terça-feira, 25 de setembro de 2012

XXV Naquele dia...


FNando

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Fim de semana! Que bom! - pensou Emilie. Espreguiçou-se na cama e deixou-se ficar mais um tempinho no calor dos lençois. Depois levantou-se e foi direta para o duche. Sentiu a água a escorrer pelo corpo abaixo. Hum, que delícia! Que prazer!
Passado meia hora, já estava na rua para comprar uma baguete fresca e crocante e croissants de manteiga de que tanto gostava. Entrou na padaria onde havia pouca gente, fez as compras e saiu. Já em casa, fez café e enquanto este não ficava pronto, pôs a mesa.
Emilie bebeu uma chávena de café com leite, comeu pão com manteiga, bebeu sumo de laranja natural e ainda comeu um croissant com nutella. Gulosa, pensou. Que maravilhoso pequeno almoço! Enquanto arrumava a loiça, o telemóvel tocou. Era a Sofia, a colega de trabalho, que a convidava para ir à praia. Aceitou o convite pois o sol parecia uma tentação.
Encontraram-se na margem direita do Sena. Sofia já tinha reservado um chapéu de sol e espreguiçadeiras. Aquela praia artificial com areia, bares, atividades lúdicas e uma piscina agradava a todos os parisienses e seus visitantes. Durante mais ou menos mês e meio todos podiam desfrutar daquele espaço.
-- Olá, Sofia. Desculpa ter-me atrasado.
-- Não atrasaste nada. - disse Sofia - Daqui a pouco um amigo meu junta-se a nós. Importas-te?
-- Claro que não. Está um dia tão bonito.
-- É verdade. - Confirmou Sofia. - Sabe tão bem estar aqui, mesmo com areia artificial, com palmeiras e piscina  frente ao Sena.
-- Somos umas privilegiadas. - Asseverou Emilie.
Por volta das três da tarde apareceu o amigo de Sofia. Era um homem jovem e de olhos azuis, simpático e atencioso. Sofia apresentou-os, porém os dois já se conheciam desde criança. Paulo e Emilie tinham andado juntos na escola em Biarritz onde tinham nascido e morado e na Sorbonne, em Paris. Que alegria reencontrarem-se. Comemoraram bebendo cerveja bem gelada e dando mergulhos na piscina. 
O dia terminou com os três a comerem numa pizzaria. A noite de sábado prolongou-se nas ruas de um dos mais famosos bairros de Paris, o Marais. As suas ruas estavam animadas, os bares estavam cheios e todos pareciam conhecer-se! Havia muitos rostos conhecidos e até grupos de amigos. A noite só terminou de manhã!

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

XXIV Naquele dia...

Paris
F Nando
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Emilie chegou a casa exausta e apreensiva. Dera as rosas amarelas à secretária. Ainda tinha o envelope fechado e receava o que ia encontrar. É que ultimamente muitos acontecimentos inusitados lhe tinham acontecido. Não saber o autor de tamanha ousadia, fazia-a sentir-se incomodada e fula. Que fizera para merecer a atenção de um lunático ou quem sabe de alguém da pior espécie?
Olhou atentamente o envelope que não tinha remetente, só destinatária. O nome dela estava completo e a caligrafia era perfeita. Abriu-o de uma vez só e no interior encontrou então uma missiva breve. "Emilie, procura um tesouro na tua bicicleta." Deambulou pela sala até se decidir a seguir a indicação. Desceu e foi ver que tesouro era aquele. Presa ao volante encontrou uma caixa. Tirou-a e abriu-a logo. Tratava-se do cadeado dos enamorados que tinha visto na ponte, com a inicial do seu nome.
Olhou em volta como que à espera que alguém a observasse, porém não viu nada de estranho. Regressou ao seu apartamento e ficou a olhar para o cadeado. Não era um cadeado qualquer. Não era aquele que tinha visto na ponte com a sua inicial. Era uma autêntica jóia. Era um cadeado de prata e strass svarowski. Ficou a observá-lo e a trocá-lo de mãos à procura de um sinal qualquer. Onde estava o cadeado de bronze, com a letra do seu nome?
Continuava boiando, isto é, sem saber se havia um ou dois loucos a pô-la de sobreaviso: quereriam ambos molestá-la ou conquistá-la? Todas as hipóteses eram possíveis. No entanto, não queria entrar em histerias. Os mistérios resolver-se-iam a seu tempo. Nada recearia! Até ali ninguém a tinha abordado ou ameaçado. E as prendas que vinha recebendo eram tudo menos ameaçadoras. 
Como Faby lhe tinha dito, até podia ser alguém conhecido que gostava dela e que queria surpreendê-la. Todas as hipóteses estavam abertas...

quinta-feira, 12 de julho de 2012

XXIII Naquele dia...


F Nando

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Na manhã seguinte, a caminho do trabalho parou numa patisserie, bebeu um café e deliciou-se com alguns macarons. Eram estaladiços, leves, doces e desfaziam-se na boca. Pediu â empregada que colocasse uma dezena numa caixa para levar. Pagou e saiu.
Entrou no carro e acomodou a caixa para que não chegassem todos partidos. Saiu sem pressa pois ainda tinha muito tempo. Tivera um sono desassossegado, povoado de pesadelos, fazendo-a acordar em sobressalto. Há quanto tempo isso não lhe acontecia! 
Assim que chegou ao escritório, colocou a caixa em cima da sua secretária e a mala em cima da cadeira. Depois encaminhou-se para a sala de reuniões porquanto tinha convocado uma reunião de equipa. Tinham ganho mais um negócio de design importante. Uma famosa empresa de móveis nacional queria uma linha de móveis modernos, confortáveis e com linhas arrojadas.
Quando entrou já lá estava a sua secretária. Os elementos da equipa foram chegando sem grandes atrasos. A reunião demorou toda a manhã e prolongou-se para a tarde. Mas os resultados foram bastante satisfatórios. Os designers ocupar-se-iam dos esboços e dos materiais a usar, os publicitários da promoção desse produto e Emilie das diferentes reuniões com o cliente. A estratégia de trabalho e intervenção estava delineada.
Emilie foi a última a sair da sala de reuniões. Estava satisfeita. Cada vez gostava mais do seu trabalho. Era bom, tão bom trabalhar no que se gostava. Seguiu para o seu escritório a pensar nos macarons. Hoje sentia-se tal qual Marie Antoinette, que os mandara criar, pois ia deliciar-se sem pressa com esses bolinhos coloridos. Que doce tentação!
Entrou no escritório com um sorriso nos lábios que logo esmoreceu. Os seus macarons tinham desaparecido, em vez disso havia um grande bouquet de rosas amarelas. Ao lado do ramo, um bilhete: Tive de os levar comigo. Pardon. Ia atirar com o ramo ao lixo quando um bilhete caiu no chão. Apanhou-o, mas ficou indecisa se deveria lê-lo ou não.


quarta-feira, 4 de julho de 2012

XXII Naquele dia...


F Nando

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Naquela sábado à tarde Emilie decidiu passear. Melhor dizendo, fundir-se com a turba de turistas que visitavam o Louvre. Conhecia bem todas as alas do palácio. Visitara-as todas em momentos como aquele. Em momentos em que se sentia vazia, só, angustiada. Escolheu a galeria de Napoleão. Aquela era uma bela ala. Gostava do mobiliário, das tapeçarias, das porcelanas, dos dosseis, das diferentes salas. Ao visitar esta ala pensou em Napoleon e Faby. Deveriam estar felizes e ela sentia-se felizes por eles. Um dia visitá-los-iam.
Depois de muito andar no majestoso Louvre, sentiu-se cansada. Foi até à cafetaria e comprou uma fatia de tarte de mirtilo e um café. Como não havia lugar nas mesas, esperou um pouco. Logo depois sentou-se, comeu e repousou. Estava pronta para continuar.
Não estava muito longe da ponte onde vira o seu nome num cadeado. Então, decidiu caminhar até lá e sentir o ar da rua. Só que o cadeado já não estava lá. "Que teria acontecido?" - pensou. "Será que tinha sonhado?" - questionou-se. Na vida de Emilie não havia nada de misterioso ou assim parecia, porque nos últimos tempos estava mais do que rodeada em mistérios!

domingo, 1 de julho de 2012

XXI Naquele dia...


F Nando

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Emilie retomou a sua rotina. No regresso ao trabalho, tudo estava na mesma. Os colegas mostraram-se curiosos em relação à viagem a Itália, porém a conversa ficou adiada para o almoço. E que almoço divertido foi aquele!
Certa noite, já em casa esticada no sofá a ver televisão, Faby telefonou. Devia ter novidades, pois só costumava ligar quando tinha algo novo para dizer. Ficou surpreendida com o que ela lhe contou. Depois do regresso de Itália, Napoleon tinha vindo passar uns tempos em casa dela. Continuavam a sentir-se atraídos um pelo outro, a bem da verdade sentiam mais do que atração, porque ele lhe tinha proposto para viverem juntos em Itália. 
- Tens a certeza? - perguntou Emilie. - Não estás a arriscar de mais?
- Tenho a certeza, amiga. 
- Pode ser um risco muito grande.
- Tudo é um risco e o que eu quero é não me arrepender um dia por ter tido receio de não ter vivido uma paixão.
- E o emprego? O apartamento? Os teus pais?
- Se um dia regressar arranjarei outro. Alugo o apartamento. Os meus pais querem a minha felicidade. E tu, Emilie, que me desejas?
- Também desejo que sejas feliz. Se é isso que queres, vai. 
- Assim tens uma boa desculpa para me visitares.
- Não precisas de me convencer, Faby. Quando vais?
- Amanhã!
- Já? Isso é que é pressa.
- Não vale a pena adiar o inevitável.
- Claro. Boa viagem, amiga. Dá notícias.
- Obrigada. Claro que darei notícias!
E Faby desligou. Emilie estava surpreendidíssima. Nunca imaginara que a amiga tinha tomado uma decisão tão impensada. Mas Faby era mesmo assim: mais coração que razão. Já ela era o contrário. 
Uma tristeza inesperada tomou conta dela, desligou o televisor e foi para a cama. No dia seguinte já não sentiria essa sensação.


terça-feira, 26 de junho de 2012

XX Naquele dia...

F Nando

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 O dia de regresso chegou. Emilie ansiava regressar a casa, já Faby não sentia vontade nenhuma.  Pela sua expressão e postura via-se que estava contrariada.  Emilie meteu conversa.
-- Como foi ontem?
-- Um sonho de tarde e de noite. Andámos de lancha no mar Adriádito, ao fim do dia levou-me a um belíssimo restaurante e depois fomos para o apartamento dele que dava para um dos canais. Era lindo.
-- Como foste encontrar um italiano tão charmoso?
-- Nem eu sei. Pensei que eram coisas que só aconteciam em filmes ou romances. Estou estupefacta.
-- Eu também estou, Faby, e não foi comigo.
-- Nunca te aconteceu?
-- Não- Pelo menos não assim.
-- Sério? Quando Émilie?
-- Há alguns anos em Barcelona. Conheci um pintor enquanto visitava a Fundação Joan Miró. Mas só fomos comer umas tapas e não passou disso.
-- Que pena!
-- Que pena que nada. Na altura era comprometida e não ia trair o meu marido. Não podia.
-- Fizeste mal, Emilie. Na altura já o teu marido te traía com umas e outras.
-- Não sou de dar o troco na mesma moeda. Conta-me mais do Napoleon.
-- Tive mais uma noite inesquecível! Ele é um amante meigo, carinhoso, intrigante e insaciável. Chegou uma altura em que já não podia mais! -- confidenciou ao ouvido de Emilie. E Emilie riu-se.
-- Bem amiga, podes deixar de procurar alimento por uns tempos.
-- Qual quê? Achas que sou de ferro como tu? 
-- E quem disse que eu era, Faby?
-- Disfarças muito mal, amiga. Digo-te que gostava que fosses diferente e aproveitasses mais a vida.
-- Isso não podes dizer. Viajo, janto fora com amigos e colegas de trabalho, vou a festas com amigos, vou a eventos sociais, exposições, cinema, teatro,
-- Estou a falar de outro divertimento.
-- Não quero complicações, Faby. Já tive o suficiente!
-- E a pessoa que te põe flores na bicicleta, grava as tua inicias num cadeado numa das pontes e não sei que mais?
-- Não interessa.
Entretanto o avião fez-se à pista e a conversa ficou por ali. Depois de levantarem a bagagem foram para o ponto dos táxis, seguindo cada uma rumo a casa.

terça-feira, 12 de junho de 2012

XIX Naquele dia...

Caffè Florian


Emilie sentia-se muito bem e muito feliz. Estava a adorar a tarde cultural. Nem se importava de ter ido sozinha ver os monumentos. Estava um fim de tarde encantador. Depois de vaguear pelas ruelas e praças de Veneza, regressou ao Caffè Florian não só para comer qualquer coisa, mas também por ser o local de encontro com Faby. Quando o garçon apareceu pediu um capuchino e uma minitarte com recheio de fambroesas e guarnições de chantilly.
Respirou fundo e observou as pessoas que se iam, os pombos e a Praça de São Marcos. Que bom estar ali, naquele café! Que privilégio estar num lugar majestoso e famoso. Por ali tinham passado Lord Byron, Charles Dickens, Marcel Proust, entre outros. Tanta gente famosa num lugar lindo. 
Faby tardava. Apetecia-lhe descansar antes do jantar. Decidiu ir até ao hotel que não era muito longe dali. Tomou um duche e deitou-se um pouco. Acabou por adormecer profundamente. Quando acordou, era já noite e estava às escuras. Acendeu as luzes e viu as horas. Eram nove da noite. Tão tarde, pensou. E nem sinal de Faby! Ligou-lhe mas a sua chamada foi parar à caixa das mensagens. Deve estar bem, pensou. Vem quando quiser e lhe apetecer.
Decidiu jantar no hotel. Comeu e logo depois subiu para o quarto. Ligou a televisão e fez um zaping pelos canais mas nenhum lhe interessou. Optou por ler uma boa narrativa de viagens. Adormeceu com o livro no colo.
Acordou às oito da manhã quando Faby lhe tirou o livro das mãos assustando-a.
-- Não te assustes. Sou eu, a Faby.
-- Que horas são?
-- Oito. -- respondeu Faby.
-- Dormiste fora?
Faby anuiu com a cabeça.
-- Com Napoleon?
-- Si.
-- Então a noite foi boa! Conta! Conta!
-- Foi uma noite espetacular. Aquele Napoleon é...
-- É!? Continua, Faby.
-- É um amante fantástico! Meigo, ardente, apaixonado, incansável.
-- Foi tão bom assim?
-- Para lá de bom! Foi excelente! Um verdadeiro deus italiano!
-- Uau! Quem diria... 
-- Acredita. Ainda nem estou em mim, Emilie.
-- Achas que hoje estás apta para ir passear?
-- Olha bem para mim, achas que sim? Não vou. Além disso, o Napoleon ficou de me vir buscar à uma da tarde. Vou dormir um pouco.
-- Sua marota! Descansa. Não te esqueças que saímos daqui amanhã cedo. Vamos apanhar o avião a Milão.
-- Ok, amiga. Desculpa lá.
-- Gosto de te ver feliz, Faby. Diverte-te. E tem cuidado.
Faby nem ouviu as últimas palavras de Emilie pois adormecera.