domingo, 11 de novembro de 2012

XXI Naquele dia...


Foto de FNando

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Quando Susy e Paulo entraram na ante-sala ouviram várias vozes. Dirigiram-se, então, para a salinha da avó onde Susy foi apresentada a um casal septagenário muito simpático e a mais dois, um pouco mais jovens, que elogiaram a beleza e graciosidade de Susy, que corou ao ouvi-los Enquanto conversavam com os amigos da avó, uma empregada serviu água lisa a Susy e um pernod ricard a Paulo. A avó de Paulo não podia estar mais feliz, pois reunia por um lado os amigos e, por outro, o neto e a namorada. Da forma como lhe fora a presentada, parecia oficial. Nada a deixava mais orgulhosa. Queria que o neto assentasse antes de ela partir para o outro lado.
Estavam quase a ir para a sala de jantar quando apareceu Émilie e mais dois casais, amigos desta e da avó Laura. As apresentações foram breves, porquanto todos estivessem com fome. Passaram então para a sala das refeições onde os lugares estavam marcados. Do lado direito da avó Laura estava o neto, do lado esquerdo estava Émilie. Susy estava sentada em frente ao namorado e não lado a lado como acontecia com os outros casais.
Como entrada comeram terrine de canard et salade verte, com vinaigrette, seguiu-se saumon à la crème fraiche, frites et endives au four, de seguida steak au poivre et légumes cuits. Como bebidas havia água lisa e com gás, vinho tinto e branco da região de Bordéus, assim como sumos. 
O almoço decorreu bem e a conversa generalizou-se antes da chegada das sobremesas e da tábua de queijos e compotas. De entre as sobremesas, alguns comeram creme caramel, crême brulê, fondant de vanille et fraises, macarons; outros preferiram  baguette e pain de campagne para se deliciarem com os queijos e as compotas. A variedade também era por demais tentadora: brie, roquefort, fromage frais, chèvre, camembert, bresse bleu.Em suma, o almoço tinha sido um verdadeiro e lauto banquete. A avô Laura sempre recebera bem, assim como toda a sua família!
Depois os homens foram para a sala de jogos fumar e beber digestivos. Alguns atreveram-se mesmo a jogar uma partida de bilhar. As senhoras decidiram-se a dar um passeio pelos jardins circundantes à casa. Paulo e Susy, Émilie e Pascal, um primo de Paulo, foram ver os cavalos e escolher os equídeos para montarem na manhã seguinte. A conversa foi a apresentação dos que não se conheciam e assuntos de caráter geral. A tarde passou depressa. 
O grupo voltou a reunir-se para o lanche, seguindo-se um mini concerto. A avó Laura tocava piano e o neto juntava-se a ela para alguns duetos. Depois foi a vez de dançarem um pouco algumas danças de salão. Susy não sabia dançar, mas Paulo dançou um tango com a sua amiga de infância. No fim todos bateram palmas. Susy fê-lo contrariada porque sentiu uma certa cumplicidade entre o  namorado e Émilie.
Naquele dia o dia terminou com o jantar, a música e os jogos.

XX Naquele dia...



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A avó Laura foi para a quinta com duas amigas. Iam muito animadas e, por vezes, pediam opinião ao motorista sobre o que fazer no fim-de-semana. Quando chegaram à quinta, o mordomo e as três criadas já estavam à sua espera.
Uma delas instalou a avó na sua suite e as outras duas instalaram as amigas da avó Laura nos quartos de hóspedes. Tomaram um duche antes de descerem para o rés-do-chão, instalando-se na biblioteca que era simultaneamente a salinha de estar e de receber as visitas.
Uma hora antes do almoço, chegaram Paulo e a sua namorada Susy. Por muito que o namorado tentasse pô-la à vontade para conhecer a avó e as amigas, Susy sentia-se apreensiva. Como seria recebida? Era uma jovem sem berço. Eram receios infundados.
Paulo entrou na casa de mão dada com Susy e seguiu as vozes que o conduziram à salinha predileta da avó. Susy foi-lhe apresentada assim como às suas amigas. No entanto, Susy não se sentiu à vontade. Pelo contrário, sentiu-se observada.
- Bem vinda, minha querida. Fizeram boa viagem? - perguntou a avó.
- Obrigada. Sim, fizemos boa viagem. A sua casa é linda e enorme!- disse Susy.
- Herança de meus avós, querida.
- Como disse que se chamava? - perguntaram Magalie e Sílvie, as amigas da avó Laura.
- Susy.
- Inacreditável! Os nossos nomes rimam: Magalie, Silvie e Susy. - disse Magalie, sorrindo.
- Ainda falta um pouco para o almoço - explicou a avó Laura - Paulo, leva Susy a ver os jardins e o lago. Não se afastem muito.
- Com certeza avó. - Concordou Paulo dando-lhe um beijo na testa. - Até já minhas senhorass.
Naquele dia, não choveria. O sol teimava em aparecer timidamente. Paulo e Susy aproveitaram aqueles momentos a sós para conhecer os jardins, o lago, os pomares e, claro, para namorar.
- Achas que a tua avó gostou de mim?
- Por que não deveria gostar? És encantadora e linda e meiga e doce...
- E que mais? Diz!
- E amo-te!
- O quê? Acho que não ouvi bem!
- E amo-te.
-Também te amo muito! Ah, Paulo, meu amor, quanta felicidade. Estou sem palavras.
- Não são necessárias... - disse beijando-a doce e longamente e abraçando-a com carinho.
No caminho de regresso ainda passaram pelas cocheiras. Um dos cavalos pareceu simpatizar com Susy.
- Como se chama?
- Crinas ao Vento.
- Achas que poderei montá-lo logo ou amanhã?
- Tem de ser um cavalo mais dócil para te habituares. Esse é arisco!
- Está bem! Não posso arriscar muito por causa da próxima passagem de modelos.
- Isso mesmo, menina sensata! Vamos voltar?
- Claro, "mon amour"!
- Os amigos das quintas vizinhas da minha avó já devem ter chegado. Antes que bebam aperitivos demais, é melhor aparecermos.

sábado, 3 de novembro de 2012

XXIX Naquele dia...


Foto de FNando

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Paulo pegou no telemóvel e saiu da divisão para atender. Era Susy, a sua mais recente namorada. Uma modelo da Casa Chanel.
- Olá, Susy, minha querida, onde estás?
- Como estás? Liguei para o teu escritório e disseram-me que estavas doente.
- Não é nada de grave. É uma simples gripe. Não te preocupes, "chérie".
- Simples? - repetiu Susy.- Ficares em casa não é nada bom. Tu és dos que nunca faltam.
- É verdade. Acordei febril e mandei chamar o médico.
- Que te mandou ficar em casa a repousar.
- Isso mesmo, amor.
- Ótimo. Aprovo a cem por cento. Nada de ir à rua, à varanda, ao jardim.
- Que me querias quando telefonaste para o escritório?
- Estou a fotografar na Torre de Montparnasse e como trabalhas aqui liguei para te convidar para almoçarmos no restaurante.
- Que pena não poder, minha querida. 
- Não faz mal Paulo, fica para quando ficares bom. Desafio aceite?
- Claro. Mas nada de viagens nos próximos tempos!
- Amor, isso não depende de mim, mas da minha profissão. A juventude passa depressa.
- És linda e hás de sempre sê-lo.
- Fofo! Bem,tenho de regressar à sessão fotográfica. Beijinhos.
- Beijinhos, Susy. Fica bem.
- Melhora depressa.
- Com uns beijinhos e miminhos teus melhoraria com certteza.
- Não me tentes. Tchau.
- Tchau. - repetiu Paulo. 
Regressou à salinha onde a avó estava e fizeram alguns planos para o fim-de-semana prolongado. Iriam para a Quinta do Luxemburgo onde recebiam os amigos. Havia os caçadores, homens e mulheres; os jogadores de ténis, os homens mais jovens; as senhoras ficavam dentro de portas a jogar gamão.
Paulo pediu permissão para convidar Susy e a avó Laura convidou Emilie. O neto queria apresentar a namorada à avó. Coisa rara que talvez quisesse dizer que a relação era séria.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

XXVIII Naquele dia...


Foto FNando

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Emilie passou a ir com frequência a casa da avó Laura e do Paulo. Essas visitas aconteciam sobretudo ao fim-de-semana. Emilie também os recebia no seu apartamento. Também saíam à noite. A avó Laura adorava teatro, ópera e bailado. Quando Emilie se ausentava a trabalho, a avó Laura sentia por demais a sua falta. Habituara-se a tê-la por perto. Era como uma neta.
Certo dia ao serão, a avó Laura, que bebia o seu chá e comia bolachinhas de manteiga, dirigiu-se ao neto:
-- Paulo, já pensaste em conhecer uma bela mulher e casar?
-- Porquê a pergunta agora?
-- Não sei. Acho que seria bom para ti. Sei que tens tido algumas relações umas duradouras, outras menos, mas não é bom estar só.
-- Mas quem disse que estou só, avozinha?
A avó pareceu surpreendida.
-- Sério!? 
Paulo riu e respondeu:
-- Nada sério. Conheci-a há uns dias.
-- Numa festa ou dicoteca, aposto.
-- E qual é o mal? É aí que as pessoas se conhecem.
-- Mas depois a relação não dura.
-- E para quê avó? Para terminar em divórcio litigioso, cada um para seu lado?
-- Bem, nisso tens razão. Mas não se pode deixar de procurar o amor. Hás de encontrar a tua alma gémea.
-- Ou talvez não! - disse rindo-se.
-- Acho que estás a esconder alguma coisa...
-- Não, avó.
-- Onde vais logo com a Emilie?
-- Com a Emilie, avó?
-- Sim, Paulo.
-- Não temos nada combinado, que eu saiba. 
-- Então, e o passeio de barco no Sena?
-- Ah isso! Ficou para sábado, pois durante a semana só sabe trabalhar! 
-- Olha quem fala! Fazes o mesmo. Só estás comigo hoje porque te sentiste febril pela manhã.
Estes diálogos eram comuns entre avó e neto. Davam-se super bem. E continuaram em amena cavaqueira até que o telemóvel do Paulo tocou.


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

XXVII Naquele dia...



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Emilie deixou-se convencer e ficou para o almoço. Há tanto tempo que não comia uma refeição tão familiar! E não era só pelas iguarias, era sobretudo pela companhia. Parecia que estava num almoço em Biarritz, só que muitos não estavam ali ou já tinham desaparecido. Ainda assim foi divertido, maravilhoso e um regresso ao passado comum. 
Paulo, a avó Laura insistiram para que Emilie ficasse para passar o resto da tarde. Emilie agradeceu e explicou que tinha mesmo de ir. No entanto, prometeu aparecer mais vezes. A avó Laura sorriu com satisfação. Adorava aquela menina. Emilie despediu-se com beijinhos e abraços. Ia despedir-se do Paulo, mas este disse que ia descer com ela porque ia à rua.
Entraram no elevador e Paulo perguntou a Emilie:
-- Consegues trabalhar depois de uma noitada?
-- Claro! Sou uma diretora com muitas responsabilidades e com muita gente sob o meu comando. Não posso falhar. Amanhã será um dia de reuniões contínuas. E ainda esta semana irei a Madrid.
-- Tens tempo para respirar?
-- Ontem e parte do dia de hoje foi a prova de que tenho. Não achas, Paulo?
Saíram do elevador, saíram do prédio e Paulo ainda perguntou:
-- Não vais desaparecer, pois não? A não ser que tenhas um namorado escondido.
-- Podes estar sossegado. Não desaparecerei.
Beijaram-se e cada um seguiu em sentidos opostos. Chegada a casa, Emilie pôs-se confortável e atirou-se ao trabalho, que prolongou até à uma da manhã.Comeu mais qualquer coisa e foi-se deitar.
Noutro lugar da cidade, na ponte dos apaixonados, alguém recolocava o cadeado com a inicial de Emilie e a sua.


sábado, 13 de outubro de 2012

XXVI Naquele dia...


Foto de FNando

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A luz entrava a jorros na divisão, pois as cortinas não tinham sido fechadas. Emilie abriu com dificuldade os olhos e olhou à sua volta. Que ressaca! Mas fora uma tarde e noite muito divertidas. Há quanto tempo isso não lhe acontecia! Subitamente, Emilie deu-se conta que não estava na sua cama, nem no seu apartamento. Onde estava então? Onde fora parar? Olhou para o outro lado da cama, mas não viu ninguém. 
Levantou-se, enrolou-se no lençol e explorou o apartamento completamente remodelado. Apesar de o exterior ser do século XIX, o interior era do mais contemporâneo que havia, com muitas peças de designers e obras de arte. Aventurou-se mais! Tinha de saber onde e com quem estava. 
Viu uma porta entreaberta e dirigiu-se para lá. Tentou não fazer muito barulho. Abriu mais um pouco a porta e viu Paulo ainda a dormir. Então estava em casa do amigo! Ainda bem. Assim, sentia-se mais segura.
Emilie sentiu fome e dirigiu-se à copa. A avó Laura lá estava, quase intemporal. Recebeu-a com abraços e beijos. Há quanto tempo não se viam! A avó Laura deu ordens para que se fizesse o pequeno almoço para a menina Emilie. Esta foi tomar banho e, de seguida,  ambas se dirigiram para a sala de refeições.
- Ah menina, como desapareceu durante tanto tempo?
- São coisas que acontecem, avó Laura. - respondeu com carinho. - Muito trabalho, viagens de negócios...
- Claro. Compreendo. Com o Paulo é a mesma coisa.
- Gostei muito de o reencontrar. Trouxe-me a minha infância de regresso! - Disse trincando um croissant. - Foi muito bom.
- Sabe, segredou-lhe a avó Laura, sempre pensámos que acabassem juntos.
- Não foi possível, avó Laura. Éramos muito jovens quando namoramos. Além disso, cada um queria seguir um caminho diferente.
Emilie olhou vagamente o que se encontrava em cima da mesa. Depois, serviu-se de mais café com leite, pão com manteiga e sumo de laranja.
- Foi uma pena! - lamentou a velha senhora.
- O que é que foi uma pena, avó?- perguntou Paulo entrando na sala, indo beijar a avó e Emilie.
- Que não tivesses acordado mais cedo para tomarmos o pequeno almoço juntos.
- Mas ainda estão à mesa, portanto estamos todos juntos.
- Como antigamente- confirmou a avó Laura.
- Não vou poder ficar por muito mais tempo.- disse Emilie. - Tenho de ir rever alguns dados para as reuniões de amanhã.
- Emilie, hoje é domingo, descanse. Almoce connosco. - Insistiu a avó Laura.
- Agradeço, mas hoje é impossível.
- Nada é impossível. - respondeu Paulo enigmático.


terça-feira, 25 de setembro de 2012

XXV Naquele dia...


FNando

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Fim de semana! Que bom! - pensou Emilie. Espreguiçou-se na cama e deixou-se ficar mais um tempinho no calor dos lençois. Depois levantou-se e foi direta para o duche. Sentiu a água a escorrer pelo corpo abaixo. Hum, que delícia! Que prazer!
Passado meia hora, já estava na rua para comprar uma baguete fresca e crocante e croissants de manteiga de que tanto gostava. Entrou na padaria onde havia pouca gente, fez as compras e saiu. Já em casa, fez café e enquanto este não ficava pronto, pôs a mesa.
Emilie bebeu uma chávena de café com leite, comeu pão com manteiga, bebeu sumo de laranja natural e ainda comeu um croissant com nutella. Gulosa, pensou. Que maravilhoso pequeno almoço! Enquanto arrumava a loiça, o telemóvel tocou. Era a Sofia, a colega de trabalho, que a convidava para ir à praia. Aceitou o convite pois o sol parecia uma tentação.
Encontraram-se na margem direita do Sena. Sofia já tinha reservado um chapéu de sol e espreguiçadeiras. Aquela praia artificial com areia, bares, atividades lúdicas e uma piscina agradava a todos os parisienses e seus visitantes. Durante mais ou menos mês e meio todos podiam desfrutar daquele espaço.
-- Olá, Sofia. Desculpa ter-me atrasado.
-- Não atrasaste nada. - disse Sofia - Daqui a pouco um amigo meu junta-se a nós. Importas-te?
-- Claro que não. Está um dia tão bonito.
-- É verdade. - Confirmou Sofia. - Sabe tão bem estar aqui, mesmo com areia artificial, com palmeiras e piscina  frente ao Sena.
-- Somos umas privilegiadas. - Asseverou Emilie.
Por volta das três da tarde apareceu o amigo de Sofia. Era um homem jovem e de olhos azuis, simpático e atencioso. Sofia apresentou-os, porém os dois já se conheciam desde criança. Paulo e Emilie tinham andado juntos na escola em Biarritz onde tinham nascido e morado e na Sorbonne, em Paris. Que alegria reencontrarem-se. Comemoraram bebendo cerveja bem gelada e dando mergulhos na piscina. 
O dia terminou com os três a comerem numa pizzaria. A noite de sábado prolongou-se nas ruas de um dos mais famosos bairros de Paris, o Marais. As suas ruas estavam animadas, os bares estavam cheios e todos pareciam conhecer-se! Havia muitos rostos conhecidos e até grupos de amigos. A noite só terminou de manhã!