sábado, 1 de dezembro de 2012

XXIII Naquele dia...


Foto FNando

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Depois daquele fim de semana na quinta da avó Laura, Emilie viu-se com tanto trabalho! Tantos projetos, tantas apresentações que deixou quase de ter vida própria novamente. A Sofia convidava-a para ir ao teatro, mas Emilie recusava o convite. Paulo convidava-a para um passeio ou uma corrida pelas ruas de Paris, porém Emilie dizia que não tinha tempo. A avó Laura também a convidava para ir até sua casa, todavia dizia que não podia. E não! O trabalho absorvia-a por completo.
Certo dia, sentindo-se completamente exausta, sentou-se no jardim público que havia em frente à sua casa para sentir o sol no rosto. Tirou os sapatos de saltos e massajou os pés. Que bom! Como é que não fazia mais vezes esta pausa antes de entrar em casa para continuar o trabalho? Porque não deixava o PC da empresa no local de trabalho? E até o tablet? Mas não. Não era capaz! Estava nestas cogitações quando o telemóvel tocou. No visor estava escrito 'Faby'. Atendeu logo. Quantas saudades tinha da amiga.
- Faby, minha querida, como estás?
No entanto, não obteve uma resposta imediata e teve de insistir.
- Faby, amiga, fala comigo. Que se passa?
Foi então que do outro lado a amiga começou a chorar.
- Que se passa? Diz-me. Acalma-te. Onde estás? Ainda estás em Itália? Estás a deixar-me assustada.
- E-mi-lie - soluçou - es-tou só.
- Como?
- O meu marido era traficante de droga, disse-me, a polícia. Ma-ta-ram-no, E-mi-lie.
- Não pode ser.
- Pode e foi o que... aconteceu. - E desatou a chorar.
- Querida, não chores. Vem para casa. Ficas comigo. Onde estás neste momento?
- Já estou no aeroporto.
- Ótimo! A que horas chegas?
- Às nove da noite.
- Estarei lá. Não chores. Em breve estarás em casa. Força.
- Obrigada amiga!
- Deixa-te disso. 
- Até logo, Emilie.
- Até logo, Faby.
Assim que desligou, Emilie sentiu uma imensa tristeza ao pensar que Faby perdera o seu amado de uma forma cruel e fria. Faria tudo para a amparar nestes próximos tempos que seriam difíceis. Só esperava poder abrandar no trabalho.
Sem sentir mais vontade de estar ali, calçou-se e foi para casa destroçada.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

XXII Naquele dia...


Foto de FNando

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Logo pela madrugada, os homens saíram para caçar na reserva da quinta. Aperaltados em cima da sua montaria e seguidos pelos cães que não paravam de ladrar e latir, a caçada durou algumas horas. De regresso a casa, foram tomar um duche para se juntarem às senhoras para, finalmente, tomarem o petit-dêjeuner
Croissants, chausson aux pommes, baguettes, queijos, compotas, café e leite, diferentes chás, sucos naturais e fruta foram servidos. Depois foram dar um passeio pelos jardins. Logo a seguir os mais jovens foram andar a cavalo.
Émilie escolheu o cavalo que costumava montar, um pouco arisco, todavia um belo exemplar. Paulo quis ajudá-la a montar, mas ela riu-se e disse que não, indo juntar-se a Pascal que se afastara um pouco. Susy seguiu o conselho de Paulo e montou um cavalo mais dócil. 
Saíram os quatro pelos campos verdejantes, calmamente, a conversar. Falavam da beleza da quinta, do dia luminoso, da elegância das suas montarias. Entretanto, Pascal sugeriu que fizessem uma corrida. Susy não disse nada, mas sentiu um friozinho no estômago. Paulo, prevendo o receio da namorada, disse-lhes  que preferiam andar apenas.
Pascal e Émilie despediram-se e saíram a galope. Pascal, que ia à frente, saltou riachos, pequenos fossos e embrenhou-se no bosque evitando os ramos das árvores. A dada altura surgiu uma clareira e Émilie passou-o à frente na corrida. Foi nessa clareira que se apearam, deixando os cavalos pastar. Caminharam lado a lado e conversaram sobre tudo e sobre nada, pois também se conheciam desde a pré-adolescência.
- Estás cada vez mais linda,sabias? - disse ele.
- Continuas o mesmo dandy de sempre.
- Olha que mudei muito...
- Ah, ah, ah. Tu? Tinhas de nascer outra vez para seres diferente.- ironizou Émilie. - Que achaste da namorada do teu primo? - perguntou tentando desviar a conversa.
- Linda! Mas não é para ele! Não vai durar muito!
- Que estás para aí a dizer?
- Que o meu primo se cansa depressa.
- És tão mau!
- Não, minha querida Émilie. Apenas realista.

domingo, 11 de novembro de 2012

XXI Naquele dia...


Foto de FNando

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Quando Susy e Paulo entraram na ante-sala ouviram várias vozes. Dirigiram-se, então, para a salinha da avó onde Susy foi apresentada a um casal septagenário muito simpático e a mais dois, um pouco mais jovens, que elogiaram a beleza e graciosidade de Susy, que corou ao ouvi-los Enquanto conversavam com os amigos da avó, uma empregada serviu água lisa a Susy e um pernod ricard a Paulo. A avó de Paulo não podia estar mais feliz, pois reunia por um lado os amigos e, por outro, o neto e a namorada. Da forma como lhe fora a presentada, parecia oficial. Nada a deixava mais orgulhosa. Queria que o neto assentasse antes de ela partir para o outro lado.
Estavam quase a ir para a sala de jantar quando apareceu Émilie e mais dois casais, amigos desta e da avó Laura. As apresentações foram breves, porquanto todos estivessem com fome. Passaram então para a sala das refeições onde os lugares estavam marcados. Do lado direito da avó Laura estava o neto, do lado esquerdo estava Émilie. Susy estava sentada em frente ao namorado e não lado a lado como acontecia com os outros casais.
Como entrada comeram terrine de canard et salade verte, com vinaigrette, seguiu-se saumon à la crème fraiche, frites et endives au four, de seguida steak au poivre et légumes cuits. Como bebidas havia água lisa e com gás, vinho tinto e branco da região de Bordéus, assim como sumos. 
O almoço decorreu bem e a conversa generalizou-se antes da chegada das sobremesas e da tábua de queijos e compotas. De entre as sobremesas, alguns comeram creme caramel, crême brulê, fondant de vanille et fraises, macarons; outros preferiram  baguette e pain de campagne para se deliciarem com os queijos e as compotas. A variedade também era por demais tentadora: brie, roquefort, fromage frais, chèvre, camembert, bresse bleu.Em suma, o almoço tinha sido um verdadeiro e lauto banquete. A avô Laura sempre recebera bem, assim como toda a sua família!
Depois os homens foram para a sala de jogos fumar e beber digestivos. Alguns atreveram-se mesmo a jogar uma partida de bilhar. As senhoras decidiram-se a dar um passeio pelos jardins circundantes à casa. Paulo e Susy, Émilie e Pascal, um primo de Paulo, foram ver os cavalos e escolher os equídeos para montarem na manhã seguinte. A conversa foi a apresentação dos que não se conheciam e assuntos de caráter geral. A tarde passou depressa. 
O grupo voltou a reunir-se para o lanche, seguindo-se um mini concerto. A avó Laura tocava piano e o neto juntava-se a ela para alguns duetos. Depois foi a vez de dançarem um pouco algumas danças de salão. Susy não sabia dançar, mas Paulo dançou um tango com a sua amiga de infância. No fim todos bateram palmas. Susy fê-lo contrariada porque sentiu uma certa cumplicidade entre o  namorado e Émilie.
Naquele dia o dia terminou com o jantar, a música e os jogos.

XX Naquele dia...



***

A avó Laura foi para a quinta com duas amigas. Iam muito animadas e, por vezes, pediam opinião ao motorista sobre o que fazer no fim-de-semana. Quando chegaram à quinta, o mordomo e as três criadas já estavam à sua espera.
Uma delas instalou a avó na sua suite e as outras duas instalaram as amigas da avó Laura nos quartos de hóspedes. Tomaram um duche antes de descerem para o rés-do-chão, instalando-se na biblioteca que era simultaneamente a salinha de estar e de receber as visitas.
Uma hora antes do almoço, chegaram Paulo e a sua namorada Susy. Por muito que o namorado tentasse pô-la à vontade para conhecer a avó e as amigas, Susy sentia-se apreensiva. Como seria recebida? Era uma jovem sem berço. Eram receios infundados.
Paulo entrou na casa de mão dada com Susy e seguiu as vozes que o conduziram à salinha predileta da avó. Susy foi-lhe apresentada assim como às suas amigas. No entanto, Susy não se sentiu à vontade. Pelo contrário, sentiu-se observada.
- Bem vinda, minha querida. Fizeram boa viagem? - perguntou a avó.
- Obrigada. Sim, fizemos boa viagem. A sua casa é linda e enorme!- disse Susy.
- Herança de meus avós, querida.
- Como disse que se chamava? - perguntaram Magalie e Sílvie, as amigas da avó Laura.
- Susy.
- Inacreditável! Os nossos nomes rimam: Magalie, Silvie e Susy. - disse Magalie, sorrindo.
- Ainda falta um pouco para o almoço - explicou a avó Laura - Paulo, leva Susy a ver os jardins e o lago. Não se afastem muito.
- Com certeza avó. - Concordou Paulo dando-lhe um beijo na testa. - Até já minhas senhorass.
Naquele dia, não choveria. O sol teimava em aparecer timidamente. Paulo e Susy aproveitaram aqueles momentos a sós para conhecer os jardins, o lago, os pomares e, claro, para namorar.
- Achas que a tua avó gostou de mim?
- Por que não deveria gostar? És encantadora e linda e meiga e doce...
- E que mais? Diz!
- E amo-te!
- O quê? Acho que não ouvi bem!
- E amo-te.
-Também te amo muito! Ah, Paulo, meu amor, quanta felicidade. Estou sem palavras.
- Não são necessárias... - disse beijando-a doce e longamente e abraçando-a com carinho.
No caminho de regresso ainda passaram pelas cocheiras. Um dos cavalos pareceu simpatizar com Susy.
- Como se chama?
- Crinas ao Vento.
- Achas que poderei montá-lo logo ou amanhã?
- Tem de ser um cavalo mais dócil para te habituares. Esse é arisco!
- Está bem! Não posso arriscar muito por causa da próxima passagem de modelos.
- Isso mesmo, menina sensata! Vamos voltar?
- Claro, "mon amour"!
- Os amigos das quintas vizinhas da minha avó já devem ter chegado. Antes que bebam aperitivos demais, é melhor aparecermos.

sábado, 3 de novembro de 2012

XXIX Naquele dia...


Foto de FNando

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Paulo pegou no telemóvel e saiu da divisão para atender. Era Susy, a sua mais recente namorada. Uma modelo da Casa Chanel.
- Olá, Susy, minha querida, onde estás?
- Como estás? Liguei para o teu escritório e disseram-me que estavas doente.
- Não é nada de grave. É uma simples gripe. Não te preocupes, "chérie".
- Simples? - repetiu Susy.- Ficares em casa não é nada bom. Tu és dos que nunca faltam.
- É verdade. Acordei febril e mandei chamar o médico.
- Que te mandou ficar em casa a repousar.
- Isso mesmo, amor.
- Ótimo. Aprovo a cem por cento. Nada de ir à rua, à varanda, ao jardim.
- Que me querias quando telefonaste para o escritório?
- Estou a fotografar na Torre de Montparnasse e como trabalhas aqui liguei para te convidar para almoçarmos no restaurante.
- Que pena não poder, minha querida. 
- Não faz mal Paulo, fica para quando ficares bom. Desafio aceite?
- Claro. Mas nada de viagens nos próximos tempos!
- Amor, isso não depende de mim, mas da minha profissão. A juventude passa depressa.
- És linda e hás de sempre sê-lo.
- Fofo! Bem,tenho de regressar à sessão fotográfica. Beijinhos.
- Beijinhos, Susy. Fica bem.
- Melhora depressa.
- Com uns beijinhos e miminhos teus melhoraria com certteza.
- Não me tentes. Tchau.
- Tchau. - repetiu Paulo. 
Regressou à salinha onde a avó estava e fizeram alguns planos para o fim-de-semana prolongado. Iriam para a Quinta do Luxemburgo onde recebiam os amigos. Havia os caçadores, homens e mulheres; os jogadores de ténis, os homens mais jovens; as senhoras ficavam dentro de portas a jogar gamão.
Paulo pediu permissão para convidar Susy e a avó Laura convidou Emilie. O neto queria apresentar a namorada à avó. Coisa rara que talvez quisesse dizer que a relação era séria.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

XXVIII Naquele dia...


Foto FNando

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Emilie passou a ir com frequência a casa da avó Laura e do Paulo. Essas visitas aconteciam sobretudo ao fim-de-semana. Emilie também os recebia no seu apartamento. Também saíam à noite. A avó Laura adorava teatro, ópera e bailado. Quando Emilie se ausentava a trabalho, a avó Laura sentia por demais a sua falta. Habituara-se a tê-la por perto. Era como uma neta.
Certo dia ao serão, a avó Laura, que bebia o seu chá e comia bolachinhas de manteiga, dirigiu-se ao neto:
-- Paulo, já pensaste em conhecer uma bela mulher e casar?
-- Porquê a pergunta agora?
-- Não sei. Acho que seria bom para ti. Sei que tens tido algumas relações umas duradouras, outras menos, mas não é bom estar só.
-- Mas quem disse que estou só, avozinha?
A avó pareceu surpreendida.
-- Sério!? 
Paulo riu e respondeu:
-- Nada sério. Conheci-a há uns dias.
-- Numa festa ou dicoteca, aposto.
-- E qual é o mal? É aí que as pessoas se conhecem.
-- Mas depois a relação não dura.
-- E para quê avó? Para terminar em divórcio litigioso, cada um para seu lado?
-- Bem, nisso tens razão. Mas não se pode deixar de procurar o amor. Hás de encontrar a tua alma gémea.
-- Ou talvez não! - disse rindo-se.
-- Acho que estás a esconder alguma coisa...
-- Não, avó.
-- Onde vais logo com a Emilie?
-- Com a Emilie, avó?
-- Sim, Paulo.
-- Não temos nada combinado, que eu saiba. 
-- Então, e o passeio de barco no Sena?
-- Ah isso! Ficou para sábado, pois durante a semana só sabe trabalhar! 
-- Olha quem fala! Fazes o mesmo. Só estás comigo hoje porque te sentiste febril pela manhã.
Estes diálogos eram comuns entre avó e neto. Davam-se super bem. E continuaram em amena cavaqueira até que o telemóvel do Paulo tocou.


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

XXVII Naquele dia...



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Emilie deixou-se convencer e ficou para o almoço. Há tanto tempo que não comia uma refeição tão familiar! E não era só pelas iguarias, era sobretudo pela companhia. Parecia que estava num almoço em Biarritz, só que muitos não estavam ali ou já tinham desaparecido. Ainda assim foi divertido, maravilhoso e um regresso ao passado comum. 
Paulo, a avó Laura insistiram para que Emilie ficasse para passar o resto da tarde. Emilie agradeceu e explicou que tinha mesmo de ir. No entanto, prometeu aparecer mais vezes. A avó Laura sorriu com satisfação. Adorava aquela menina. Emilie despediu-se com beijinhos e abraços. Ia despedir-se do Paulo, mas este disse que ia descer com ela porque ia à rua.
Entraram no elevador e Paulo perguntou a Emilie:
-- Consegues trabalhar depois de uma noitada?
-- Claro! Sou uma diretora com muitas responsabilidades e com muita gente sob o meu comando. Não posso falhar. Amanhã será um dia de reuniões contínuas. E ainda esta semana irei a Madrid.
-- Tens tempo para respirar?
-- Ontem e parte do dia de hoje foi a prova de que tenho. Não achas, Paulo?
Saíram do elevador, saíram do prédio e Paulo ainda perguntou:
-- Não vais desaparecer, pois não? A não ser que tenhas um namorado escondido.
-- Podes estar sossegado. Não desaparecerei.
Beijaram-se e cada um seguiu em sentidos opostos. Chegada a casa, Emilie pôs-se confortável e atirou-se ao trabalho, que prolongou até à uma da manhã.Comeu mais qualquer coisa e foi-se deitar.
Noutro lugar da cidade, na ponte dos apaixonados, alguém recolocava o cadeado com a inicial de Emilie e a sua.


sábado, 13 de outubro de 2012

XXVI Naquele dia...


Foto de FNando

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A luz entrava a jorros na divisão, pois as cortinas não tinham sido fechadas. Emilie abriu com dificuldade os olhos e olhou à sua volta. Que ressaca! Mas fora uma tarde e noite muito divertidas. Há quanto tempo isso não lhe acontecia! Subitamente, Emilie deu-se conta que não estava na sua cama, nem no seu apartamento. Onde estava então? Onde fora parar? Olhou para o outro lado da cama, mas não viu ninguém. 
Levantou-se, enrolou-se no lençol e explorou o apartamento completamente remodelado. Apesar de o exterior ser do século XIX, o interior era do mais contemporâneo que havia, com muitas peças de designers e obras de arte. Aventurou-se mais! Tinha de saber onde e com quem estava. 
Viu uma porta entreaberta e dirigiu-se para lá. Tentou não fazer muito barulho. Abriu mais um pouco a porta e viu Paulo ainda a dormir. Então estava em casa do amigo! Ainda bem. Assim, sentia-se mais segura.
Emilie sentiu fome e dirigiu-se à copa. A avó Laura lá estava, quase intemporal. Recebeu-a com abraços e beijos. Há quanto tempo não se viam! A avó Laura deu ordens para que se fizesse o pequeno almoço para a menina Emilie. Esta foi tomar banho e, de seguida,  ambas se dirigiram para a sala de refeições.
- Ah menina, como desapareceu durante tanto tempo?
- São coisas que acontecem, avó Laura. - respondeu com carinho. - Muito trabalho, viagens de negócios...
- Claro. Compreendo. Com o Paulo é a mesma coisa.
- Gostei muito de o reencontrar. Trouxe-me a minha infância de regresso! - Disse trincando um croissant. - Foi muito bom.
- Sabe, segredou-lhe a avó Laura, sempre pensámos que acabassem juntos.
- Não foi possível, avó Laura. Éramos muito jovens quando namoramos. Além disso, cada um queria seguir um caminho diferente.
Emilie olhou vagamente o que se encontrava em cima da mesa. Depois, serviu-se de mais café com leite, pão com manteiga e sumo de laranja.
- Foi uma pena! - lamentou a velha senhora.
- O que é que foi uma pena, avó?- perguntou Paulo entrando na sala, indo beijar a avó e Emilie.
- Que não tivesses acordado mais cedo para tomarmos o pequeno almoço juntos.
- Mas ainda estão à mesa, portanto estamos todos juntos.
- Como antigamente- confirmou a avó Laura.
- Não vou poder ficar por muito mais tempo.- disse Emilie. - Tenho de ir rever alguns dados para as reuniões de amanhã.
- Emilie, hoje é domingo, descanse. Almoce connosco. - Insistiu a avó Laura.
- Agradeço, mas hoje é impossível.
- Nada é impossível. - respondeu Paulo enigmático.


terça-feira, 25 de setembro de 2012

XXV Naquele dia...


FNando

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Fim de semana! Que bom! - pensou Emilie. Espreguiçou-se na cama e deixou-se ficar mais um tempinho no calor dos lençois. Depois levantou-se e foi direta para o duche. Sentiu a água a escorrer pelo corpo abaixo. Hum, que delícia! Que prazer!
Passado meia hora, já estava na rua para comprar uma baguete fresca e crocante e croissants de manteiga de que tanto gostava. Entrou na padaria onde havia pouca gente, fez as compras e saiu. Já em casa, fez café e enquanto este não ficava pronto, pôs a mesa.
Emilie bebeu uma chávena de café com leite, comeu pão com manteiga, bebeu sumo de laranja natural e ainda comeu um croissant com nutella. Gulosa, pensou. Que maravilhoso pequeno almoço! Enquanto arrumava a loiça, o telemóvel tocou. Era a Sofia, a colega de trabalho, que a convidava para ir à praia. Aceitou o convite pois o sol parecia uma tentação.
Encontraram-se na margem direita do Sena. Sofia já tinha reservado um chapéu de sol e espreguiçadeiras. Aquela praia artificial com areia, bares, atividades lúdicas e uma piscina agradava a todos os parisienses e seus visitantes. Durante mais ou menos mês e meio todos podiam desfrutar daquele espaço.
-- Olá, Sofia. Desculpa ter-me atrasado.
-- Não atrasaste nada. - disse Sofia - Daqui a pouco um amigo meu junta-se a nós. Importas-te?
-- Claro que não. Está um dia tão bonito.
-- É verdade. - Confirmou Sofia. - Sabe tão bem estar aqui, mesmo com areia artificial, com palmeiras e piscina  frente ao Sena.
-- Somos umas privilegiadas. - Asseverou Emilie.
Por volta das três da tarde apareceu o amigo de Sofia. Era um homem jovem e de olhos azuis, simpático e atencioso. Sofia apresentou-os, porém os dois já se conheciam desde criança. Paulo e Emilie tinham andado juntos na escola em Biarritz onde tinham nascido e morado e na Sorbonne, em Paris. Que alegria reencontrarem-se. Comemoraram bebendo cerveja bem gelada e dando mergulhos na piscina. 
O dia terminou com os três a comerem numa pizzaria. A noite de sábado prolongou-se nas ruas de um dos mais famosos bairros de Paris, o Marais. As suas ruas estavam animadas, os bares estavam cheios e todos pareciam conhecer-se! Havia muitos rostos conhecidos e até grupos de amigos. A noite só terminou de manhã!

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

XXIV Naquele dia...

Paris
F Nando
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Emilie chegou a casa exausta e apreensiva. Dera as rosas amarelas à secretária. Ainda tinha o envelope fechado e receava o que ia encontrar. É que ultimamente muitos acontecimentos inusitados lhe tinham acontecido. Não saber o autor de tamanha ousadia, fazia-a sentir-se incomodada e fula. Que fizera para merecer a atenção de um lunático ou quem sabe de alguém da pior espécie?
Olhou atentamente o envelope que não tinha remetente, só destinatária. O nome dela estava completo e a caligrafia era perfeita. Abriu-o de uma vez só e no interior encontrou então uma missiva breve. "Emilie, procura um tesouro na tua bicicleta." Deambulou pela sala até se decidir a seguir a indicação. Desceu e foi ver que tesouro era aquele. Presa ao volante encontrou uma caixa. Tirou-a e abriu-a logo. Tratava-se do cadeado dos enamorados que tinha visto na ponte, com a inicial do seu nome.
Olhou em volta como que à espera que alguém a observasse, porém não viu nada de estranho. Regressou ao seu apartamento e ficou a olhar para o cadeado. Não era um cadeado qualquer. Não era aquele que tinha visto na ponte com a sua inicial. Era uma autêntica jóia. Era um cadeado de prata e strass svarowski. Ficou a observá-lo e a trocá-lo de mãos à procura de um sinal qualquer. Onde estava o cadeado de bronze, com a letra do seu nome?
Continuava boiando, isto é, sem saber se havia um ou dois loucos a pô-la de sobreaviso: quereriam ambos molestá-la ou conquistá-la? Todas as hipóteses eram possíveis. No entanto, não queria entrar em histerias. Os mistérios resolver-se-iam a seu tempo. Nada recearia! Até ali ninguém a tinha abordado ou ameaçado. E as prendas que vinha recebendo eram tudo menos ameaçadoras. 
Como Faby lhe tinha dito, até podia ser alguém conhecido que gostava dela e que queria surpreendê-la. Todas as hipóteses estavam abertas...

quinta-feira, 12 de julho de 2012

XXIII Naquele dia...


F Nando

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Na manhã seguinte, a caminho do trabalho parou numa patisserie, bebeu um café e deliciou-se com alguns macarons. Eram estaladiços, leves, doces e desfaziam-se na boca. Pediu â empregada que colocasse uma dezena numa caixa para levar. Pagou e saiu.
Entrou no carro e acomodou a caixa para que não chegassem todos partidos. Saiu sem pressa pois ainda tinha muito tempo. Tivera um sono desassossegado, povoado de pesadelos, fazendo-a acordar em sobressalto. Há quanto tempo isso não lhe acontecia! 
Assim que chegou ao escritório, colocou a caixa em cima da sua secretária e a mala em cima da cadeira. Depois encaminhou-se para a sala de reuniões porquanto tinha convocado uma reunião de equipa. Tinham ganho mais um negócio de design importante. Uma famosa empresa de móveis nacional queria uma linha de móveis modernos, confortáveis e com linhas arrojadas.
Quando entrou já lá estava a sua secretária. Os elementos da equipa foram chegando sem grandes atrasos. A reunião demorou toda a manhã e prolongou-se para a tarde. Mas os resultados foram bastante satisfatórios. Os designers ocupar-se-iam dos esboços e dos materiais a usar, os publicitários da promoção desse produto e Emilie das diferentes reuniões com o cliente. A estratégia de trabalho e intervenção estava delineada.
Emilie foi a última a sair da sala de reuniões. Estava satisfeita. Cada vez gostava mais do seu trabalho. Era bom, tão bom trabalhar no que se gostava. Seguiu para o seu escritório a pensar nos macarons. Hoje sentia-se tal qual Marie Antoinette, que os mandara criar, pois ia deliciar-se sem pressa com esses bolinhos coloridos. Que doce tentação!
Entrou no escritório com um sorriso nos lábios que logo esmoreceu. Os seus macarons tinham desaparecido, em vez disso havia um grande bouquet de rosas amarelas. Ao lado do ramo, um bilhete: Tive de os levar comigo. Pardon. Ia atirar com o ramo ao lixo quando um bilhete caiu no chão. Apanhou-o, mas ficou indecisa se deveria lê-lo ou não.


quarta-feira, 4 de julho de 2012

XXII Naquele dia...


F Nando

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Naquela sábado à tarde Emilie decidiu passear. Melhor dizendo, fundir-se com a turba de turistas que visitavam o Louvre. Conhecia bem todas as alas do palácio. Visitara-as todas em momentos como aquele. Em momentos em que se sentia vazia, só, angustiada. Escolheu a galeria de Napoleão. Aquela era uma bela ala. Gostava do mobiliário, das tapeçarias, das porcelanas, dos dosseis, das diferentes salas. Ao visitar esta ala pensou em Napoleon e Faby. Deveriam estar felizes e ela sentia-se felizes por eles. Um dia visitá-los-iam.
Depois de muito andar no majestoso Louvre, sentiu-se cansada. Foi até à cafetaria e comprou uma fatia de tarte de mirtilo e um café. Como não havia lugar nas mesas, esperou um pouco. Logo depois sentou-se, comeu e repousou. Estava pronta para continuar.
Não estava muito longe da ponte onde vira o seu nome num cadeado. Então, decidiu caminhar até lá e sentir o ar da rua. Só que o cadeado já não estava lá. "Que teria acontecido?" - pensou. "Será que tinha sonhado?" - questionou-se. Na vida de Emilie não havia nada de misterioso ou assim parecia, porque nos últimos tempos estava mais do que rodeada em mistérios!

domingo, 1 de julho de 2012

XXI Naquele dia...


F Nando

***

Emilie retomou a sua rotina. No regresso ao trabalho, tudo estava na mesma. Os colegas mostraram-se curiosos em relação à viagem a Itália, porém a conversa ficou adiada para o almoço. E que almoço divertido foi aquele!
Certa noite, já em casa esticada no sofá a ver televisão, Faby telefonou. Devia ter novidades, pois só costumava ligar quando tinha algo novo para dizer. Ficou surpreendida com o que ela lhe contou. Depois do regresso de Itália, Napoleon tinha vindo passar uns tempos em casa dela. Continuavam a sentir-se atraídos um pelo outro, a bem da verdade sentiam mais do que atração, porque ele lhe tinha proposto para viverem juntos em Itália. 
- Tens a certeza? - perguntou Emilie. - Não estás a arriscar de mais?
- Tenho a certeza, amiga. 
- Pode ser um risco muito grande.
- Tudo é um risco e o que eu quero é não me arrepender um dia por ter tido receio de não ter vivido uma paixão.
- E o emprego? O apartamento? Os teus pais?
- Se um dia regressar arranjarei outro. Alugo o apartamento. Os meus pais querem a minha felicidade. E tu, Emilie, que me desejas?
- Também desejo que sejas feliz. Se é isso que queres, vai. 
- Assim tens uma boa desculpa para me visitares.
- Não precisas de me convencer, Faby. Quando vais?
- Amanhã!
- Já? Isso é que é pressa.
- Não vale a pena adiar o inevitável.
- Claro. Boa viagem, amiga. Dá notícias.
- Obrigada. Claro que darei notícias!
E Faby desligou. Emilie estava surpreendidíssima. Nunca imaginara que a amiga tinha tomado uma decisão tão impensada. Mas Faby era mesmo assim: mais coração que razão. Já ela era o contrário. 
Uma tristeza inesperada tomou conta dela, desligou o televisor e foi para a cama. No dia seguinte já não sentiria essa sensação.


terça-feira, 26 de junho de 2012

XX Naquele dia...

F Nando

***

 O dia de regresso chegou. Emilie ansiava regressar a casa, já Faby não sentia vontade nenhuma.  Pela sua expressão e postura via-se que estava contrariada.  Emilie meteu conversa.
-- Como foi ontem?
-- Um sonho de tarde e de noite. Andámos de lancha no mar Adriádito, ao fim do dia levou-me a um belíssimo restaurante e depois fomos para o apartamento dele que dava para um dos canais. Era lindo.
-- Como foste encontrar um italiano tão charmoso?
-- Nem eu sei. Pensei que eram coisas que só aconteciam em filmes ou romances. Estou estupefacta.
-- Eu também estou, Faby, e não foi comigo.
-- Nunca te aconteceu?
-- Não- Pelo menos não assim.
-- Sério? Quando Émilie?
-- Há alguns anos em Barcelona. Conheci um pintor enquanto visitava a Fundação Joan Miró. Mas só fomos comer umas tapas e não passou disso.
-- Que pena!
-- Que pena que nada. Na altura era comprometida e não ia trair o meu marido. Não podia.
-- Fizeste mal, Emilie. Na altura já o teu marido te traía com umas e outras.
-- Não sou de dar o troco na mesma moeda. Conta-me mais do Napoleon.
-- Tive mais uma noite inesquecível! Ele é um amante meigo, carinhoso, intrigante e insaciável. Chegou uma altura em que já não podia mais! -- confidenciou ao ouvido de Emilie. E Emilie riu-se.
-- Bem amiga, podes deixar de procurar alimento por uns tempos.
-- Qual quê? Achas que sou de ferro como tu? 
-- E quem disse que eu era, Faby?
-- Disfarças muito mal, amiga. Digo-te que gostava que fosses diferente e aproveitasses mais a vida.
-- Isso não podes dizer. Viajo, janto fora com amigos e colegas de trabalho, vou a festas com amigos, vou a eventos sociais, exposições, cinema, teatro,
-- Estou a falar de outro divertimento.
-- Não quero complicações, Faby. Já tive o suficiente!
-- E a pessoa que te põe flores na bicicleta, grava as tua inicias num cadeado numa das pontes e não sei que mais?
-- Não interessa.
Entretanto o avião fez-se à pista e a conversa ficou por ali. Depois de levantarem a bagagem foram para o ponto dos táxis, seguindo cada uma rumo a casa.

terça-feira, 12 de junho de 2012

XIX Naquele dia...

Caffè Florian


Emilie sentia-se muito bem e muito feliz. Estava a adorar a tarde cultural. Nem se importava de ter ido sozinha ver os monumentos. Estava um fim de tarde encantador. Depois de vaguear pelas ruelas e praças de Veneza, regressou ao Caffè Florian não só para comer qualquer coisa, mas também por ser o local de encontro com Faby. Quando o garçon apareceu pediu um capuchino e uma minitarte com recheio de fambroesas e guarnições de chantilly.
Respirou fundo e observou as pessoas que se iam, os pombos e a Praça de São Marcos. Que bom estar ali, naquele café! Que privilégio estar num lugar majestoso e famoso. Por ali tinham passado Lord Byron, Charles Dickens, Marcel Proust, entre outros. Tanta gente famosa num lugar lindo. 
Faby tardava. Apetecia-lhe descansar antes do jantar. Decidiu ir até ao hotel que não era muito longe dali. Tomou um duche e deitou-se um pouco. Acabou por adormecer profundamente. Quando acordou, era já noite e estava às escuras. Acendeu as luzes e viu as horas. Eram nove da noite. Tão tarde, pensou. E nem sinal de Faby! Ligou-lhe mas a sua chamada foi parar à caixa das mensagens. Deve estar bem, pensou. Vem quando quiser e lhe apetecer.
Decidiu jantar no hotel. Comeu e logo depois subiu para o quarto. Ligou a televisão e fez um zaping pelos canais mas nenhum lhe interessou. Optou por ler uma boa narrativa de viagens. Adormeceu com o livro no colo.
Acordou às oito da manhã quando Faby lhe tirou o livro das mãos assustando-a.
-- Não te assustes. Sou eu, a Faby.
-- Que horas são?
-- Oito. -- respondeu Faby.
-- Dormiste fora?
Faby anuiu com a cabeça.
-- Com Napoleon?
-- Si.
-- Então a noite foi boa! Conta! Conta!
-- Foi uma noite espetacular. Aquele Napoleon é...
-- É!? Continua, Faby.
-- É um amante fantástico! Meigo, ardente, apaixonado, incansável.
-- Foi tão bom assim?
-- Para lá de bom! Foi excelente! Um verdadeiro deus italiano!
-- Uau! Quem diria... 
-- Acredita. Ainda nem estou em mim, Emilie.
-- Achas que hoje estás apta para ir passear?
-- Olha bem para mim, achas que sim? Não vou. Além disso, o Napoleon ficou de me vir buscar à uma da tarde. Vou dormir um pouco.
-- Sua marota! Descansa. Não te esqueças que saímos daqui amanhã cedo. Vamos apanhar o avião a Milão.
-- Ok, amiga. Desculpa lá.
-- Gosto de te ver feliz, Faby. Diverte-te. E tem cuidado.
Faby nem ouviu as últimas palavras de Emilie pois adormecera.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

XVIII Naquele dia ...



http://viagenslacoste.blogspot.pt/2010/02/veneza-galeria-de-fotos-8.html

Estavam sentadas na esplanada do caffè Florian  a comer gelatti quando o estranho de Florença se sentou na mesa mesmo ao lado. O garçon trouxe-lhe uma taça de vinho que ele levantou em direcção a Emilie e Faby. A primeira virou a cabeça; a segunda sorriu.
Como Faby sabia falar italiano acabou por responder às insistentes perguntas do italiano. Como se chamavam, de onde eram, quanto tempo ali estariam. Claro que depressa se juntou a elas dispondo-se a servir-lhes de cicerone. Com o seu charme e o seu italiano cantado e sedutor, as duas amigas concordaram.
Pouco tempo depois, Napoleon conduziu as duas amigas pelas ruas estreitas mostrando-lhe Veneza. Contou-lhes que esta tinha sido formada num arquipélago na laguna de Veneza, no golfo de Veneza, no noroeste do Mar Adriático. Perguntou-lhes se sabiam quem era o seu patrono.
-- É S. Marcos. Já estivemos na praça com o seu nome. -- respondeu Faby.
-- Hum, muito bem! -- disse Napoleon.
-- É um lugar belo, mas também o mais baixo de Veneza. -- acrescentou Emilie. -- Gostei muito do Palácio Ducal e do Campanário da Basílica.
-- A Basílica de São Marcos é um importante monumento de Veneza.
-- Majestoso, Napoleon.
-- Si, bella. -- disse voltando-se para Faby.
Faby sorriu ao ouvir o elogio e enrubesceu um pouco. Não sabia por que isso acontecia sempre que lhe dirigiam um piropo, mas nada podia fazer. Parecia timidez. A timidez que qualquer homem aprecia por se saber o causador dessa reação.
No dia seguinte, viram outros recantos da bela Veneza. Atravessaram a Ponte de Rialto, a Ponte dos Descalços e a Ponte da Academia, duas das pontes que atravessam o Grande Canal. Depois do almoço, Napoleon levou-as a ver a Ponte dos Suspiros.
-- É belíssima, não é? -- perguntou Napoleon.
-- Magnífica! É um lugar romântico e mágico.
-- Agora, Faby! Em tempos não era. -- disse Emilie. -- Há uma lenda que envolve esta ponte e que tem atravessado os séculos. É uma história triste.
-- Daí o seu nome: Ponte dei Sospiri.
-- Pois é, Napoleon. Conta-se que esta ponte unia a antiga prisão da Inquisição, que se chamava Piombi, com o Palácio Ducal e era o último trajeto que os prisioneiros faziam antes de morrer. Ora, ao atravessarem a ponte ouviam-se os seus suspiros.
-- Muito bem, Emilie. Conhece bem esta história! Agora é um dos lugares mais visitados pelos turistas.
-- E é realmente extraordinária. E agora? Vamos andar de gôndola, Emilie? -- perguntou Faby.
-- Vou visitar o Museu Correr, quero ver a Ala Napoleónica. Vão vocês. Encontramo-nos na Praça S. Marcos.
-- Ok.-- disse Faby.
-- Ciao, bella! -- disse Napoleon.
E desapareceram.

domingo, 27 de maio de 2012

XVII - Naquele dia...





Florença - Ponte Vecchio
(http://www.vamosparaitalia.com.br/firenze.html)

Emilie e Faby passearam pelas belíssimas ruas de Florença, cidade considerada o berço do Renascimento italiano. Além de visitarem o Tempio Maggiore ("Templo Principal"), considerado um dos mais belos da Europa, visitaram também outras catedrais e museus.  Viram e maravilharam-se com as obras de artistas famosos e intemporais como Michelangelo, Leonardo da Vinci, Giotto, Botticelli e outros.
Depois do almoço, foram à Galleria degli Uffizi (Galeria dos Ofícios) pois queriam ver o quadro "O Nascimento de Vénus" de Botticelli. Passaram algum tempo a admirar o quadro e a tirar fotos às escondidas. 
-- Emilie? Emilie? -- chamou Faby sem, no entanto, conseguir cativar a sua atenção. Parecia enfeitiçada. -- Emilie? Emilie? -- repetiu até obter a atenção da amiga.
-- Que queres? 
-- Está ali, não olhes agora, um italiano a olhar para ti.
-- Estás a brincar!?
-- Não, não estou. Tem-nos seguido desde o almoço.
-- Que nos siga que nós não temos medo. -- disse Emilie.
-- Está a seguir-nos por tua causa. -- acrescentou Faby. -- Nem sequer finge. Olha descaradamente para ti.
-- Pois que olhe. Daqui não leva nada.  E agora que queres fazer?
-- Descansar um pouco no hotel para depois irmos às compras. Pode ser?
-- Sua consumidora compulsiva!!!
--Sim sou! E tu não, Emilie? Então estamos em Firenze, ex-centro da moda, e não fazemos umas comprinhas?
-- Claro que sim! Faço-te a vontade.
Ambas foram para o hotel descansar um pouco. Saíram por volta das dezassete e trinta e entraram em belíssimas lojas, algumas delas instaladas em prédios renascentistas. As decorações das vitrines eram verdadeiras obras de arte. Compraram sandálias, sapatos, vestidos e acessórios. Antes de regressarem ao hotel, Emilie levou a sua amiga a uma das mais conhecidas pontes de Florença: a Ponte Vecchio (Ponte Velha). Explicou-lhe que se  tratava de uma ponte em arco medieval sobre o rio Amo, a única coberta. Era uma das mais famosas por por ter uma quantidade considerável de lojas ao longo de todo o tabuleiro.
-- Lojas? -- amirou-se Faby. -- Que tipo de lojas.
-- Já vais ver. Nem vais acreditar.
E seguiram à beira rio num belo por do sol. 
-- Ah, que lindas jóias! Vou ter de levar pelo menos uma. -- Disse Faby.
-- Estas lojas são famosas por venderem joalharia e ourivesaria. Tudo em ouro e prata. Quero comprar uma bela jóia. É um investimento, certo?
-- Sem dúvida.
-- Depois ainda te mostro outra particularidade desta ponte. Vais amar! 
Faby optou por comprar um belíssimo anel de ouro com uma safira. Emilie comprou uma bela gargantilha em ouro branco com diamantes.
A seguir, Emilie quase que arrastou a amiga daquelas lojas tentadoras. No entanto, não saíram da ponte.
-- Gostaste do passeio?
-- Muito. Gastei um dinheirão. Também não é sempre que o faço. -- disse Faby. -- E agora onde vamos?
-- Ficamos aqui a ver se descobres algo diferente das nossas pontes.
-- Aqui tudo é diferente. Aliás, além está o teu admirador secreto.
Emilie voltou-se para trás e lá estava um belo homem latino que se virou  assim que os seus olhos se cruzaram.


XVI Naquele Dia...


Siena - Piazza del Campo


Emilie e Faby passearam muito nesses felizes e tão agradáveis dias de férias. Daqueles realmente inesquecíveis, para o bem e para o mal.
Alugaram um Lancia para melhor se poderem deslocar entre as localidades que queriam visitar. Ficaram instaladas em estalagens e hotéis diversos. Tentavam ser práticas e poupar algum dinheiro para ver o máximo.
Faby, que já conhecia Roma, levou Emilie numa visita guiada. Esta sentiu-se defraudada com o Coliseu porque o imaginava maior nos documentários televisivos. A Praça de S. Marcos também lhe pareceu pequena, porém a Cidade do Vaticano impressionou-a pela sua grandeza, riqueza e beleza. Adorara os frescos de Miguel Ângelo na capela Sistina. Era um estado rico. Muito rico. Demais. E as catacumbas? Um mundo totalmente diferente: escuro, frio e subterrâneo onde milhares de cristãos se refugiaram ou se exilaram para não morrer às mãos dos romanos. Nos três dias que estiveram em Roma, visitaram ainda a Fonte de Trevi numa cálida noite.
No dia seguinte, rumaram para Siena. Faby conduzia. Sentiam-se livres e ansiosas por continuar a viagem.
-- Gostaste de Roma? -- perguntou Faby.
-- Gostei. Mas acho que estava à espera de mais. Que os monumentos romanos fossem mais monumentais, mais grandiosos...
-- Foi o que eu senti quando cá vim. É a primeira impressão, acho.
-- Sim, deve ser... Sabes, achei o tráfego confuso. A condução dos italianos é de fugir. Não respeitam nada, nem ninguém.
-- O pior mesmo são as motas e as vespas. Não respeitam mesmo as regras de trânsito. Ser-se pião é difícil. -- acrescentou Faby. -- Podes encostar-te um pouco, quando chegarmos a Siena chamo-te.
-- Não te importas?
-- Claro que não, miss Emilie.
Chegaram a Siena à hora de almoço e antes de explorarem a cidade almoçaram numa das esplanadas da Piazza del Campo, na zona medieval da cidade. O serveur veio logo para lhes entregar os menus e explicar qualquer dúvida. E claro que havia algumas. Pediram logo água fresca e vinho tinto.

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Menu

Antipasto all'italiana: formaggi,affettati,sott'aceti.

Primi: pappardelle ai funghi porcini,lasagne,tortellini,cannelloni,pa… al forno,spaghetti allo scoglio.

Secondi: sgaloppine ai funghi porcini,frittura mista di pesce,grigliata mista,salsiccie e patate,rosbief.

Contorni: insalata caprese,insalata mista,patate al forno,contorno di verdure cotte.

Dessert: pastiera napoletana,crostata alla frutta,coppa malù,budini..

Frutta: scegli sempre quella di stagione,talvolta scarsa ma saporita.

Ti consiglio anche il sorbetto al limone per dividere le pietanze di carne e pesce.
spero di averti aiutato!

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Só de olhar para os pratos que chegavam à mesa, um tentador odor colorido enchia a boca de água. Até ali tinha sido o melhor almoço de todos. No fim, pediram café. Enquanto esperavam ficaram a observar o belo edifício da Câmara Municipal, a Torre del Mangia, a praça em forma de meia lua onde se realizava a corrida de cavalos em junho e onde agora se encontravam turistas sentados, italianos a passear, namorados deitados e crianças a correr. A luz era magnificamente projectada pelos monumentos históricos na praça.
-- É lindo! Magnífico! -- disse Faby. Emilie anuiu.
Ali permaneceram dois dias para visitar a catedral, o famoso Campanário da Câmara, ver melhor a Praça. Siena tinha sido considerada pela UNESCO como Património da Humanidade pelo seu vasto património artístico.

Depois desta estadia, seguiriam para Florença.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

XV - Naquele dia...


Emilie e Faby gostavam de viajar e já tinham feito outras viagens juntas. Ambas gostavam mais ou menos das mesmas coisas. O mesmo gosto pela arte, pela leitura, pela profissão, pelas viagens. Eram as duas lindas e solteiras e iriam desfrutar da "bella italia".

quarta-feira, 16 de maio de 2012

XIV - Naquele dia...


 http://www.voyagesphotosmanu.com/mapa_da_italia.html

Naquela último dia de junho, Emilie já tinha as malas prontas. Supunha que Faby também, pois iam encontrar-se dali a pouco no aeroporto. Continuava super entusiasmada com a viagem, apesar de já ter ido a Itália. Havia tanto para ver, amar e degustar! 
Visitariam Roma: levaria Faby a conhecer o Coliseu, as Catacumbas, a praça de São Marcos, a Fonte di Trevi e sairiam à noite. Comeriam um bom risoto e pasta e saladas dos anjos. Ao contrário do que se pensava, os italianos não comiam muitas pizzas, porém faziam-nas para os turistas e eram deliciosas. 
Depois seguiriam para Siena. O que mais gostava nesta cidade era a arte que estava como que ao alcance da mão. Era uma cidade muito rica a nível cultural. Havia numerosas estátuas e obras de arte mostrando, tal como em Roma, os irmãos amamentados pela loba. Levaria Faby à praça principal, em forma de meia-lua, chamada Piazza del Campo, onde se encontrava a Câmara  Municipal, um belo monumento do séc. XVI, com o famoso Campanile (campanário). Nesta praça também veriam a alta Torre del Mangia
O que Emilie mais gostava de ver era a corrida de cavalos.  O Palio decorria duas vezes por ano, a 2 de Julho e 16 de Agosto. Nesta corrida participavam dez cavalos e cavaleiros, e cada par representava um dos dezassete bairros da cidade.
Seguia-se Florença. Ah Florença! Como fora feliz ali com o seu ex-marido. Para que vinha ele visitar o seu pensamento? Não havia qualquer razão. Nenhuma. A cidade de Florença era mágica.A cidade da arte e do futebol. Além disso, era a cidade natal de Dante Alighieri, autor da Divina Comédia. E os museus! Só arte e história e arquitetura.
Seguir-se-ia a visita e estadia na mais bela lagoa do Adriático, a lagoa de Veneza. Como Faby iria adorar andar de gôndola nos canais de Veneza, andar a pé pelas ruas estreitas e atravessar as inúmeras pontes, cada uma mais bela do que a outra. Teria muito que lhe mostrar: palácios, museus, praças e igrejas. 
A última cidade seria Milão onde também apanhariam o avião de regresso. Tinham um bom plano de viagem, parecia-lhe; e que seria sempre discutido com a sua amiga de infância.
Chamou um táxi e foi para o aeroporto onde Faby já a aguardava.

terça-feira, 15 de maio de 2012

XIII - Naquele dia...



Jean foi ter com Emilie ao escritório depois da reunião com as equipas de criativos. Reviram algumas das propostas de publicidade e marketing. Estava tudo correto. Agora era só deixar que o trabalho fosse desenvolvido antes do prazo final para nova revisão. 
Emilie não encontrou nada de estranho em Jean. Não tinha por que desconfiar dele. Era seu chefe e também seu amigo há alguns anos.
E os dias passaram; e as semanas passaram; e os meses passaram. E o dia de aniversário de Emilie chegou. Convidou o diretor do seu escritório, os seus colegas, os seus amigos e alguns familiares. Fez reservas num dos melhores restaurantes da cidade. 
Na manhã do dia do seu aniversário, foi recebida com uma festa surpresa. Estava feliz. Muito feliz. Em breve iria de férias com Faby. Já faltava pouco. Nada a perturbaria. Quando saiu, ainda foi passear.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

XII - Naquele dia...


Faby deixou-se facilmente convencer pela amiga. Claro que iria com ela. Todavia não poderia ser nas datas que Emilie queria, por causa do seu trabalho. Só poderiam ir na segunda quinzena de Julho. Emilie ficou um pouco triste por não poder festejar  o seu aniversário na Itália.
-- Fazemos a festa cá com os nossos amigos. Depois vamos viajar e aproveitar ao máximo.
Emilie concordou porque não havia outra solução. Estava ansiosa que o tempo passasse. Gostava imenso de viajar e já tinha visitado vários países, quer a trabalho, quer de férias.
Um dia depois, soube pelo diretor geral da empresa que tinha sido ele a enviar-lhe a passagem como prémio de bom desempenho. Ela agradeceu e agora,sem saber bem porquê, começou a desconfiar dele.
Podia ter posto as rosas na sua bicicleta; podia ter acesso fácil no escritório à sua chave de casa; sabia o percurso que ela fazia quando caminhava ou corria e assim ter escrito a inicial do seu nome num cadeado. Além disso, tinham ficado muito próximos numa altura em que faziam viagem de negócios juntos. Depois tinham-se afastado.
Por agora, ia ficar atenta ao que o Jean fazia, isto é, como se comportava com ela. Era só estar atenta e juntar as peças do puzzle.

terça-feira, 8 de maio de 2012

XI - Naquele dia...


Os negócios iam bem na empresa. Aliás muito bem. Tinha cada vez mais parceiros de negócios e diferentes oportunidades com outros continentes desde que iniciara a parceria com o ex-marido. 
Emilie vivia cada vez mais num corrupio em reuniões e mais reuniões. Todos na empresa davam o seu melhor por estarem motivados.
Durante algum tempo, não houve mistérios e, por isso, Emilie esqueceu-se por completo desses episódios desagradáveis. Agora, vivia em paz e feliz. Mas, certo dia, encontrou na sua caixa do correio uma carta diferente. Quando a abriu, já em casa, viu que se tratava de uma passagem de avião em seu nome. Ficou estupefacta. Mais uma vez não havia remetente. Mais uma loucura...
E se aproveitasse? Não podia. Não podia ausentar-se de maneira nenhuma. Como assim, não podia? Claro que podia! Fosse lá quem fosse que a queria mandar para várias cidades de Itália, ela iria. Só não iria sozinha. Iria com Faby. Se ela não pudesse pagar a passagem, ela oferecê-la-ia à amiga. Quando iriam? Nada melhor do que por altura do seu aniversário. Que prenda fabulosa! Ela adorava viajar! Além disso, Veneza esperava-as. Dali a mais ou menos dois meses.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

X - Naquele dia...


Emilie nem queria acreditar no que via no seu escritório: o seu ex-marido, que depois do divórcio nunca mais ali tinha ido. Continuava atlético, elegante e muito bem vestido. Ainda assim, ele não a abalaria, nem entraria em discussões. Não havia filhos deste casamento. Emilie bem que o tentara convencê-lo do contrário, porém não conseguira.
-- Bom dia, Emilie. -- disse Eduardo.
-- O que fazes aqui? Não tens nada de vir aqui.
-- Não sejas assim. Se aqui vim era porque precisava de te falar com urgência.
-- Já falamos quando devíamos, Eduardo.
-- Trago-te uma proposta irrecusável.É uma proposta de negócios. A tua empresa vai faturar muito.
-- Imagino... -- respondeu Emilie com desdém.
-- Como és a diretora chefe tenho mesmo de falar contigo. Esqueçamos o rancor por uns instantes. Em nome deste negócio. Em nome da tua empresa onde gostas tanto de trabalhar.
Emilie calou-se por breves instantes. De seguida, pegou no telefone chamou a secretária, que vinha munida de um "lap-top".
Quando o ligou, surgiram no ecrã duas palavras garrafais: AMO-TE ÉMILIE. Perante a estupefação de Louise, Émilie pegou no "lap-top" e leu. E virou-se para Eduardo mostrando-lho:
-- Foi isto que vieste cá fazer? Para fazer troça de mim e dos sentimentos que senti por ti? És anedótico. 
Eduardo só conseguiu rir. Não ria de Emilie, mas do inusitado da situação.
-- Isso ri-te. Ri-te muito e engasga-te com o teu riso!
-- Émilie -- começou Eduardo -- não fui eu. Não fui. Acredita. Vim aqui a trabalho. Eu repito para ouvires bem: VIM A TRABALHO. A tua empresa é das melhores no âmbito da publicidade e a minha empresa precisa de uma equipa de design e marketing para fazermos o lançamento do novo automóvel Roland Garros, da Citroen. O nosso amor já morreu há muito. Deixa-te de egocentrismos.
-- Tens graça, olha que tens. Toma -- disse passando-lhe o "lap-top" -- apaga isso, por favor.
Eduardo apagou as duas palavras e o ecrã voltou ao normal.
A partir dali a reunião correu bem. Eduardo obteve o que queria. Émilie ganhou, sem esforço, um novo negócio. 
Chegou ao fim do dia cansada e feliz. Até se esqueceu dos momentos desagradáveis. Tinha-se exaltado com Eduardo, mas depois soubera recuar e aceitar que ele tinha razão.



quinta-feira, 3 de maio de 2012

ViNtE aNoS



Tinha uns olhos singulares: azuis mar céu sonho. Tinha uma boca com lábios finos: rosados e de sorriso fácil e carinhoso. Tinha umas mãos másculas: fortes como a terra, generosas e tantas vezes meigas. Tinha uma tez clara: ebúrnea e imaculada.
Emigrou. Lograda a primeira tentativa, tentou novamente vencer os Pirinéus e conseguiu. Iniciou nova vida fora da pátria. Antes da segunda tentativa casou. Aí nasceram os filhos: amava-os de paixão.
Gostava de jardins: gostava de flores: amava as rosas. Gostava de estar perto de amigos e familiares: nos piqueniques, nas festas de aniversário, nos jantares.
Em vinte anos nada foi esquecido. Nada. Dia dois de maio é o mês do meu pai. O dia em que a polícia descobriu o corpo amarrado numa raiz de árvore, dentro da água de um rio. Nunca mais fui/fomos os mesmos.

Je t' aime pápá. Toujours!

segunda-feira, 30 de abril de 2012

IX - Naquele dia...


No dia seguinte foi à polícia apresentar queixa "contra desconhecidos", visto não haver um suspeito. O agente que a atendeu colocou-lhe questões a que Emilie respondeu com assertividade. Houve, no entanto, um momento em que o agente sorriu e ela achou que troçava dela, mas não se deu por vencida. Descreveu todos os factos insólitos e depois assinou a queixa. Saiu dizendo: "Bom dia" e pensando que dali não haveria resultados.
Já na rua ligou à sua amiga Faby, a sua amiga de infância, para se encontrarem numa das muitas confeitarias com esplanada. O sol brilhava, portanto o melhor era aproveitar para desfrutar o momento. Quando lá chegou, Faby já estava à sua espera. Sentou-se. Pediram café e um croissant com doce de ovos.
Emilie desabafou então com a sua maior amiga. Contou-lhe tudo. Contou-lhe do medo que sentia por ter recebido uma cópia da chave da sua casa e o que logo mandara trocar a fechadura.
Faby animou-a, pediu-lhe calma e insistiu que ela já fizera o que podia ser feito: ir à polícia apresentar queixa. Se quisesse podia passar uns dias em sua casa, até se sentir mais segura. Emilie agradeceu a Faby, mas disse-lhe que não podia abandonar a casa senão o regresso seria mais difícil. A amiga encolheu os ombros em jeito de aceitação.
À tarde, Emilie foi trabalhar. Sentia um aperto no peito, uma angústia enorme. pressentia que outras coisas estranhas estavam por acontecer. E tanto assim era que, no final do dia, recebeu uma inesperada visita.

sábado, 28 de abril de 2012

VIII - Naquele dia...


Estava um lindo dia: luminoso, colorido, perfumado. Embora fosse um dia de trabalho, não podia deixar de apreciar a sua beleza. Sentia-se bem disposta.
Emilie chegou ao escritório um pouco ofegante e com rosas no rosto. A secretária serviu-lhe água e, mais tarde, depois de ter sido posta ao corrente dos assuntos de trabalho, levantou-se para ir tomar um café expresso. Adorava café! O seu aroma, o seu sabor, a sua cor.
Sentia-se bem por ter regressado ao trabalho. Como o trabalho se tinha acumulado, decidiu almoçar qualquer coisa no escritório. Não queria, nem podia perder tempo. Havia uma campanha de marketing que tinha de ser terminada. 
Desceu para ir comprar uma sande e uma bebida. Acabou por trazer também um crepe com chocolate.  A viagem foi curta e rápida como gostava. Deu de caras com um dos colegas quando saia do elevador. Disseram-se olá e cada um seguiu o seu caminho.
Emilie desabotoou o casaco do tailleur, tirou os sapatos e sentou-se o mais confortável que pôde na sua cadeira de apoio. Comeu rápido excepto o crepe. Ainda bebeu um café e retomou  o trabalho. Quando chegou à sala, já se encontrava lá a sua secretária à espera de indicações e com a correspondência para lhe entregar. Saiu batendo a porta de mansinho.
O correio não se acumulara, até porque agora quase ninguém escrevia. Viu alguns flyers, publicidade que deitou no lixo e, nos últimos envelopes, encontrou um mais pequeno com  o seu nome. Abriu-o e descobriu a chave da porta de entrada da sua casa. 
Desta vez sentiu-se ameaçada. Sentiu medo. Muito medo. Aquela chave era a chave da sua casa. Tinha de mandar trocar a fechadura com urgência. Já eram mistérios a mais. Este último tinha outras proporções. No fim do dia, Emilie foi falar com a sua secretária, mas esta não sabia como é que aquele envelope ali tinha chegado. Não sabia como tinha sido entregue. Emilie pediu-lhe segredo e foi-se embora.
No dia seguinte, mandou trocar a fechadura da porta.



quarta-feira, 25 de abril de 2012

VII - Naquele dia...


Que chave será esta? Só seu que pertence à história de Emilie, no entanto, não sei como. Alguma ideia? Querem ajudar-me a desvendar este mistério? É que Emilie já não sabe onde procurar, o que fazer, como agir...
Desde aquele dia que tudo mudou. Viu a sua privacidade invadida. E até agora tudo continua...

domingo, 22 de abril de 2012

VI - Naquele dia...


Emilie pediu alguns dias ao diretor, na verdade, duas semanas para descansar. Esse fora o argumento que utilizara. Fazia-o, sim, para procurar quem a andava  a incomodar sem mais nem menos e sem lhe ter sido dada autorização. Sim, que ela, Emilie, não gostava de falsas surpresas, de perseguições inusitadas! Não era uma mulher qualquer! Era uma executiva.
As duas semanas correram velozmente. Tirando um fim de semana que foi passar ao campo, com alguns amigos, ficou na cidade. Foi aos cafés e bares onde costumava ir, às confeitarias que adorava, foi às compras, ao cinema com a maior amiga de infância, andou de bicicleta e fez as suas caminhadas. Nada aconteceu e nada descobriu. Estava frustrada!
Num dia em que resolveu ir passear, deu por si a observar um casal de noivos que tiravam fotos à beira rio. Estavam fantasticamente felizes e sorriam para a objetiva, mudando de posição a cada indicação do fotógrafo. Lembrou-se do dia em que também fizera o mesmo com o seu Paulo. Como foi um dia feliz! Como foram felizes, porém essa felicidade duraria um instante apenas! Paulo foi trabalhar para Angola  e apanhou malária. Regressou direto para o Hospital Curry Cabral e mal o viu. Sucumbiu à doença e ela afundou-se na dor. No entanto, com o passar do tempo, reergueu-se dedicando-se à profissão. E gostava do que fazia.
Regressou ao trabalho depois das infrutíferas buscas, pronta a esquecer o caso. Se algo de estranho aparecesse ou lhe enviassem não a tirariam do sério, nem se sentiria ameaçada. Em absoluto.

sábado, 21 de abril de 2012

V - Naquele dia...


A semana passou veloz. Durante dois dias não houve bilhetes inesperados, prendas indesejadas, fotos tiradas sem autorização. O autor ou autora que invadira a sua privacidade parecia ter desaparecido. Ainda assim estaria atenta e de sobreaviso. Não havia certezas.
No dia seguinte, sábado, decidiu  fazer uma caminhada. Caminhou pelas ruas da cidade e depois decidiu-se a correr. Era tão bom sentir o sol e a brisa da manhã. A respiração tornou-se mais ofegante e desacelarou o passo. Tirou a garrafa de água e bebeu uns golos. Sentiu-se melhor e retomou a caminhada. Só parou na "ponte dos enamorados".
A ponte não tivera esse nome no início da sua utilização. Só anos mais tarde, alguém, um casal de apaixonados, colocara um cadeado com as iniciais de ambos e um coração. Deixava ali a prova material  do seu amor. Outros casais apaixonados acharam esta ideia fantástica. E o número de cadeados de diferentes formatos e tamanhos com as iniciais dos casais enamorados multiplicou-se. 
Emilie ficou ali algum tempo. Olhou o rio longamente,os raios do sol a espelharem-se nas águas,os cadeados. Entre eles encontrou um com as iniciais do seu nome. Mas como? Que fazia ali o seu nome?  Saiu dali furiosa e determinada a iniciar uma investigação. 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

IV - Naquele dia...


No dia seguinte, quando o despertador tocou, Emilie desligou-o e deixou-se ficar na cama. Hum! estava-se  tão bem! Espreguiçou-se e levantou-se a custo. Foi direta à casa de banho tomar o duche revigorante  que a ajudava a despertar. Tomou o pequeno almoço à pressa e saiu para ir para o escritório.
Apesar da chuva miudinha, foi de bicicleta. Era Agosto e a chuva nunca vinha para durar um dia inteiro. Chegou depressa, pois havia pouco trânsito. Subiu o elevador panorâmico e, à medida que subia, observou os transeuntes na rua. Como eram poucos, pareceu-lhe ver um rosto familiar. Mas como o elevador subia ligeiro, depressa todos se tornaram pequeninos como formigas.
Depois de ter trocado algumas palavras com os colegas, dirigiu-se para o seu escritório. Em cima da secretária, encontrou um envelope tamanho A4. Não havia remetente. Abriu-o e dele saíram fotos suas: na esplanada com os colegas, a andar de bicicleta, a andar na rua, a sorrir... Que fotogénica que sou!, gracejou. E deitou tudo no caixote do lixo.
Alguém a andava a seguir ou a brincar com ela; disso não havia dúvida. Que fazer? Não tinha como fazer uma denúncia na polícia, visto que não tinha dados suficientes. O melhor era não entrar em pânico e mergulhar no trabalho. Logo pensaria no que fazer.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

III - Naquele dia...


Às cinco horas da tarde, ainda havia sol, Emilie e alguns colegas juntaram-se para beber um copo no restaurante bar que havia em frente ao edifício onde trabalhavam. Todos fizeram os seus pedidos e, naquele dia, apeteceu-lhe beber vinho rosé. Emilie nunca fora grande apreciadora de vinho, mas naquela tarde tão linda, deixou-se levar pela tentação. Conversaram animadamente sobre saídas à noite, cinema, teatro, música. Os sorrisos expandiam-se como ondas. 
Às vinte, Emilie despediu-se do grupo, que parecia estar ali para ficar. Agora tinha pressa de chegar a casa e de ir ao ginásio. As aulas de yoga faziam-na sentir outra. Parecia que o seu corpo adquiria uma elasticidade e leveza que lhe eram desconhecidas. Mas o que a fazia ir para uma outra dimensão era o final da aula: o momento de relaxamento. Conseguia relaxar e visualizar tudo o que o mestre dizia. Vezes havia que parecia flutuar numa imensa bolha branca, azul, laranja. O espreguiçar final era divino. Era ali que se recompunha do stress do dia a dia. Foi a casa num ápice e trocou de roupa.
À saída do ginásio, depois de se ter despedido de todos, pois ali eram uma espécie de família, esbarraram contra ela no passeio. Quase que a iam atirando ao chão. Vociferou uns palavrões feios, arrependendo-se logo depois. Emilie, não percas a compostura; disse-se interiormente. Dirigiu-se à bicicleta e, quando se  preparava para começar a pedalar, reparou que duas rosas tinham sido gentilmente amarradas com um fio no volante. Mais um mistério, pensou. Logo depois meteu a mão no bolso e tirou o envelope que havia encontrado de manhã e do qual se esquecera completamente. Tirou um bilhete e leu as poucas palavras que nele se encontravam escritas. «Enchanté d' avoir fait votre conaissance». E só. Nada de assinatura. 
Olhou à sua volta para se certificar  de que não havia ninguém a segui-la. Não. A rua estava calma. Subiu  para a bicicleta e pedalou velozmente até casa.


sábado, 14 de abril de 2012

II - Naquele dia...


sexta-feira, 13 de abril de 2012

I - Naquele dia...


Acordar, naquele dia, fora simplesmente invulgar e inesperadamente inesperado. Ao contrário de outras manhãs, o despertador não tocou, porém teve tempo de se despachar para o trabalho. Enquanto estava no chuveiro, sob a água tépida, ouviu música na sala. Era uma música com o som de água de um riacho. Mas como podia tocar, se estava só? Dali não podia ligar a aparelhagem de som e não tinha dotes telepáticos! Limpou-se, vestiu-se, penteou-se, maquilhou-se e foi até à sala.
Quando aí chegou, a música tinha parado e nada assinalava qualquer mudança. Convenceu-se que tinha imaginado tudo, como num sonho. Tomou o pequeno almoço e saiu.
Como estava um lindo dia de sol e temperaturas amenas, optou por ir de bicicleta para o trabalho. Era muito comum na sua cidade. Executivos, jovens, belas mulheres usavam e abusavam deste meio de transporte. Era tão agradável. Podia observar-se melhor as pessoas, as ruas, os jardins, o rio. Era também agradável sentir a brisa no rosto. A sensação de liberdade e controlo era tão grande.
Émilie não demorou muito tempo a chegar ao emprego, até porque o seu lindo apartamento, num edifício do séc. XIX, ficava perto. Arrumou a sua bicicleta junto a outras que já lá estavam e entrou no edifício onde trabalhava. Na porta de entrada, um homem apressado esbarrou nela. Não se conheciam mas disseram-se bom dia. No interior, o edifício parecia vazio. O segurança também a cumprimentou. Ouvia o tacão dos seus sapatos no chão. Dirigiu-se ao elevador panorâmico. Como era agradável subi-lo e observar os transeuntes.
Num ato inconsciente, meteu a mão no bolso do casaco e encontrou um pequeno envelope. Quem o teria ali posto? Que diria? Só que o elevador chegou ao piso onde tinha de sair e dirigiu-se ao escritório.