domingo, 12 de setembro de 2010

Reinventem-me

Foto de F Nando
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Quero ser estátua
mas não uma estátua qualquer
Serei de material nobre
e burilada com o amor do escultor
Serei «Sem título"
para que todos me reinventem
Estarei num lugar mágico
e nunca mais me poderão menosprezar
Estarei voltada para o mar
para ver os barcos sair e entrar no porto
O sol e a chuva
dar-me-ão a honra da sua visita
O vento fustigar-me-á no inverno
e as gaivotas poisarão em mim para descansar
As estátuas são estátuas
não sofrem, nem sentem nada

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Maísa

Foto de F Nando
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Uma dor funda, aguda, inquietante apoderou-se de Maísa logo pela manhã dilacerando-a. O dia primaveril estava cheio de promessas. A natureza renovava-se e até o mar estava mais tranquilo. Respirava a harmonia em seu redor, porém não a sentia no seu interior. Estava dopada pela medicação. Os pensamentos não eram nítidos.
Lembrava-se que na noite anterior, depois de muito chorar por não achar um rumo para a sua vida, se encharcara de álcool e muitos medicamentos. Ainda estava de ressaca! Não sabia como chegara ali, só e conduzindo. Lembrava-se, no entanto de ter dado meia volta, quando chegara ao local de trabalho e não conseguira sair do automóvel por causa das lágrimas. Fizera exercícios de respiração, mas de nada adiantara. Pensamentos atrozes e maquiavélicos cruzavam a sua mente.
Era melhor para todos que ela não fosse mais. Para ela também. Descansaria, por fim. Acabaria a agonia, a angústia, o desespero, as lágrimas. Tudo terminaria. Tudo. Tudo.
Maísa só podia refugiar-se num local. E era aí que pensava acabar coma a vida. Levou os mais variados químicos prescritos pela médica assistente e whisky suficiente. Nem deu conta quando a maré encheu e a arrastou para alto mar. Aquele tinha sido o fim desejado: não iam as cinzas; ia o corpo... para se fundir nas águas do mar!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Um simples saco de papel...

Tenho por hábito guardar alguns sacos de papel dando-lhe as mais variadas finalidades. A maior parte das vezes acabam na reciclagem do papel depois de os ter usado e usado. Ficam amarrotados, amachucados e , ainda que com pena, digo-lhes adeus enchendo-os com os panfletos de publicidade com que "atulham" as nossas caixas de correio.
Certo dia, não sei precisar onde, nem quando, veio parar-me às mãos este saco delicioso. A história é simples mas linda e cheia de significado.


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PS- Ainda mantenho o saco.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Difícil de Aceitar

Gostava tanto do que fazia no seu trabalho. Trabalhava em equipa com as colegas e amigas que , hoje, raramente vê, mas com quem se comunica, de vez em quando. Foi até trabalhar para o estrangeiro e, no regresso, logo se sentiu perdida e insegura. Ainda assim, trabalhou, sem necessidade, as férias todas. Nos momentos de maior quantidade de trabalho nem descansava, fazia directas. Era já a fase da "mania" e da "obsessão". Depressa mudaria para as lágrimas e, anos mais tarde, para os ataques de pânico, a angústia, os desmaios, as faltas de ar, a incapacidade de transpor a porta não obstante estar pronta para o fazer.
Tudo começou pelo diagnóstico de uma depressão que não foi tratada, por vontade da paciente que achou que daria conta do problema sozinha. Seguiu-se-lhe a perda total da auto confiança e pouco tempo depois teve um esgotamento que a levaria à cama por um período de sete meses. Havia cura? A família achava que sim. Aliás não compreendiam muito bem o que se passava com ela. Tinha tudo. Fisicamente estava bem! Não havia razão para estar a viver estas crises.
Porém o seu estado de infelicidade, desespero, angústia, abulia aumentava. Saía de casa para o trabalho, mas em vez disso ia chorar para a beira rio e, em casa, mantinha um diário onde contava os seus desconcertos. Até que, não aguentando mais, tentou pela primeira vez (pois haveria outras) o suicídio. O irmão socorrê-la-ia à distância e ela terminaria internada num hospital psiquiátrico.
Procurou outros médicos, outras terapias, até que lhe foi diagnosticada esta doença do foro mental: depressiva bipolar/maníaco-depressiva. Fez-se sócia da ADEB (Associação de Apoio aos Doentes Depressivos Bipolares) onde, às vezes, vai aos encontros, às sessões psicopedagógicas, às terapias de grupo.
Se a família levou anos a "acreditar" nesta doença mental e nos seus efeitos, os seus amigos nem acreditam nesta doença tão perturbadora e que causa tanto sofrimento a quem a padece. Fisicamente pode-se estar muito bem (?), às vezes finge-se, mas é na mente e nos pensamentos tortuosos que tudo acontece. Estas pessoas são seres frágeis, com alteração de humor, que cometem as maiores atrocidades (gastos excessivos; condução perigosa; abuso do álcool; destruição de objectos em casa,...)
Não há cura. Há medicação que ajuda a estabilizar estes altos e baixos e, ainda assim, nem sempre se consegue esse equilíbrio.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Sem Título e só Universo

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Esta é a minha participação para a «Fábrica das Letras» neste mês de Setembro de 2010, que agora se inicia. O tema é LIVRE!

Quando em Agosto entrei no meu escritório/biblioteca na casa da minha mãe, em Trás-os-Montes, toquei e abri alguns livros, revi álbuns de fotografias e reli alguns papéis escrevinhados há anos.

Deixo-vos com uma carta. Tem um destinatário imaginário: sem idade, sem rosto, sem credo ou raça. Na altura em que a escrevi andava demasiado ocupada com as minhas leituras e outros escritos.


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Carvalhais, 14 de Fevereiro de 2001


ESSÊNCIA DA MINHA ESSÊNCIA


Depois da ausência inesperada, finalmente o reencontro infinitamente adiado... Sei que devia ter chegado antes, ter-me manifestado, porém retiveram-me onde eu já não era há tanto tempo... E ninguém sabia!

Como soubeste que me aprisionavam? Como conseguiste encontrar-me? Saberei ou saberás dizer-me como chegaste até mim?... Confesso-te que não sei... Pedes-me que te conte o que me habita... Só que é demasiado doloroso lembrar que na altura eras só essência e eu a sombra de mim mesma.

Fui Eurídice para que tu fosses Orpheu e me resgatasses das profundezas que me tragavam. Mantive-me atenta para sondar o mistério, para ouvir a melodia ténue das esferas, para te ouvir. Soube esperar e tu vieste. E não olhaste para trás como ele.

Foi a tua voz divina, sussurrada em silêncio que me devolveu o SER. Ouvi-a veladamente, mas soube que eras tu. Deixei então que me levasses para onde eu seria novamente.

Soçobram em mim, em ti tantos momentos sonhadamente oásis que a Hora não poderá nunca apagar... porque a poesia que nos habita é indecifrável... porque só na nossa exsitência azul o sabemos. Nós conhecemos o indizível.

Temos o mesmo olhar de opala, claro, límpido, como outrora. É de ouro a claridade que nos une, porque tudo em nós é paisagem... etérea. Somos impensadamente melodias do SER. A ESSÊNCIA que somos poucos a sabem. A maioria desconhece-a nós não, porquanto saibamos que antes do reencontro houve duras provas a enfrentar. E que provas dolorosas conhecemos, meu amor...

Agora somos indefinidamente SEM TÍTULO e só UNIVERSO. Somos na nossa grandeza a anunciação da aurora sagrando de eternidade os que se amam.


Sempre.

Marília

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Nota:

1- Mantive o nome imaginário do remetente.

2- Se não puder participar com este texto por ser de 2001, logo, logo participarei com outro.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

MOMENTOS



Foto de N Augusto


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Este é um dos espaços nobres na parte oriental da cidade de Lisboa que a EXPO 98 nos deixou, apesar das derrapagens orçamentais. Ainda asssim, a meu ver, valeram a pena.
É um esspaço de todos e para todos. As crianças podem deliciar-se a andar de bicicleta ou percorrer o espaço num comboio, podem deliciar-se a visitar o Oceanário ou participar nas actividades que este lhes oferece. Também os adolescentes podem gozar dessas férias no Oceanário ou fazerem canoagem na Escola que lá existe.
Quanto aos graúdos, podem passear pelos jardins, os da Água são os meus favoritos, andar de bicicleta, visitar o Oceanário (já lhe perdi a conta as vezes que o visitei!), aproveitar para dar também um passeio à beira rio e observar a outra margem e a Ponte Vasco da Gama, ver e sentir no rosto a água dos vulcões de água, aproveitar a zona dos bares para matar a sede e o calor. E é destes momentos que os dias correm e o Verão passa.
E o teleférico? Pois não sei...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

CONFISSÕES DE UMA ERRANTE

UMA LONGA VIAGEM

PARA FÁBRICA DAS LETRAS
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Cedo, cedo, extremamente cedo as letras tomaram conta do universo de Nathalie. Bastava olhar para o topo do berço e ali estavam elas, qual bailarinas a desafiá-la a dar-lhes nomes. Porém isso era ainda precoce. Não obstante, a aprendizagem do nome das letras aconteceu entre os dois e os três anos. As Educadoras de Infância consideraram que ela era «très douer pour les lètres et si curieuse!» Em casa a mãe cultivava-lhe esse gosto. Nessa altura era perfeitamente bilingue. Falava e aprendia em francês na escola, em casa falava e aprendia português. A mãe além de boa mestra e patriota não prescindia do uso e do ensino da lingua portuguesa. Todas as tardes se repetiam as lições.

Que literatura lia Nathalie? Que aventuras? Primeiro interessou-se pela banda desenhada: Tintin, Mickey Mouse, Tio Patinhas. Depois passou para as obras de contos de Charles Perrault, as traduções do dinamarquês Hans Christian Andersen, entre outros autores de que agora não se lembra. Como todos sabiam do seu gosto pela leitura, acabavam sempre por lhe oferecer vários e a sua biblioteca ia crescendo. Como era bom refugiar-se lá e viver todas as aventuras. Imaginar-se duende, fada, princesa, rainha, guerreira, águia. Quantas tardes maravilhosas viveu Nathalie.

Um dia estes sonhos acabaram e os livros ficaram para trás. Nathalie deixava, sem saber, o seu espólio, o seu maior tesouro. Viu-se neste país, Portugal, com séculos de atraso sem nada. Nem mesmo os pais. (Saltemos esta parte menos interessante da vida de Nathalie).

Hoje Nathalie continua uma leitora devoradora de livros. Vive vidas e em mundos fascinantes que a enriquecem todos os dias. A escrita também é outra das suas paixões pois é a forma de levar as suas viagens até aos outros (crianças, jovens e adultos).

O blogue «Tout sur Nathalie» surgiu como passatempo.

-Pardon, Mademoiselle Nathalie?

-C' est vrai!

-Vous êtes impitoyable. Je suis lá toujours pour vous. Dans vos moments de joie et de tristesse.

-T' as raison. Je m' excuse. À présent tu es mon meilleur ami. On peux continuer a nous ballader ensemble?

-Bien sur, ma belle...