segunda-feira, 11 de julho de 2011

Segredos de Lisboa

Visitar Saramago

Há algumas semanas que visitei o local onde foram depositadas parte das cinzas de José Saramago e a oliveira trazida de Azinhaga, sua terra natal.
Estava um dia poeticamenticamente solar, sem estar demasiado calor. Corria uma ligeira brisa que fazia balançar ligeiramente os ramos da oliveira.
Várias pessoas que por ali passeavam, paravam e observavam a árvore e as inscrições no chão. Algumas reconheciam logo do que se tratava, porém outras ignoravam completamente quem ali jazia. A homenagem ao nobel português da literatura nada lhes dizia.
Fiquei triste. Triste com a ignorância de certos portugueses, já que os estrangeiros que por ali andavam, procuravam mesmo esse lugar. Sabiam e conheciam a obra e as celebrações fúnebres realizadas.
Mais triste fiquei. Por isso considerei que a sua ida para Lanzarote tinha sido o melhor que tinha feito. Além disso, fora lá que tinha sido muito feliz com Pilar, o grande Amor da sua vida.
Quando o lugar ficou vazio, observei melhor a oliveira. No chão dormiam flores murchase outras viçosas, num dos ramos da oliveira havia um bilhete escrito, li-o e achei as palavras apropriadas, li também as placas escritas no chão. Uma tinha a data de nascimento e morte de José Saramago; a outra, uma das frases que antecedem o romance Memorial do Convento.
Quando me sentei no banco que ali colocaram pensei nessas palavras inscritas no chão «Mas não subiu para o céu, se à terra pertencia». Teria José Saramago pedido a Pilar para colocar essa inscrição no solo português, por ser isso o que ele pensava do ser humano e da morte? José Saramago não me elucidou. Nem eu fiz mais perguntas. Fiquei docemente silenciosa e na expectativa. Sentia que algo mais iria acontecer!
Enquanto os segundos de espera se escoavam no tempo, Saramago veio e segredou-me: «Por que esperas ? Não me encontrarás mais aqui! Estou em toda a minha obra!». «Eu sei. - respondi em voz baixa. - Mas agora está aqui, em Lisboa, ao pé de uma das suas muitas leitoras.» José Saramago anuiu e despediu-se dizendo «É uma das minhas mais fiéis leitoras. Fico grato.» E partiu. Nem tive tempo de me despedir...
Mantive-me quieta, com o coração cheio e feliz com esta conversa que ficaria para sempre em segredo. Era preferível que Saramago fosse meu e de todos, aqui, na Terra.
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Participação do mês de Julho de 2011 para a Fábrica de Letras

10 comentários:

Eva Gonçalves disse...

Gostei dessa conversa particular. Uma abordagen diferente ao tema. Eu sou daquelas leitoras que até achava que nem ia gostar de Saramago (sabe-se lá porquê...) e depois fui agradavelmente surpreendida e rendi-me :))Beijinho

Natália Augusto disse...

Querida Eva,

quis iniciar a leitura de Saramago muito cedo e não me dei bem, pois escolhi O Evangelho Segundo Jesus Cristo.
Só mais tarde me tornei uma leitora assídua.

Beijinhos

Mz disse...

É sem dúvida a obra que o manterá vivo.E que bonita forma de chegares até ele e até nós com esta meditação.

Bjs

El Matador disse...

Gostei bastante desta homenagem ao Saramago.

Natália Augusto disse...

Boa tarde

Obrigada pelas suas palavras e pela sua visita.

;-))

Natália Augusto disse...

Olá El Matador,

Obrigada. Até outra postagem!!!

:D

soninha. disse...

Bela página!Um dos seus livros que mais gostei foi Intermitências da Morte.Abraços e muita paz.

Natália Augusto disse...

Olá Soninha

Também gostei muito desse romance. Mas eu sou suspeita porque gostei de muitos outros. Não sei dizer qual é o meu preferido. Também gostei de A Maior Flor do Mundo, um livro infanto juvenil.


Beijinhos

Catsone disse...

Natália, tenho uma espécie de amor/ódio por Saramago. Não obstante o extraordinário escritor, não conseguia simpatizar pela sua pessoa e ideias reais.
Bonita homenagem a quem nos leva para outros lugares sem sairmos do lugar.

Briseis disse...

É muito lindo, o que escreveste... Eu sou uma grande admiradora da obra de Saramago, embora só tenha lido três livros dele. E acho desprezível da nossa parte (portugueses) não sabermos valorizar e merecer o génio que tivemos. Mas, para falar verdade, se eu pudesse ter algum escritor perto de mim e falar com ele, era o Eça, sem dúvida! =)