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Amanhã será outro amanhã, um novo dia para mim, que aguarda que algo de novo surja e que sabe, de antemão, que algo súbito vai aparecer. Essa nova aparição trar-me-á conforto e tranquilidade. Mudarei com ela e serei ainda mais eu: mais sonhadora, mais cativa das palavras que escrevi e de muitas outras que vou escrever. Vou ter Cronos do meu lado e vozes interiores, fantásticas para não deixarem que o mais belo e sincero de mim se torne moribundo.
Já vejo as páginas impressas a passarem sob os meus dedos. Cheiro-as, sinto a história, sei que as personagens pulam dentro delas desejosas de conhecerem o meu mundo. O mundo onde elas nasceram. O meu eu onde elas frutificaram como frutos maduros e odoríferos e que um jovem de rasgados e grandes olhos verdes converteu em ilustrações.
Estou em estado de embriaguez criativa, como se estivesse prenhe de novo de ideias lavadas pelo luar. Porque é à noite que tudo me aparece, algum tempo depois de ter bebido os gestos, as vozes, os encontros que acontecem durante o dia.
Renasço de novo. Quantos renascimentos passaram pos mim indeléveis e outros deixando marcas profundas. Apesar de tudo e de quanto me aconteça renasço. Posso sentir-me rasgada, humilhada, incompreendida, ferida, em chagas, mas renasço. E se tiver que gritar, chorar, quebrar a loiça para aliviar a dor, faço-o.
Depois vem a luz. São as palavras solares que nasceram na noite que me trazem gotas de orvalho para matar a sede, o nevoeiro para as encontrar misteriosas, as ondas do mar para molhar meus pés brancos.
Quero as palavras! Sempre. Não importa que seja para me dizerem ou para narrar as minhas histórias de encantar.