sexta-feira, 2 de maio de 2008

Memórias de ti

Costumavas levar-me contigo na minha infância de frutos silvestres. Levavas-me nos teus passeios pela cidade e compravas-me os mais belos presentes. Não me negavas nada.
A princípio, sem poder compreender, vi-me saparada de ti, da mãe e do meu irmão. Chorei dias a fio. As noites tornaram-se muito tenebrosas. Fiquei sem o teu, o vosso amor.
Mantiveste-te longe tempo de mais. As férias de Verão eram mágicas porque tu estavas. Éramos a família de outrora: tranquila, alegre, feliz. Mas as tuas partidas eram dolorosas.
Certo dia, vieste e ficaste connosco. Era eu uma adolescente. Vieste e foi mágico, de novo. Sonhámos juntos. Sonhaste com a tua família. Eu sonhei contigo. Soubeste e compreendeste a minha paixão pela leitura, pela escrita e a minha necessidade de solidão.
Se não tivesses sido tu, não teria vindo estudar para Lisboa. O teu consentimento foi decisivo. Sabias que precisava de muito. Deixaste-me voar. Deixaste-me ser livre.
Nas férias de Páscoa, de Verão e de Natal contava-te como era fantástico aprender novas coisas, ter novos amigos. Sonhávamos com o momento em que acabaria a licenciatura e começaria a trabalhar.
Era-me urgente começar a trabalhar. Queria dar-te o mundo tal como mo tinhas oferecido : límpido, honesto, tranquilo, promissor.
A última vez que fui ter contigo à nossa quinta, senti uma angústia enorme e um nó na garganta. Procurei-te e chamei-te, porém não obtive resposta. Senti um estranho medo. Como se não existisses. Acabei por te encontrar. Viria a perder-te algumas semanas depois.
Partiste cedo de mais. Para sempre. Da forma mais dolorosa. Faz hoje dezasseis anos.
Durante nuito tempo, deixei de me reconhecer. Durante muitos anos deixei que a dor, o desespero, a raiva tomassem conta de mim. Fui durante muito, muito tempo errante. E, por isso, traí muitos dos sonhos que sonhámos. Menos um: nunca abandonei a escrita.
Deixaste-me ser quem hoje sou, porque me deixaste ver o mundo, com os olhos ávidos por novidade.
Nunca deixei de te amar. Nunca. Mas, por largos anos, o meu amor foi doente. Muito. Agora confesso-te que já não.
Neste momento é a minha vez de te deixar partir. Vai. Eu estou melhor. Muito melhor. Fica sabendo que sei que estarás sempre comigo.
Adeus, pai.

2 comentários:

Estela disse...

Querida amiga do meu coração, foi um luto difícil e lento, uma caminhada dolorosa. Viver é também perder, tudo se perde afinal!
Procuremos,então, viver o melhor que soubermos e pudermos('seize the moment'/'carpe diem', lembras-te?); é que viver é também em si mesmo sinónimo de bons momentos,realizações pessoais, amizade e sorrisos francos, gargalhadas e sintonias...
Tenho muito orgulho em ti, gosto muito de ti, desejo muito ver-te feliz.
A ti!

Estela

Natália Augusto disse...

Obrigada amiga.
Daqui para a frente não me vou esquecer dos teus conselhos.

Beijinhos