérios a mais. Este último tinha outras proporções. No fim do dia, Emilie foi falar com a sua secretária, mas esta não sabia como é que aquele envelope ali tinha chegado. Não sabia como tinha sido entregue. Emilie pediu-lhe segredo e foi-se embora.
No dia seguinte, mandou trocar a fechadura da porta.